Ser, mulher

Germinamos no meio fio,entre os blocos de concreto por onde vocês pisam e cospem, menosprezando toda e qualquer dor que venhamos sentir. A censura da nossa voz, dos nossos peitos e nossas bocetas, seus elogios que reviram o estômago e suas flores tão envenenadas quanto suas intenções, mascaram o medo em termos cada vez mais força.

É mais fácil silenciar o que não é capaz de lidar. Apesar de fatigadas a gente tá sempre renovando aquela pele esfolada,pois ser eu, ela, elas, pesa o corpo que sendo meu e delas, e só por ser meu e delas é violado, tocado, transpassado por debaixo dos tecidos costurados sobre a pele. Eu existo, me alastro e incomodo nesse teu silêncio de quem finge não ter feito nada, nessa ideia estúpida de achar que o sangue que corre nas minhas veias e os pelos que crescem pelo meu corpo te pertencem. Que esse meu corpo por inteiro te pertence. Aqueles gritos travados na garganta arranhada de quem viveu séculos em silêncio, hoje ecoam pelos quatro cantos. Silêncio aquele que tava corroendo a alma desse ser mulher que resiste em meio a esse enlaço apertado desde que nasceu. Semeia flores na rua,aquela mesma rua que em noites de medo tiram a segurança de ser quem se é, nos fazendo cobrir um pouco mais em certas esquinas para que não sejamos mais uma estatística, mas nada disso faz diferença não é mesmo? Sou uma que veio de outra, que nasceu de outrora do seio daquela que da vida. Mulheres que dão vida a mulheres e as querem mortas. Hoje, amanhã e todo dia, de uma raiz que se arranca despretensiosamente, nascem outras tantas julgadas e estereotipadas com todo xingamento dito do gênero feminino. Por ser livre. A puta, a mulamba, a problemática, a maluca, a possessiva, uma qualquer. Sendo resumida em músculos e pele. O coração pulsa, a pele queima e eu sinto tudo isso. Todas aquelas que não existem mais aqui, continuam se espalhando, crescendo pelas paredes das dores, das perdas. Sabe aquelas vozes? Elas continuam ecoando em cada puxão de cabelo, cada tapa na cara, cada palavra maldita. Nesses pedaços ao léu, tudo me pertence, desde as pontas soltas, até os nós na garganta. Por mais que existam rótulos nas costas, não chegam nem perto do que é ser eu mulher.

Autora: Dayana de Oliveira


Dayana de Oliveira nascida no Rio de Janeiro em 20 de Julho de 1999.Comecei a escrever ficção aos 14 anos.Hoje sou graduanda em pedagogia e dona do insta Antologia Textual,um verdadeiro caos poético.


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