“Não se nasce mulher. Torna-se mulher.”

Esta frase da Simone de Beauvoir ajudou-me a compreender a metamorfose pela qual passei.
Muitos irão dizer que nos tornamos mulheres a partir da primeira menstruação, mas não é exatamente assim. Pelo menos, não foi para mim!

A transformação se dar em longos processos mas foi em 2017, aos 32 anos, que está transformação se potencializou. Foi quando renasci da lama como a própria flor de lótus, depois de ter saído ilesa (ao menos fisicamente!) de uma tentativa de estupro. Como toda dor é transformadora, foi a partir deste ocorrido que passei a sentir e compreender as dores de todas as mulheres do mundo (sem exagero nenhum!) e, mais ainda, das que foram vítimas de algum tipo de violência. Neste momento me tornei mulher!

Passei a me enxergar no corpo, na essência, no amor, nas cicatrizes, alegrias, dores e lutas de outras mulheres, fossem elas quem fossem.
Então, finalmente percebi que o machismo sempre esteve presente na minha vida, embora eu não o vice, direta ou indiretamente através de atitudes e comentários muitas vezes vindo de outras mulheres.
A transformação continuou e me tornei mulher quando olhei-me nua diante do espelho e resolvi escolher meu corpo ao invés dos comentários maldosos que escutava, e ainda escuto, de todos os lados e, decidi amar meu corpo como ele é: negro, baixinho, com cabelos cacheados, seios fartos, barriga saliente, com cicatrizes, manchas, estrias, celulites e pelos.
É o meu corpo! É o meu templo! E ele é sagrado exatamente por ser assim!

Ainda neste processo, me tornei mulher mais uma vez quando também aceitei minha menstruação como sendo um estado natural do meu corpo-fêmea. Compreendi que meu sangue menstrual não é impuro, nojento ou podre. Que não preciso esconder o absorvente na hora da troca, para que outras pessoas não percebam que estou menstruada. Afinal, não é vergonhoso está menstruada assim como não é vergonhoso ter a calcinha manchada de sangue. Eu passei a honrar minha natureza cíclica, meu sangue menstrual e, percebi que esta atitude é também um ato revolucionário e até político, pois conheço, aceito e amo meu corpo como ele é e não como querem que ele seja!
Eu me torno mulher todos os dias!
Apesar de toda cultura contrária! Apesar de todo desrespeito oriundo do patriarcado, de uma sociedade machista, racista, preconceituosa, eu ainda me torno mulher todos os dias! Mulher que luta, que é artista, nordestina. Mulher que tem desejos, que não quer ser mãe, que tem seus momentos de fragilidade mas que também é uma mulher força, carinhosa, decidida. Mulher que estuda, que trabalha por conta própria. Mulher que é chefe, que é líder. Mulher que sonha. Mulher que é livre!
Eu tenho me tornado mulher todos os dias e amo todos os dias a mulher que me tornei!

Autora: Gerlane Melo


Gerlane Melo- escorpiana, nordestina, natural do Recife-PE. É artesã e mãe de gatinhos e doguinhos. Acredita que a (R)evolução será feminina se nós mantivermos unidas, e utiliza a escrita como uma ferramenta para esta transformação e para o autoconhecimento.Ama dizer que nasceu para fazer tudo aquilo que dizem que a mulher não pode.”


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