Bianca mudou

Já fazia algum tempo que Ronaldo via mudanças em sua princesa Bianca. Ela já não via os canais infantis, as unhas já não estavam mais pintadas de rosa. O cabelo de sua filha parecia maior e mais bonito e agora ele se perguntava em que raio de lugar venderia aquele baton preto que ela usava o dia todo.

Ronaldo sabia que a filha estava crescendo, mas até bem pouco tempo, ela brincava e agora sequer tirou da caixa a última boneca que o pai lhe deu, numa tentativa desesperada de reconquistar sua menina.
A caixa sumiu com boneca e tudo e assim como quem não quer nada Ronaldo perguntou para a esposa Carla, onde estaria a boneca, será que a mãe havia castigado a menina, colocando o brinquedo em cima do armário? E qual teria sido a travessura da filha? Carla riu muito com a pergunta, pois Bianca já tinha altura e sabia mexer na escada com desenvoltura.

A esposa sugeriu que a filha guardasse a boneca para sua neta e a resposta quase matou Ronaldo do coração. Mas, no meio de uma tosse de engasgo com a própria a saliva, o pai ouviu de Carla que a filha preferiu mandar a boneca para doação, pois pretendia ser mãe depois dos trinta e até lá a boneca estaria muito ultrapassada.
E ultrapassado era como se sentia Ronaldo, vendo mãe e filha admirando sites de moda e falando coisas impossíveis para sua compreensão. Parecia que se formava um clã de mulheres dentro de casa. Isso era perturbador porque ele não teria como entrar no grupo e menos ainda concorrer a liderança. Quanto mais o pai se questionava, mais se perturbava com as próprias suposições. Elas não poderiam se tornar amigas porque Carla nunca saiu do seu papel de mãe, nem poderiam ter um grupo de mulheres porque Bianca era uma menina.
Eram muitos os fatos perturbadores na vida de Ronaldo. De uns tempos pra cá, Bianca havia parado de brigar com o irmão caçula Edson na hora do jantar, no máximo o chamava de criança e puxava algum tema político para conversar com os pais.

O pior de todos os acontecimentos foi quando a filha chegou cantando abraçada com uma caixa de bombons. A mãe perguntou quem lhe dera e Bianca respondeu sem pestanejar: “eu mesma, porque eu mereço”.
O pai não entendia, mas respirava aliviado e resolveu investigar. “Foi por que você tirou nota 10?”. Bianca explicou sem cerimônias que só tinha conseguido tirar 7, mas que merecia comer chocolates, pois afinal ela havia sobrevivido à prova de matemática.

Para a surpresa de Ronaldo, Carla concordou com a filha, já que antigamente ela passava muito mal. Mas, Ronaldo não conseguia entender porque diabos a filha se presenteava, mesmo não tendo se saído tão bem e resolveu acreditar no óbvio para ele, isto é, a filha estava namorando.

Depois desse dia, Ronaldo começou uma saga de incertas na escola, investigações em redes sociais e olhava o celular de Bianca sempre que a filha dormia. E nada encontrava.
Depois a situação foi se tornando mais intensa, Bianca tinha comentários mais audaciosos e corrigia o pai sempre que a chamava de minha princesa. Ela dizia: “eu não sou princesa”. Pior que a fala, era o olhar da filha que dizia: “nem sua”.
E de quem Bianca seria, quem teria seu coração, ela não tinha namorado, nem grandes mudanças nas amizades, mas estava diferente. Uma noite, não se aguentando mais em todos os seus questionamentos, ele resolveu conversar com a mulher que matou as dúvidas com muita simplicidade dizendo que agora Bianca é mulher.

Ronaldo franziu a testa e antes que pudesse gritar perguntando sobre o nome do filho da mãe, Carla se adiantou com a resposta, a filha havia menstruado e se sentia mulher. Ronaldo atônito fez indagações, querendo saber se a filha não havia chorado ou ficado com nojo. A esposa resolveu não responder, apenas pegou um livro para ler na cama antes de dormir.

No quarto ao lado, Bianca pesquisava em seu celular como pintar e fazer texturas para mudar o rosa do quarto, talvez para outro tom da mesma cor, mas que representasse seu momento. Ela estava cheia de vontade de botar a mão na massa e de se sujar de tinta, pois já não via seu quarto como um castelo, mas como um pedaço de sua meninice que em breve deixaria no passado.

Autora: Rosa Scarlett


Desde pequena gosto de ler e de escrever, foi em casa que desenvolvi o gosto pela leitura quando ganhei uns livros de crônicas da coleção “Para aprender a gostar de ler”. Nestes livros conheci este genêro literário que tanto me encanta e grandes escritores da Literatura Brasileira. Com o passar dos anos fui me apaixonando pelo cinema e com a mente criativa ficava imaginando algumas histórias, umas para colocar no papel, outras para ver na telona.
A vida e os diferentes caminhos que as pessoas trilham me fazem pensar que cada pessoa é feita de várias porções de substâncias diferentes que acabam por materializar escolhas que quem vê de fora, nem sempre entende.
A vida nem sempre traz histórias felizes e sem acreditar que a escrita seria para mim, acabei embarcando em outra profissão na qual eu veria muitas histórias reais e nem todas felizes. Nelas eu poderia ter alguma participação, mas jamais poderia definir o final. E cursei Serviço Social, a profissão que traz à tona as porções de crítica e de indignação que existem dentro de mim, de forma construtiva. Levei muitos anos até voltar a escrever. Antes disso, me tornei mãe, constitui família, que são as maiores felicidades da minha vida.
Com todo os meus esforços para esquecer minha porção escritora, volta e meia algo dela pulava de dentro de mim e eu me pegava imaginando histórias. Até que decidi voltar a escrever, estudar tanto o cinema, como a literatura. No cinema sou encantada pelos roteiros e venho escrevendo os meus, na literatura gosto de escrever contos e crônicas, mas também me aventuro em poesias.
Assistente Social por profissão, escritora por emoção, no meu trabalho escrevo relatórios sobre histórias reais nas quais questões como família, desigualdades e violência são analisadas.
Como escritora meu manifesto é resignificar, sempre busco trazer leveza para que o escrevo, com histórias sempre fictícias, mostrando o lado belo que existe na vida, porque acredito que beleza e fantasia são porções que existem dentro de todos nós.


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