A LUNETA

O balançar das ondas me desperta. Águas suaves, macias e discretas. Hoje elas estão mansas. Não querem assustar ninguém. As gaivotas sabem disso e pousam sem medo na beirinha da praia. À procura de alimento, elas bicam a água e acenam umas para as outras. Com o canto do amanhecer, esses pássaros de luz soltam o seu feitiço em cima dos mortais.

No firmamento, onde o oceano tem as suas próprias regras, o sol abraça mais uma vez o mundo. O vem e vai das ondas toca os meus pés. É uma sensação difícil de descrever. Fisicamente, posso dizer que sinto os resquícios do frio noturno misturado com o calor do amanhecer. Esse é o momento em que as águas do mar tornam-se híbridas. Nós, seres humanos, podemos aproveitar essa sensação em duas ocasiões a cada novo dia: no nascimento do sol e da lua.

Caminho pela praia enquanto ouço a natureza me desejando um bom dia. Envolvo o meu corpo com um abraço e recoloco o xale em meus ombros. Feito pela minha bisavó, as linhas de crochê resistem até hoje. É verde como uma esmeralda e lembra a cauda de uma sereia. Sempre que saio de casa nas primeiras horas da manhã, costumo levá-lo comigo.

Durante todo o percurso, imensas formações rochosas fazem companhia aos peregrinos.  Há também o “olá!” dito pelos ventos, pelos tatuíras e bolachas-da-praia, escondidos nas areias e visíveis a olho nu. Nessa mesma paisagem, há belezas marinhas que usam um véu imperceptível. É maravilhoso saber que entre os grãos de areia existem seres tão bem escondidos, pertencentes à microfauna, e que tem tanta importância para o ecossistema! Eles fazem o seu trabalho silenciosamente, sem precisar de aplausos, holofotes ou identificação.

É essa artimanha da natureza que vaga pelos meus pensamentos quando coloco os pés dentro da areia próxima às águas do mar. Devagar, sento em um monte de terra ainda não acariciado pelas ondas. Lembro da vida que eu costumava ter: tudo tão rápido, quase impossível de acompanhar. A pilha de papéis misturava-se com blocos repletos de anotações, manuais técnicos, campainhas de telefones, gritos vindos de todos os lados e conversas intermináveis. Tudo isso para fazer o dia funcionar bem.

O despertador digital tocava às cinco horas da manhã. Um tempo enorme gasto em selecionar roupas, adereços e maquiagens. Não havia ninguém ao meu lado para sussurrar “Tenha um bom dia! Eu te amo! Te vejo mais tarde”. O lençol do quarto era impecável. Todas as minhas roupas pessoais e de cama, mesa e banho vinham da lavanderia com o frescor das flores do campo. Um tubo de amaciante era colocado na máquina de lavar. O melhor amaciante, para simular muito bem o cheiro.

A bancada do banheiro estava dominada por cosméticos adquiridos por valores acima de três dígitos. Na geladeira, apenas alimentos sem conservantes, gordura, açúcar ou lactose. Na mesa, nada com glúten ou aditivos. Móveis e eletrodomésticos comprados sem desconto ou promoção. Um carro na garagem comprado pelo preço de um apartamento popular. Sem preocupações com a conta corrente ou com os investimentos e ações. A vida seguia conforme o roteiro.

No trabalho, havia os amigos de ocasião, os clientes satisfeitos, os presentes caros, os eventos dignos da nobreza, as piadas sem graça (mas era necessário rir), o sexo sem compromisso e a diversão dos fins de semana. Mas, por trás de tudo isso, eu sentia cansaço. Algo tão forte como um polvo que captura e mata a presa sufocada. Ou como uma última valsa com alguém de quem nunca saberemos o nome ou veremos o rosto.

O apetite pela competição, estimulado pelos chefes e gestores, mascarava o que nenhum de nós gostaria de repetir em voz alta. Uns seriam presas e outros predadores. Não havia lugar para todos no avião do sucesso. Afinal, há caçadores de cabeças e há as cabeças.

Eu aprendi isso na pele quando confiei em uma pessoa que considerava amiga. Contei-lhe os meus planos, dividi as minhas ideias e o meu próprio sorriso honesto, sem segundas intenções. Não demorou muito tempo para que sentisse em minhas pernas o fogo disparado pela arma da inveja e da cobiça. Fui lançada para trás e, atônita, senti a tristeza de quem provou do copo da traição.

Sem grandes surpresas, a dor me tornou uma predadora feroz. Nada me abateria. Nenhuma espada transpassaria as minhas vísceras novamente. O panfleto colocado na entrada do trabalho seria levado ao pé da letra daquela decepção em diante. Ele dizia, em letras garrafais que lembravam um outdoor:

“Quer nadar com os tubarões? Então não sangre”.

Eu obedeci. Não sangrei por fora, mas tive hemorragias intensas por dentro. Só percebi como as gotas vermelhas estavam coaguladas em meu organismo quando sofri um acidente de carro. Com traumatismos e cortes profundos, fiquei em coma por onze meses no hospital.

Sem visitas, sem flores, sem cartões, sem lágrimas. Sem mãos para confortar, rezar ou retirar os cabelos que insistiam em cair em meus olhos. Apenas meu nome no prontuário médico conseguia provar que eu estava realmente viva.

Número do prontuário: XXX. Data de abertura: YYY.

Nome completo: Y.M.P.

Não foi a presença e o carinho de parentes ou amigos que atestaram a minha existência naquele hospital por quase um ano. Foi o meu nome em um prontuário.

Ao receber alta, voltei para o apartamento repleto de bens e vazio de mim mesma. O que tudo aquilo significava? Trabalho, família, dinheiro… O que era tudo isso para mim além de palavras?

Na noite de uma terça-feira, lembro bem, percorri as ruas e as lojas da cidade sem qualquer objetivo. Apenas caminhei.

O meu ser era oco, sem qualquer promessa que o completasse de energia ou sangue. Baixei a vista para não ser importunada por supostos conhecidos. Sem razão alguma, além da vontade de fugir do número de pedestres nas ruas, entrei em um antiquário. Toquei objetos de vidro e madeira só para sentir a textura, o toque. Quase tropecei em uma pilha de copos e pratos quando observei o artefato curioso sustentado por alguns livros.

Feito de madeira, ele aumentava gradativamente. No fim da sequência, um buraco segurava uma lente. Perguntei quanto custava. “350 em dinheiro e não se fala mais nisso”, respondeu o vendedor.

Chegando em casa, abri o aparelho e apontei para o céu. No alto, a lua imperiosa mostrava que perfeição não existe: as crateras e os declives estavam ali desde muito antes de Galileu. Uma sensação de paz e conforto tomou conta de mim como eu nunca antes havia experimentado.

Não sei quanto tempo passei observando o céu, a lua, as estrelas, o rastro leitoso da Via Láctea. Adormeci mergulhada na mais profunda tranquilidade. Quando acordei, tomei a decisão de que a minha existência, até então longe de refletir quem eu realmente era e dando espaço ao vazio e ao tédio mascarado, teria carta branca para encontrar sua própria estrada. Abandonei o antigo, doei bens e usei o dinheiro restante para auxiliar na minha busca. Levei comigo uma mochila com poucas roupas, um calçado adicional, a luneta que adquiri na loja e uma bússola.

Hoje, olhando o sol abrilhantar o voo das gaivotas, vendo as partículas de água se transformarem na imensidão do oceano, eu sei que consegui encontrar as peças do mosaico que permaneceram perdidas por muitos anos. Tenho uma casa modesta, faço minhas refeições com tempo e prazer – e que maravilha é sentir o gosto da cebola refogada junto com as cenouras cortadas em rodelas e um punhado de lentilhas recém-lavadas! – e ganhei uma família e amigos que velam pela minha felicidade e pelo meu sono.

Todas as noites, observo o céu com a minha luneta. Ela me ajuda a ver que o espaço é muito maior do que nossas insignificâncias e que há um mundo inteiro para sentir de perto. Há dias frios, melancólicos, cheios de declives e armadilhas pontiagudas. Mas há também dias frescos, ensolarados, suaves como o canto das gaivotas e eterno como o mar.

E são esses dias que eu carrego comigo, seja para onde for.

Autora: Mara Vanessa Torres


Mara Vanessa Torres é jornalista, escritora e crítica cultural especializada em slow journalism. Escreveu os e-books “O Som do Abismo”, “Átimo”, “Sopro das Trevas”, “Invencionices de Outro Mundo”, “O Perfume da Serpente” e os livros “Os Sonhos de Jurema e Outras Historietas Sem Tempo” e “O Outro Nome do Céu”, publicados em formato artesanal e de forma independente. Ao lado da irmã Rafaela, escreveu “Um Coração e Duas Almas” e “Os Olhos do Coração”. É apaixonada por literatura, história, cinema, música, belas-artes, observações silenciosas, peregrinação existencial e ficções-reais. Assina a série de crônicas urbanas “Crônicas de uma Andarilha Pós-Idade Média”. Aprendeu que existem verdades que mentem.


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