Eu, mulher, existo e resisto

Nascer e se tornar mulher é um ato de resistência. Existir em um mundo tão desigual, um mundo violento e abusivo é um ato de resistência. Tem gente que não compreende essas questões que sempre falamos e colocamos em pauta, ou talvez se façam de desentendidos, já que uma boa parcela foi ensinada a reproduzir o discurso patriarcal machista e levar para as futuras gerações.

Ainda teimam em não enxergar e ouvir o que temos para dizer, insistem em tapar o sol com a peneira, e mesmo assim, resistimos em lutar ainda mais por nossos direitos e conquistas. Ouvi uma vez que não nascemos feministas e sim, vamos nos tornando feministas. Posso afirmar que é verdade, pois acontece e aconteceu comigo. Nasci em uma família que não é feminista e tive uma criação padrão, aquela regada das morais e dos bons costumes, aquela que se repreende boa parte das vontades femininas, aquele padrão que nada tem de feminismo. Entendo que as mulheres de minha família reproduziam falas que lhe foram repassadas, mas mesmo assim era muito desgastante ouvir sempre o mesmo discurso, a mesmas frases. Era desgastante e injusto ver que os meninos da família eram sempre colocados em pedestais, como se fossem soberanos ou algo do tipo. Com o tempo fui me revoltando com essas falas e com certas atitudes, e assim me rebelei totalmente. Foi bom, mas as vezes pego uns olhares de repreensão em minha direção, porém sigo o baile. Não é fácil conviver em uma realidade tão diferente do que pintavam para nós quando éramos pequenas. Um mundinho cor de rosa, onde seus desejos poderiam se tornar realidade, onde princesas eram salvas por seus príncipes encantados. Quando crescemos e vemos a realidade, vemos que muitas das vezes, nós mesmas nos salvamos e que alguns príncipes por aí não tem nada de encantado. É um macho escroto com atitudes ridículas, que acha que você é de propriedade dele. Tudo enganação. Esse mundo que pintaram, simplesmente não existe e nunca existiu. Somos rebaixadas, somos insultadas o tempo todo por padrões impostos, nos dizem que não somos capacitadas o bastante, que não somos inteligentes o bastante, que não somos bonitas o suficiente e são tão tantos nãos e nãos que acabamos, por algumas vezes, acreditando nessas falas. Mas sim, conseguimos dar a volta por cima, sacudimos a poeira e levantamos nossas cabeças. Chorar é preciso, para colocar para fora toda a raiva, todo o sentimento de repudio e ódio por todos os acontecimentos, por todas as injustiças. Enxugamos as lagrimas e seguimos fortes na luta.

A sociedade, muita das vezes nos enxerga como o “sexo frágil”, sim, mais uma das famosas injustiças que nos assombram. Como assim, o “sexo frágil”? É frágil uma mulher que tem duplas, triplas jornadas para sustentar uma casa, para criar seus filhos com dignidade? É “sexo frágil” uma mulher que resiste as agressões físicas e verbais de seus companheiros? É “sexo frágil” uma mulher que vive em um mundo como o nosso, um mundo que não há respeita como se deve? Não, não somos o tal do “sexo frágil”. Que absurdo! Absurdo também termos nossas vontades repreendidas no mesmo campo onde a de meninos são estimuladas e afloradas o tempo todo. Sim, estou falando de sexo. Sexo, a palavra que uma menina nunca deve pronunciar, pois é feio e o que pensariam dela depois? O sexo é um campo de muitas atitudes machistas. Somos vistas nesse meio como uma fonte de prazer para o sexo oposto e não para nós mesmas. Nossos desejos e fetiches muitas das vezes nem são mencionados, colocados na mesa. Teimam, insistem em nos repreender. Não podemos nos tocar, não podemos isso, não podemos aquilo e eu não concordo, eu não aceito! Eu me toco sim, conheço meus prazeres e desejos sim! Não venham me ditar regras, aliás, não venham nos ditar essas malditas regras! Me poupe e nos poupe. Ainda bem que estamos ganhando visibilidade nesse meio, estamos conquistando nosso espaço e produzindo muitos filmes e conteúdos feministas nesse mundo do sexo, que antes era dominado por machismo. Hoje falamos com mais liberdade, mas mesmo assim há olhares tortos. Não ligo. Tenho direito de ter prazer, e de conceder um prazer compartilhado. Sexo sem consentimento é sim, uma violência sexual, é sim uma violação moral e física. Nada se justifica, a roupa usada não justifica, a bebida no sangue, o momento não justifica. Nada justifica quando um “não” foi dito. Atitudes como essas não tem a menor justificativa. E entendam, nós somos as vítimas e não as culpadas. Parem de colocarmos no lugar de culpadas. Quem são os culpados, são vocês portadores dessa atitude absurda e não tentem transferir sua culpa para a vítima. Não endosse ainda mais esse discurso de que nós temos que “se dar o respeito”. Nós merecemos ser respeitadas assim como vocês. Nem mais e nem menos. Respeito é bom em qualquer situação e local, e também deve ser usado sem moderação.

Nós mulheres, ainda possuímos uma vasta gama de situações e lugares, onde nossos direitos ainda não foram totalmente conquistados, como por exemplo, o aborto seguro e legal, onde mulheres que não possui estruturas financeiras e emocionais, não tenha de morrer em clínicas clandestinas e que também não sejam criminalizadas pelo ato. Isso é um direito nosso. A sociedade ainda trata desse assunto como se a mulher que opta pelo o aborto, fosse um mostro, um bicho de sete cabeças. Não, ela não é um mostro. As pessoas, a sociedade tem que parar de julga-las e refletir sobre o assunto. Falam de serem a favor da vida, mas não pensam no que irá acontecer depois que a criança nascer. Falam de serem pró vida, mas não pensam e nem quer levam em consideram as vidas de mulheres, muitas vezes periféricas, que morrem em decorrência de um aborto clandestino. A sociedade quer que a criança nasça. Como ela e a mãe irão viver dali para frente, em um país como o nosso, que muitas vezes falta o básico, que não há uma educação de qualidade, que há uma saúde púbica de qualidade e que funcione para todos, onde não há segurança e tantos outros serviços que são nossos direitos, mas que não funcionam da forma correta. A sociedade, tão certa de seus valores, de seus bons costumes e moral, nem se dão conta do quanto são hipócritas e misóginos. Se realmente fossem certos dos direitos que possuímos, das conquistas e do nosso valor para a sociedade, as pessoas não tratariam nossos direitos e lutas com esse descaso todo. Nós mulheres já somos acostumadas a resistir, mas não devemos, em hipótese alguma, nos deixar abater pelas injustiças do dia a dia. Como no mercado de trabalho, onde não há igualdade salarial e onde também não temos o devido valor. Subestimam nossa capacidade, nossa inteligência. A visibilidade e a representatividade que obtemos hoje é uma conquista recente. Sim, para muitos, não corpos que não sejam magros, um padrão que acorrentam mulheres e homens pelo mundo afora. Nós mulheres sofremos com as comparações, com os olhares sobre nossos corpos, com olhares de reprovação por suas curvas, por seu tom de pele, pela cor e tamanho de seus cabelos. Olhares de reprovações também em seu modo de se vestir. Ter representatividade e visibilidade para mostrar que há sim, diversos tipos de corpos, de cabelos, de tons de pele, de modos para se viver, dentre outras coisas é sim uma conquista e não é balela, não é mi-mi-mi. É preciso mostrar sim essa realidade que as pessoas tampam o sol com a peneira e criam padrões insanos e inalcançáveis. Precisamos falar, debater esse e muitos outros assuntos que não devem ser tratados com tanto descaso.

Ser mulher, infelizmente não é um privilégio, como alguns pensam. É duro, é complicado. O mundo misógino, machista e intolerante, os abusos e violências mesclam uma realidade que muitas vezes não é mostrada, e que a sociedade também prefere não ver. Tantas conquistas, tantos direitos ainda a serem conquistados, tanto espaço, tanta vida a ser vivida. Tantos sonhos, amores, desejos e vontades a serem realizados. Tantas coisas que são impossíveis de numeras, porém consigo chegar na conclusão que o “simples” fato de ser mulher, é sim um ato de resistência. E porque não de existência e coragem. Somos uma incrível fortaleza, não é fácil aguentar o aguentamos, mesmo repetindo que não somos obrigadas a fazer, a realizar algo que não queremos, mesmo repetindo e repetindo que precisamos ser respeitadas, valorizadas e principalmente, que merecemos ter uma vida digna, uma vida que possa ser aproveitada. Precisamos ainda, em pleno século 21, lidar com xingamentos, com a desvalorização, com o descaso, com o desrespeito, com violências, abusos, com o rebaixamento, com homens que insistem em se apropriar e se apossarem de nós. Em pleno século 21, ainda temos muito pelo o que lutar, muitas questões, direitos e problemas que precisam de visibilidade e soluções. Não dá para aceitar viver em um mundo assim, tão injusto e desigual. Um mundo tão sem respeito por nós. As pessoas precisam parar de dizer que “tudo hoje se problematizam” porque estamos colocando e usando a nossa voz para ecoar tudo o que não é visto, o que não é levado a sério, levar a devida visibilidade para as minorias. O mundo de que vivem reclamando que está chato, sempre foi chato para as minorias. Sempre foi chato, colocando uma capa de invisibilidade nas minorias. Colocando-as para escanteio. Usando e abusando de autoritarismo, de poder. O mundo nunca foi igualitário, o mundo nunca foi sem preconceitos. Não tampem o sol com a peneira, eu insisto, pois sou mulher, uso minha voz e não irei me calar. Irei usar minha voz, minha força para conquistar cada vez mais espaço, cada vez mais visibilidade e representatividade. Usarei minha voz para mostrar ao mundo o quanto temos a evoluir, usarei minha existência e resistência para mostrar ao mundo o quanto juntas, somos mais fortes, o quanto que juntas, iremos construir um mundo, um futuro melhor e mais respeitoso. Um mundo mais justo e igualitário. Um mundo mais humano.

Dia oito de março está chegando. Gostaria muito de que as homenagens, os parabéns, as flores e os bombons recebidos fossem respeito. Respeito por nossa existência, respeito pela nossa capacidade, pela nossa luta. Gostaria, de coração, que as palavras ditas e escritas, não fossem apenas da boca pra fora. Que não fossem apenas um amontoado de palavras bonitas e açucaradas. Gostaria que nós tivéssemos uma melhor existência, que tivéssemos o devido valor. E sim, não me canso de dizer, o devido respeito. Respeito, uma palavra muito dita por aí em vão. No nosso caso, nunca levada ao pé da letra. Nunca é levada a sério quando suplicamos e exigimos. Está sim, mais do que na hora da sociedade nos enxergar como seres iguais e capazes de ser e fazer o que quisermos. Nos enxergar como seres livres. Livres para fazer o que bem entender, quando e onde quiser.

Eu, mulher, existo e resisto. Bravamente e não me darei por satisfeita, enquanto não realizar minhas metas, meus planos, minhas lutas, meus sonhos e direitos. Minha devida visibilidade, meus devidos desejos e vontades. Não sou de ninguém e sou dona de mim, dona da minha vida. Não irei descansar enquanto houver desigualdade, injustiças e não termos o nosso devido valor reconhecido. Não irei aceitar ser rebaixada e humilhada. Não irei aceitar que nós continuemos a morrer por não ter direitos assentidos e pela violência cometida pelo sexo oposto. Não irei desistir de nossas vidas, de nossas lutas. Não duvidarei de minha força para mostrar ao mundo do sou capaz. Posso chorar, posso me sentir entristecida. Mas isso não me faz menos forte. Isso serve para me encorajar e me fortalecer. Sou mulher e não desisto. Sou mulher, sou existência e resistência. Se fere minha existência, eu serei resistência.

Autora: Bia Paim


Bia Paim, 19 anos. Uma amante da arte, da escrita. Cria histórias e vive novas realidades todos os dias. Gosta de viver rodeada de gatos e assistir televisão, especialmente para acompanhar histórias de mulheres fortes e determinadas. Ama assistir sua inspiração, a atriz e cantora Marjorie Estiano e ouvir músicas no último volume.


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