A mulher contemporânea — pela Literatura e pela História

Veja se concorda comigo.
Mulher é como a literatura. Duvido até mesmo que as questões existenciais e a arché dos antigos apresentassem tantas variações quantos foram os papéis das mulheres na história da humanidade.
No início, seu “endeusamento” se dava pela sua fertilidade: era símbolo de continuidade das gerações, da perpetuação da espécie humana. Muitas comunidades matriarcais se levantaram por conta dos descendentes desses seres quase celestiais ofertados pelos deuses para que a vida tomasse forma.

Depois, o homem passou a tomar as rédeas da moral e da razão. Ah, minhas irmãs… Foi aí que nosso papel se restringiu ao que, com o tempo, foi de puro instrumento de vazão naturalista a “bela, recatada e do lar”. Os gregos, em sua maioria, veneravam a grande Atena Partenon
enquanto restringiam a nossa cidadania. Os romanos nos deram a função de donas de casa, cuidadoras exclusivas dos filhos e devotadas ao marido. A Igreja do Antigo Regime condenou os nossos corpos, os nossos desejos e a nossa voz, mesmo que Maria fosse nosso modelo mais
exímio: sinal de coragem, dar a luz a um filho não concebido pelo homem em uma sociedade tão restrita. Joanna D’Arc não teve melhor destino ao tentar se apresentar na figura masculina; fomos
condenadas à fogueira apenas por tentarmos. Na literatura, entretanto, até então nossa figura passa de platônica a tentadora: alguns não nos alcançam as graças — de uma pureza sem graça e, com certeza, utópica — enquanto Matos afirma que as brasileiras desviam-no do caminho.
Veja se há alguma lógica. Os desvios morais dos homens canalizados naquelas que mal podiam expressar contentamento ou desgosto, razão ou emoção. E assim permanecemos por longo tempo, mudas frente a um mundo que cada vez mais se transformava, nos transformava e abria
nossas mentes a novas possibilidades.

Idade moderna, tempos de guerras, e a imagem das mulheres muda novamente. Agora somos as mães dos pobres e dos aflitos, aquelas que promovem o auxílio independentemente de religião ou credo, apenas por sermos mulheres. A bondade e a devoção emanam de nosso espírito
naturalmente. No Arcadismo, somos obra prima da natureza. No Romantismo, morrem por nós. Parece bom demais para ser verdade.
O Realismo, então, começa a mostrar as suas garras. Machado e Azevedo mostram, com maestria, o “outro lado” de ser mulher. A exploração sexual, os estigmas da sociedade, a religiosidade que, muitas vezes, oprime; a liberdade de escolha. Os tempos começavam a tornar a sociedade ciente de que havíamos acordado, enfim. Aquele incêndio, naquela fábrica, provou ao mundo que estávamos sozinhas. Até então. Mas nosso avanço não poderia ser detido. A evolução pode ser atrasada, mas não impedida. Lutamos através dos séculos pela nossa voz e
pela vida que há muito tiraram de nós nos dando funções e atributos que não se apresentam senão como frutos de uma época. Hoje, somos tudo aquilo que colecionados ao longo do tempo.

Somos a fortaleza das famílias.
Somos a força motriz que gera a vida.
Somos a intelectualidade contemporânea.
Somos a maioria da população mundial.
Somos o brado da calma e do furacão.
Somos a própria expressão da revolução dos tempos.
Sozinhas, muitas sustentam o peso do patriarcado em relacionamentos abusivos, cuidando sozinhas dos filhos, trabalhando pelo pão de cada dia, submetendo-se à escravidão do mundo contemporâneo e, ainda assim, em um estado de transição: entre consciências fechadas, a identidade dupla de “mulher moderna” e “mulher do lar”. Mulheres como Simone de Beauvoir e Marie Curie ampliaram as portas para a ascensão, que agora percorremos.
Mulheres do mundo todo, não vos deixeis calar pela palavra que oprime ou pela mão que condena; não abaixais as vossas cabeças uma vez mais. Tomai com coragem a vossa cruz e transformai tudo aquilo que lhe diz respeito, porque o mundo também é teu. Ajudai as tuas, porque, unidas, venceremos.
Se não desistimos nessa longa caminhada, não será por isso que desistiremos agora.
……

Autora: Aimê Fonseca


Apaixonada pelas Letras e pelos mistérios de autoconhecer-se. Apesar de ainda nova, escrevo há
algum tempo e, a cada dia, cresce o meu apreço pela literatura moderna que liberta o espírito dos
estigmas e do materialismo. Graduanda do curso de Enfermagem pela Universidade de Brasília e
escritora da revista online Fazia Poesia, arrisco contos, crônicas e poesias mais no intuito de dar
vazão aos pensamentos que impressionar pela beleza dos versos.


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