ENVELHECER

NÃO AGORA, NÃO AINDA…

Amanheci com os pés doendo. Eu sabia, já tinha lido, já tinham me contado. Era a hora deles começarem a doer. Ao tocarem o chão, as solas dos dois pés emitiram uma dor aguda, reclamando pelo frio toque do piso. Encarei os dois, firme, dedo em riste: não agora, não ainda.

No banheiro, uma roupa jogada ao chão, lá no cantinho, pedia um pequeno malabarismo, um abaixar enviesado embaixo da pia se contorcendo para pegar. Antecipando o que já sabia ser um desconforto, respirei fundo. Saí do banheiro com a peça na mão, queixo mirando o alto, pensando: não agora, não ainda.
Enquanto o passar das mãos no cabelo me segredava que já não havia glamour, o espelho, descarado, me gritava que não havia mesmo.
De novo, usei meu queixo como arma e o levantei, em desafio. Um bom corte, uns cuidados legais e aquilo se resolvia. A sobrancelha fez par com o queixo e se levantou também, lançando ao desaforado a frase que, naquele dia, veio a ser meu mantra: não agora, não ainda.
Eu sabia que, aos poucos, tudo começaria a doer, a fraquejar, a perder o brilho, a pedir uma almofada atrás das costas para sentar no sofá…. mas eu estava decidida a deixar não só a almofada mas também o sofá esperando mais um pouco. Ainda sentaria no chão, comendo pipoca com pernas largadas, mesmo que para levantar ouvisse o surdo gemido das costas, para quem diria baixinho: aguenta mais um pouco, não geme agora… não agora, não hoje, não ainda.
Entendi que meu corpo não merecia raiva ou tristeza.
Merecia cuidado. E ternura.
E se o tratasse bem, ele me autorizaria a um ou outro mimo.
Como um saltão.
Depois de me arrumar, desci as escadas altiva, pisando duro.
Fui para a vida olhando com carinho e paciência para mim e com sorriso desafiador para o mundo, pensando:

Porque hoje ainda SIM, ainda assim, eu te devoro.

Autora: Maria Marão


Detentora, há muitos anos, de um cargo gerencial ( concursado e estável) numa empresa de grande porte, pedi afastamento em 2016 quando,aos 42 anos, percebi que a vida é o Agora e que aquilo que tinha adiado a vida toda pedia urgência. Agora escrevo. 


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