Mais do que um simples corpo feminino

Eu sou mais do que um simples corpo feminino que vagueia neste planeta, também sou uma mente, também sou uma alma. Por vezes boa, outras má. Geralmente fico má quando sinto que me ofendem e que me desrespeitam além dos limites que eu tolero.

Eu mulher, existo e nasci com escolhas. No final, tal como tu, serei a única que “responderei” pelo que escolhi fazer com estas três coisas: o meu corpo, a minha mente e a minha alma. Sim, eu vou “responder” ao Ser que deu origem à minha existência e que me colocou neste mundo físico em forma de mulher. Sabes, nesse momento eu poderei até estar ao lado, repito ao lado, mas não estarei nem acima, nem abaixo. Eu também não estarei em frente a outros seres iguais a mim, mas sim
eu estarei diante do meu Criador. Será por Ele que serei considerada, “julgada” pelo bem ou pelo mal que escolhi fazer. É a Ele, em primeiro lugar, que devo satisfações do que andei a fazer com o meu corpo, mente e alma.

Homens, nós mulheres também existimos. Não se coloquem na posição de acharem que têm mais direitos do que nós neste mundo, isso seria o mesmo que nos chamarem para a “guerra”. É que o facto de alguns de vocês pensarem isso, revoltame! Quando eu me revolto, admito, é uma “porcaria”. Entende que é uma “ porcaria” porque eu na luta por aquilo que é meu por direito passo de ser flor para ser um “bicho”.

Na minha educação é assim que funciona: se tu podes, eu também posso. Não me faças o que não gostarias que eu te fizesse. Porquê? O que te faz achar que eu sou obrigada a aceitar tudo isso que me fazes e permaneças em paz achando que eu não posso ou nunca te irei fazer o mesmo? Tu apenas estás com sorte porque se eu ainda não fiz, foi porque eu tenho caráter, eu tenho honra. Pelo caráter e pela honra
eu existo e resisto.

Tu não vais fazer-me isso. Nunca! Não comigo. Por isso hoje podes escolher: ou tens o “céu” comigo ou então o “inferno”. Isto é o que sou, se não gostares tens bom remédio para o problema: vai à busca de uma “idiota” que esteja disposta a te ver sair de casa, de repente, enquanto ela vai estar em casa à tua espera, vezes sem conta… Nunca, não comigo! Que a “idiota” me desculpe por assim defini-la, talvez ela
é apenas mais uma vítima desta sociedade, mas eu não quero ser.

Ai, se a minha mãe soubesse o que eu “aceitei” este tempo todo. Ela iria dizer que eu estava “LOUCA”. Então eu vou te dar a razão quando disseste que eu era “LOUCA”, eu realmente fui quando deixei que tu tivesses me tratado assim!

Eu não sou um negócio, sou uma mulher, sou uma pessoa. Eu dei-te tudo o que eu podia, incluindo tudo o que eu tenho que não presta.
Eu também posso tirar-te tudo, incluindo tudo o que eu tenho de bom. Esforço-me tanto por esse lado bom, mas será que alguém o vê? A maior parte não vê, porque o meu trabalho neste mundo quase sempre é invisível até o dia em que eu o deixo de fazer. Aí, provavelmente és o primeiro a reclamar.

Não, não queiras transformar uma pessoa que pensa em uma boneca que tudo aceita. Uma vez que uma mente humana entende que o céu é azul, já não há nada que a consiga fazer vê-lo de outra cor. Não me obriques a isso, assim chamas-me para a luta e na luta eu não presto, nela sou um “bicho”.

Eu sou mais uma guerreira “anónima” que não tem prestígios sociais e um público aplaudindo a cada vez que sobrevivo a mais um dia neste mundo louco. Eu resisti porque decidi que aquelas fases não seriam as ditadoras da minha vida. NãoNfazia parte de mim escolher assim. A injustiça que se levantou em meu redor, me afetou e obviamente que me incomodou, mas não me definiu!

Houve pessoas à volta que comentaram “mudaste muito, a mulher que eu conhecia não era uma pessoa assim amarga, era uma pessoa doce”. Eu continuo a ser doce, mas já não saio por aí a espalhar a minha doçura pelos quatro cantos da Terra, não sem antes ter a certeza de que existem pessoas que a merecem e que não a usarão contra mim. Admiti que também às vezes sou amarga. Todos nós somos compostos por doçura e por amargura. Somos amargos quando a injustiça nos atinge. Quem diz que não é, na minha opinião está carregando uma máscara bem pesada.
Liberte-se da representação e seja o que é! Precisamos aprender a soltar as máscaras que a sociedade vai nos impondo.

Eu nasci num corpo feminino e isso dificulta a minha passagem neste mundo. É assim que é suposto ser? Porquê? É por isso que eu afirmarei: “Eu, mulher, existo e resisto.” Farei isso na esperança de que quando outros seres femininos cá chegarem e por aqui vaguearem, sintam felicidade em serem quem são. Que esses seres femininos nunca sintam a necessidade de pensar, uma vez sequer, que talvez teria sido melhor ou mais fácil ter nascido homem.

Autora: Freda Pinto


Eu sou a Alfreda Pinto, criadora do blog “Adeus Epistemofobia”. Uma jovem a caminho dos 27 anos que vive na Ilha da Madeira. Sou, também, uma esposa e a mãe de uma menina e de um menino. Gosto de leitura, artesanato, entre outras coisas. Tento escrever o que penso, mas o que penso movimenta-se conforme o que a vida me ensina. Entre outros motivos, eu escrevo para que o mundo saiba que eu também passei por cá e como foi que me senti.


2 comentários sobre “Mais do que um simples corpo feminino

  1. Republicou isso em Adeus Epistemofobiae comentado:
    É com muita alegria que compartilho com vocês que o meu texto “Mais do que um simples corpo feminino” foi escolhido para fazer parte da Coletânea Literária que a Maria Vitória do blog “a estranhamente” criou para reunir diversos escritos num E-book de forma a honrar Março como o mês da mulher. Esses escritos são unicamente de mulheres. Não esqueçam de ir lá espreitar… 😊

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