Nua e crua

– Mãe, por que os meninos podem andar sem camisa por aí, e eu não?
Eu tinha cinco anos, o calor era de rachar, e tudo o que eu queria era um refresco. Minha mãe, por sua vez, ficou meio sem graça, mudou de assunto, me deixando sem respostas. Na hora, a mudança de assunto funcionou e acabei me distraindo com um passarinho que pousava na árvore mais próxima. Contudo, o tempo passou e, sempre que via um homem sem camisa, o incômodo retornava.

Aos poucos, o mundo foi me mostrando que as diferenças não estavam apenas no calor de verão. O tabu de ter nascido sob o dito sexo frágil, contrastando com ser negra e ter que ser forte o tempo todo. A imposição de ter que dar conta de tudo, tendo que estar bela e impecável o tempo todo. As roupas que eles ainda ditam que eu use. Os rótulos todos: santa, puta, vadia, pra casar… Passei a viver uma angústia eterna que só crescia.

Eles dizendo não, quando eu queria ouvir sim. Eles ouvindo o meu não e o interpretando como sim. Eles que vejo rasgarem e violentarem física e psicologicamente a mim e a todas as minhas. Eles. Eles. Eles. Os meninos andam sem camisa por aí, e eu me policio por ser mulher. O tempo todo, todo tempo.

Pego-me nua, encarando o espelho. Tantos anos depois, já adulta, observo o meu corpo: o cabelo cacheado, a pele negra, os olhos grandes e míopes que me forçam a me aproximar do espelho – ou então não enxergo nada. Vejo o nariz largo, a gordura acumulada ao redor da cintura, as cicatrizes internas e externas. Penso em cada não ecoando no meu ouvido, em cada dor que este corpo já carregou: você não pode, você é inadequada, você nunca vai ser nada, você não merece ter alguém – sorrio. Sorrio, porque ainda encontro alguma força interna que me faz querer gritar, que me move à luta, que me faz seguir.

“Escrever, por si só, é um ato de resistência”, agora é a fala de uma escritora amiga que se repete internamente na minha cabeça e me traz à tona todas as vezes que resisti, todos os momentos em que tive que bater no meu peito e me orgulhar por ser mulher. A literatura tem sido a minha cura e ver o meu projeto literário espalhado pelo mundo registra a minha marca no mundo. Resisto, enquanto cada letra, cada palavra me acolhe. Resisto a cada pessoa que me lê. Meu manifesto acontece, naturalmente, quando me junto a outras mulheres, quando juntas urramos em uníssono: a opressão deles não vai nos vencer.

É verão. Vou ao parque e vejo vários caras sem camisa. Enquanto eles correm com os tórax de fora, as minhas e eu enfrentamos a crueza do mundo.

Autora: Fernanda Rodrigues


Fernanda Rodrigues é professora de inglês e de redação, escritora, revisora, preparadora de textos, leitora crítica e moderadora do Projeto Escrita Criativa. Pós-graduada no curso de Formação de Escritores e Especialistas em Produção de Textos Literários (ISE Vera Cruz), bacharel e licenciada em Letras (USJT). 3º lugar no Prêmio SESC Crônicas Rubem Braga (2017), com o texto “Lembranças com cheiro de bolo quente”. Tem textos publicados nas antologias Amor e Resiliência (Projeto Escrita Criativa), O que elas contam? (Cartola Editora) e Museu de Memórias (Carreira Literária).  Escreve desde 2006 no blog Algumas Observações e no Wattpad.


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