A memória é imperfeita

A estrada serpenteava pela serra, e o pequeno automóvel ia devagar. Em alguns pontos era possível ver a cidade lá embaixo, parecendo bem mais próxima do que os dezoito quilômetros que as placas indicavam. Ao volante, uma mulher de cabelos curtos que beirava os quarenta anos observava a paisagem, sentindo uma fugaz tranquilidade. No banco do passageiro, um jovem alto e forte falava sem parar sobre a faculdade, o time de basquete, as músicas do momento. No banco traseiro, uma senhora miúda fazia um ou outro comentário.
– Marília, olha o cafezal.
A mata nativa desapareceu, dando lugar a muitos pés de café dos dois lados da estrada. A mulher que dirigia olhou para a plantação, sem muito interesse, e murmurou qualquer coisa. O rapaz tocou em seu braço.

– Mãe, você sabe que horas são?
Marília olhou para o relógio no painel do carro.

– Faltam dez para as seis.

– Tudo isso? A avó deve estar muito cansada.

– Não estou, não, Guilherme – disse a senhora. – Estou adorando.

Na beira da estrada apareceram algumas casas rústicas. Davam uma impressão de abandono, com as janelas de madeira cheias de cupins. Há muito tempo, a cal nas paredes perdera a cor, tomada pelo musgo e pela umidade. Havia falhas no reboco, mostrando os tijolos irregulares assentados com barro. Eu não teria coragem de morar num lugar como este outra vez, pensou Marília.

– Olha as plantações de café. Você não tem saudade, filha?
Ainda se lembrava de todos os detalhes. A casa da fazenda, grande mas precária, com o pé direito alto e a enorme sala de estar para onde todos os outros cômodos convergiam. O assoalho de madeira e o tapete de couro de boi. O sofá e a televisão do lado oposto da janela, o cantil e o berrante pendurados na parede, e o resto da sala vazio. O barril de carvalho cheio de aguardente. O banheiro imenso, com azulejos rústicos, que ficava gelado no inverno e desencorajava as crianças de tomarem banho. Tinha saudade?

– Nem um pouco.

– Eu não posso ver um pé de café, que lembro do seu pai. Eu era feliz e não sabia.

Que coisa, pensou Marília, nossa memória é imperfeita, e depois que tudo passa lembramos apenas o que nos convém. O pai fora tão severo e ruim para elas, incapaz de qualquer gesto de carinho, impondo suas vontades como se as mulheres da casa fossem sua propriedade. Por isso ela se casara tão jovem, deixando a fazenda e a vida limitada que conhecia.

– Eu não. Era muito infeliz. Prefiro mil vezes a vida que temos agora.
A mãe suspirou, passando a mão pelos cabelos ralos tingidos de acaju.

– Sabe que nunca acostumei com a água da cidade? Até hoje ela tem gosto de piscina…

– Na roça era tudo água de poço – explica Marília, voltando-se para Guilherme. – Tinha uma bomba que levava a água até a caixa, que ficava em cima do banheiro. Era duro quando a caixa esvaziava à noite, e alguém tinha que descer no escuro para ligar a bomba. Demorava uns quarenta minutos para encher. Imagina, a gente bebia água da torneira mesmo. E ninguém ficava doente por isso.

– Uma vez você me contou uma história daquela menina que trabalhava na casa. Acho que era aniversário dela, ou coisa assim, e o tio Mário aprontou com ela.

Desta vez Marília sorriu.

– É verdade. Seu tio só aprontava… Ficou mais de uma semana enchendo uma cartela de ovos para jogar na Clara. O cabelo dela era bem comprido, e ficou todo melado! Aí ele se trancou no banheiro, abriu o chuveiro, a torneira e ficou dando descarga no vaso, até acabar toda a água da caixa. A coitada teve que ligar a bomba e esperar quase uma hora para poder tomar banho…

O sol se aproximava do horizonte, esmaecendo o contraste entre luz e sombra na paisagem. As imagens surgiam vívidas na lembrança, como se o tempo não tivesse passado. Clara, filha de um casal de colonos, que fora copeira da casa grande dos treze aos quinze anos. Uma menina baixinha, com cabelos castanhos e pele de um tom moreno sujo, cópia fiel de sua mãe, que trabalhava nas plantações de café da fazenda. A casinha precária onde sua família vivia, com uma enorme mangueira no quintal, e Clara dando milho para as galinhas. O pai de Clara ficava louco: é muita comida para elas, milho custa caro. Mas ela sentia pena dos bichos, não queria que passassem fome. E o sol no final da tarde tingia o céu de laranja e vermelho, como esse sol de agora.

– A Clara era terrível – observou a mãe. Marília agora pensava nos bichos da fazenda. Cabras, galinhas, patos, todos à vontade no quintal limitado por cercas de arame farpado. A cadela Neguinha, gerando e amamentando um monte de filhotes que iam ficando por ali, latindo para os carros que passavam pela estrada de terra. A poeira que invadia a casa, as janelas de madeira, os tapetes de barbante. O pomar que ficava atrás da edícula. Hoje em dia as frutas no supermercado custam caro, onde já se viu cobrar três reais por uma dúzia de bananas? Na roça as mangas e laranjas perdiam-se, eram muitas, as famílias não davam conta de consumir tudo.

– Não era? Você não achava a Clara danada?

– Não sei se era… – refletiu Marília – Tínhamos muita curiosidade em relação aos meninos, só. Acho que eu é que era muito boba, com esse negócio de meu pai não me deixar fazer nada. Ficava chocada com as coisas que ela me contava, mas pensando bem, era tudo normal. Ela era mais velha, claro que acontecia antes com ela. O primeiro beijo, o primeiro porre. A primeira transa também. Normal. Não vejo nada de errado. A gente é que era muito atrasada.

A idosa ainda olhava para fora. Passavam por uma porteira rodeada de belíssimos flamboyants, e naquela área o acostamento estava coberto de flores.

– Sei não. Eu tenho uma cisma que o seu pai teve algo com ela.
Guilherme recordava o avô, que falecera quando ele tinha dez anos. Uma figura enorme de cabelos brancos e revoltos que ele ao mesmo tempo idolatrava e temia. Enchia-se de orgulho quando alguém da família comentava sobre a semelhança entre os dois: uma curiosidade da genética, porque Marília não se parecia com o pai.

– Por que você acha isso, vó?

A memória é imperfeita, Marília já não se lembra mais do perfume que o pai usava, do som de sua voz, de seus passos no assoalho de madeira. Nem mesmo se lembra da cor exata de seus profundos olhos azuis. Lembra-se do desejo de liberdade, da sensação de terem-lhe cortado as asas, disso se lembra e às vezes ainda sonha, acordando no meio da noite com a ilusão de que ainda era a menina da fazenda. O pai era rígido e moralista, gostava de tudo direito. A mãe tinha ciúmes até de sua sombra, decerto estaria imaginando.

– Teve um dia que ela ficou para jantar, e já estava escuro. Quando ela foi embora, ele se ofereceu para acompanhar. Não tinha necessidade, ela sabia o caminho, estava acostumada. Então nesse dia ele demorou para voltar, acho que foi aí que tudo aconteceu.

– Será que ele não parou para conversar com os pais dela?

– Não tem por quê. Eles se viam todos os dias na roça.
Guilherme começou a tamborilar com os dedos nos joelhos, num gesto de irritação.

– Eu não acredito que meu avô tenha feito isso.

– Também acho difícil. Ele não era santo, devia ter lá as suas mulheres por fora. Mas a Clara era menor. Não acho que ele ia querer encrenca.

– Que menor! Naquele tempo ninguém ligava para essas coisas, não.
Naquele tempo era difícil ser mulher. Marília encontrava pouco apoio para sua teimosia em querer estudar. Eram quarenta minutos na perua Kombi da prefeitura para chegar à escola na cidade, e nunca voltava para casa antes das onze e quarenta da noite. Clara não frequentava a escola. Os pais achavam que menina não tinha que estudar, para não ficar achando que era melhor do que o marido. Bastava ler e escrever o mínimo e ser prendada. Faculdade era uma pouca-vergonha, uma moça como Marília não haveria de querer frequentar um ambiente onde se aprende tanta imoralidade.

– Fico imaginando a Clara com seu pai naquele banco de madeira, debaixo do jacarandá. Parece até que estou vendo…

– Não é possível, mãe! Bem ali, onde passava todo o mundo!

Marília sentiu uma fisgada de culpa por ser impaciente com a mãe. Achava que esta falava muita bobagem, era fácil de enganar, acreditava em tudo que lhe diziam. Tinha que creditar essa inocência à sua falta de instrução e ao pouco conhecimento do mundo além das cercas da fazenda. Mas via claramente o motivo pelo qual deixara tudo para trás; não quisera ser como ela, não quisera enterrar seus sonhos e viver para as expectativas alheias. Guilherme não achava que a avó era ingênua. Às vezes ela falava coisas maldosas, com intenção de ferir. Doía quando alguém reclamava de seu avô adorado. Por que uma vida inteira ao lado dele, se era tão ruim?

– Eu só sei que, depois de uns dias, ela apareceu com uma correntinha de ouro. Quando perguntaram pra ela, disse que foi o patrão que deu. Aí fiquei mesmo com a pulga atrás da orelha. Ele nunca deu correntinha nenhuma pra você que é filha, por que ia dar para a empregada?

– Tem que ver se foi mesmo ele que deu – murmurou Guilherme.

– Por que ela ia falar isso, se não fosse verdade?

– Ah, sei lá! Podia ser de algum admirador, não é? E se ela não queria que os pais soubessem?

A cidade estava bem mais perto agora: a placa indicava seis quilômetros. Já haviam completado a descida da serra, e não se via mais o sol. Marília permanecia muda, absorta em seus pensamentos inquietos. Ainda podia ver Clara dando milho para as galinhas nos fundos da casa minúscula com a mangueira no quintal, ou dando risadinhas tímidas quando algum menino da cidade estava por perto. As próprias mulheres do ambiente onde Marília crescera eram machistas, embora nem se dessem conta.
Por que levantar suspeitas de velhos pecados? Seu pai estava morto, e Clara casada. A antiga empregada da fazenda hoje fazia doces para festas sob encomenda numa cozinha arejada e muito limpa. Tinha duas filhas que se esforçavam para estudar; o marido era trabalhador e bondoso. Ainda era tímida e conservava os cabelos compridos presos num coque. Marília não se surpreenderia se ela criasse galinhas no pequeno quintal de terra da casa na cidade.

– Que importa isso agora, mãe? Para que revirar o passado? Nós nunca vamos saber.

– Pois eu tenho certeza! Ninguém tira isso da minha cabeça.

A memória é imperfeita; Marília já não sabia se o pai tinha sido um homem íntegro. Recusava-se a compactuar com a angústia e o rancor da mãe. Nunca ouvira falar de nenhuma correntinha de ouro, nem de qualquer pecado escondido de sua companheira de infância. Se algo tivesse acontecido, a culpa não era da menina ignorante de catorze anos, mas do fazendeiro de quarenta e cinco. O que não sabia era se haveria como, depois de tantos anos, amenizar o mal que estava feito. Quem sabe a memória de Clara também fosse imperfeita, e não lhe roubasse a coragem para enfrentar a vida.

À sua frente, as primeiras estrelas começaram a surgir.

Autora: Jenny Rugeroni


Jenny Rugeroni nasceu em São Paulo, em 1975. Ainda criança, mudou-se para o interior com a família. Ganhou seu primeiro prêmio literário aos doze anos, e desde então não parou de escrever. Atualmente é bancária, formada em Comércio Exterior e mãe de dois filhos. É autora dos romances “A Herdeira do Silêncio” (2011) e “O Segredo da Amoreira” (2013), além de vários contos e crônicas de sucesso, entre eles os premiados “Identidade”, “Um passo no escuro”, “O crucifixo” e “A idade do exagero”. Em 2016 publicou seu primeiro livro de não-ficção, “Virando o Jogo do Amor”. No ano seguinte, em parceria com os autores Marcus Alencar e Viviane Righi, publicou também o livro de crônicas “Fluindo o Olhar – Fragmentos e Memórias de um Blog”.


Comente sobre isso

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s