Parto do mundo

Quando eu descobri meu corpo, logo, encobri meus olhos.

Não tinha forma ou cheiro, gosto ou receio.

Era cegueira sem fim, era eu sem mim.

Então sangrei.

Aos oito anos sangue de rubra dor certeira, fechei as pernas e abri as lágrimas que muito corriqueiras anunciava: era o fim.

Descobri logo o corpo. De repente era teta, quadril, buceta, era eu ali, perdida na infância, quando o sangue já descia em mim.

E diziam cadê os namoradim?

Eu infante, eu encanto, eu não cabendo em mim.

Gritei, sangrei, gritei.

Sorrateiro gemido que forçou sair.

Descobri, aos poucos, que o sangue não dizia mais de mim.

Dizia dos outros e do crack do meu mundo.

A cegueira se desfez na cantada da imundice, na jornada marcada na pele de mulher, que é estar vestida mais pelada nos olhos de outrem.

Quando descobri meu corpo, descobri que em mim jazia o conforto de ser só assim, ser só em mim.

Mas abri os olhos.

Vi só aqui a casa que nunca consegui, nunca previ, mas existia em mim.

Os olhos dos outros são cegos e os meus já enxergavam.

Existe beleza, ainda que doída, em se descobrir.

Liberto meu corpo, deixo escorrer o sangue, provo o gosto, o cheiro, me lambuzo por inteira e pela segunda vez vejo o mundo.

Nasci.

Autora: Jéssika Pereira


Jessika Pereira Damásio é psicóloga e mestra em Psicologia Crítica. Tem como objeto de seu afeto o pensamento tateante das relações do corpo e do sexo na história, com ênfase no corpo da mulher. Escreve por fome, é faminta por vida e procura viver para escrever. Se orienta pelo toque em busca da experiência sensível e da vida que vale a pena ser vivida. Sonha com mergulhos profundos entre as constelações.


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