A despedida da mulher serpente

O peixe fresco e o chá estavam em cima da mesa. Havia também um pouco de arroz dentro da tigela. A casa permanecia no mais completo silêncio. Vovó Yasu estava no templo fazendo suas orações. Os pequenos “Ohashis”, como eram chamados os gêmeos, brincavam com origamis. Papai estava na lavoura de arroz e mamãe lavava algumas peças de roupas.

Sayuri, o pequeno lírio da família, estava sentada nas margens do Lago Saiko escrevendo alguns poemas. O dia estava muito bonito e tranquilo. As árvores balançavam seus galhos verdes com a ternura da mão que embala o sono das crianças. O vilarejo exibia a mesma busca pela perfeição e devoção ao trabalho que tinha encorajado durante os séculos todos os ancestrais. Ali, a vida era boa.

Os longos cabelos pretos de Sayuri estavam ornamentados com flores e um kanzashi. Ele tinha sido presente de mamãe quando Sayuri completou quinze anos. Jamais poderia ser exposto na varanda, pois poderia atrair demônios e calamidades. Sayuri não poderia ser descuidada com ele e nem poderia perdê-lo. Era um presente sagrado.

Enquanto escrevia os seus poemas, a jovem sentiu que a temperatura do ambiente estava caindo rapidamente. Os pássaros já não cantavam e as árvores estavam agitadas. Sayuri observou que algo se remexia dentro do lago. Temerosa, levantou-se rapidamente. Quando estava de pé, viu seu caderno de poemas cair. Ao se abaixar para pegar, notou que algo se aproximava. Então Sayuri viu.

Nure Onna, a mulher serpente, estava quase nas margens do Lago Saiko, próximo aos pés do pequeno lírio. A poderosa yokai das águas, com seu rosto feminino tão lindo quanto vitórias-régias e seu corpo de serpente, maior que o de uma sucuri. Seus olhos venenosos eram dourados, maliciosos; a boca continha dentes pontudos e as escamas de sua pele eram afiadas. Seus enormes e longos cabelos negros circulavam grande extensão das águas.

Nure Onna retirou a cabeça da água e dirigiu a palavra à Sayuri:

– Ser da terra, desejo algo que é seu.

Gaguejando, a jovem responde:

– Em… em que posso ser útil, Grande Ser das Águas?

– Eu quero o kanzashi que você carrega nos cabelos.

Com profundas lágrimas nos olhos, Sayuri se ajoelha diante das águas e implora:

– Misterioso ser das águas, permita-me ficar com o meu adereço. A ausência dele trará má sorte para a minha família.

Enfurecida, a mulher serpente levanta seu imenso corpo das águas. O rosto humano desaparece na monstruosidade daquele yokai.

– Vou drenar todo o sangue de seu corpo, sua insolente!

Sayuri tenta correr, mas é golpeada pelo imenso rabo da Nure Onna e arrastada para as águas. O lago sereno ficou turvo e agitado. Sayuri tentou resistir aos prantos, cravando os dedos na terra, mas afundou no lago.

No fundo das águas, a grande serpente iniciava o “abraço da morte” na jovem integrante da família Iyashi. Quase dando os últimos suspiros, Sayuri vê quando o kanzashi cai de seus cabelos. O demônio aquático levanta Sayuri e está prestes a mordê-la, quando uma luz muito forte fere sua visão.

Nure Onna solta a jovem e, petrificada, vê um espírito de luz se aproximando.

– Eu sou Kaguya Hime, a princesa da Lua. Fui invocada por Iyashi Yasu, avó de Iyashi Sayuri. Ordeno que você volte para o fundo do lago e nunca mais apareça. Despeça-se deste mundo, Nure Onna, yokai das águas. Eu ordeno!

Lançando para o ar um grito lancinante, a mulher serpente afunda nas águas do Lago Saiko e nunca mais é vista.

Raios de luz brotam dos dedos de Kaguya Hime e o sol, os pássaros, as árvores e o frescor da manhã retornam para aquela região. A princesa da lua desaparece no meio de um foco luminoso intenso e brilhante.

Agradecida, Sayuri levanta-se da água e, na margem, encontra o seu kanzashi e o seu caderno de poemas. Graças às orações da avó, uma mulher que resistiu às guerras e invasões, ela estava viva.

De joelhos, Sayuri reverenciou os seus ancestrais e Kaguya Hime. Ela dedicou-lhe poemas e histórias. Ainda hoje, os sucessores da família Iyashi guardam o kanzashi de Sayuri. Dizem que um lindíssimo lírio brota a cada lua cheia bem no centro do kanzashi.

Autora: Rafaela Torres


Rafaela Torres é psicóloga, escritora e gamer. Adora cozinhar e ilustrar! É co-autora dos livros “Um Coração e Duas Almas” e “Os Olhos do Coração”, escritos em parceria com Mara Vanessa Torres, sua irmã e melhor amiga. É apaixonada pelos seus três gatos, por anime, mangá, cultura japonesa, chinesa e sul-coreana.


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