Coletânea Literária

Você me toca

Você me toca. Você me ama. E diz que eu sou sua. Que eu te pertenço. Você me vê como um objeto? Seu brinquedo?

É por isso que você acha que pode me machucar, me ferir, me matar? Pode quebrar a sua boneca? Nós fizemos amor, e você esteve dentro de mim. Esse fato me torna então sua propriedade? Uma propriedade invadida, mutilada, roubada da sua legítima dona?

Desde que me tornei sua, a vida ficou turva, a minha existência obscura. Não posso mais pensar, não posso mais falar. Não posso mais olhar dos lados. Eu não me visto mais pra mim, eu não respiro mais pra mim, eu ouço e obedeço.

Porque me deixei levar pelo meu desejo de mulher. E para saciar esse desejo eu vendi a minha alma.

Eu não tenho mais amigos, meus pais não falam mais comigo. Eles dizem que você não é bom para mim, mas como um objeto pode escolher o seu dono? Talvez eu devesse ter feito algo lá atrás, mas estar com você então era bom demais.

Aos poucos fui sentindo seus laços, escondidos no calor dos seus abraços. E nas suas promessas de aconchego. Eu cuido de você, e te protejo. Quem vai me proteger de você?

Quando você me olhava, eu sentia uma brisa. E do fogo que nos queimava, caía em mim um lampejo. Agora sinto tanto ódio, sinto tanto medo. Eu quero fugir, quero partir, me desconheço. Mas você, com esse amor que diz sentir por mim, mantêm o meu corpo preso.

A minha mente quer voar, não quer calar, quer se libertar. Eu queria poder respirar, poder pensar, poder escolher o meu lugar. Poder trabalhar. Ter dinheiro pra gastar. Estudar.

Mas há outros homens lá fora. E você pensa que com todos eles eu quero me deitar. Que basta estar lá fora, ao alcance, e irei dar a eles tudo o que dei a você em primeiro lugar. Como se eu tivesse um estoque de almas para compartilhar. Mas tenho uma só, e ela acorrentada ao seu lado está.

E o meu corpo? Ah, o meu corpo é só seu, como você faz questão de ressaltar. Um corpo que você maltrata, que não zela, que o deixa se definhar. E nas suas mãos que machucam, faz o meu sangue jorrar.

Quando acho que não posso mais suportar, que irei morrer se não te abandonar, você me olha e diz que por mim, pelo amor que não quero mais te dar, também irá se matar. Mas eu estou aqui, você não entende? Não precisava ser desse jeito. Não precisava fazer tudo isso que foi feito. Bastava me amar com carinho desde o começo. Sem neura, sem medo, sem posse, sem preconceito. Nós seríamos felizes, se não fosse esse seu medo.

Medo de me ver inteira. De me ver plena. De me ver mulher. Ver as cores do meu espírito e o barro de onde fui feita. Estar ao seu lado, do seu tamanho, como uma igual, como um ser humano. Porque é isso que eu sou. Por mais que você me possua, me invada, e ache que eu sou sua. Eu ainda sou eu, e não um pedaço remendado da sua vida.

Mesmo que para afirmar isso, nas tuas mãos eu tenha que morrer. Eu pagarei o preço. Porque estando viva, ou estando morta, eu me pertenço. E não a você.

Autora: May Margret


May Margret. Escritora. Poetisa. Mãe. Uma sobrevivente. Escrevo para não me esquecer de quem eu sou, de onde vim e o que tenho guardado aqui dentro do peito.


6 comentários sobre “Você me toca

  1. Que final!
    Universal, contemporâneo de todos os tempos. Imagino como seria interessante, facilmente viável, estudar este texto em escolas em sala de aula. Estudar as palavras, a compreensão do texto, identificar as idéias principais e promover um conversa, finalizando com um redação individual sobre casamento, namoro, relacionamentos e posse. Dar conhecimento e estimular o pensar! Ah, isso mudaria tanta coisa… o choque entre a opressão egoísta em casa e o conhecimento e raciocínio libertador com os colegas e docente em sala. Seria útil em especial às meninas, que serão mulheres um dia.

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  2. Gente, amei! Simplesmente genial, tocante, íntimo. Cai como uma luva pro momento que vivenciamos no nosso país. Infelizmente.
    May, você é um talento nato. Meus sinceros parabéns. Amei o texto.

    Curtido por 1 pessoa

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