Personagem: Mulher…

Na semana-mês que passou por mim, atribuíram-me uma vez mais o adjetivo característico durante uma fala: “achava que você era lésbica-sapatão”… devido ao meu jeito-estilo de ser-existir e de se vestir. Eu ri porque nunca me ocupei de rótulos. Não os atribuo, tampouco os considero para consumo. Nunca me preocupei com a imagem que o outro tem de mim… até por considerar impossível saber o que o outro vê quando me olha-observa. O olhar tem suas formas peculiares de rótulos e eu nunca me afeiçoei as fôrmas e suas formas. Sempre fui aquela que fugia das multidões, procurando o lado contrário, o canto oposto…

Eu tinha pouco mais de oito anos quando ouvi pela primeira vez a palavra androginia. Respirei fundo e senti qualquer coisa de segurança-acolhimento. A repeti em voz alta algumas vezes… e, de posse de seu sentido-significado, certos desenhos se agarraram a minha matéria — uma espécie de tatuagem. Era uma palavra na qual atracar a minha existência. Mais tarde seria uma frase — inteira —, de Bevouir a causar turbulência nessa embarcação que sou: “não se nasce mulher”. — e, eu sorri… como se tudo em mim fizesse algum sentido. 

Naqueles dias eu não era nada. A pele, a voz, o corpo… estavam em mutação. Eu tinha dobrado de tamanho. Meu corpo tinha novas formas… de seios, bunda, coxas. As roupas precisaram ser trocadas… e um par de tênis não durava nem seis meses — perdas e ganhos, próprios da idade.

A mente seguia inquieta e a alma selvagem. Os gestos indóceis… e eu ainda não era alguém. As mutações iriam muito além da matéria… e o espelho não dava conta de exibir tudo que acontecia em minha embarcação. Era necessário estar atenta a tudo para não me perder e cair nas emboscas traiçoeiras da realidade, moldada por certos senhores e senhoras, com seus malditos manuais de existir.

Eu tinha uma certeza: não queria repetir fórmulas, formas. Queria experimentar, ousar, descobrir, provar de tudo um pouco… até compreender o humano que eu era. Abusei dos excessos, enganos. Somei e subtrai com a mesma voracidade. Encarei o espelho e celebrei meus cabelos brancos no meio da segunda década de vida.

A mulher que eu sou… é causa-consequência de todas as escolhas feitas, decisões de momento ou de uma vida inteira. Sei de que gosto — do que não é lugar comum — o que sinto — amor e ódio em proporções iguais — e penso — nada é para sempre, absolutamente tudo é para nunca mais — e, principalmente, sei o que vejo quando encaro o espelho pela manhã, após molhar o rosto com água fria…

Uma mulher que ama-odeia-tropeça-cai-se-levanta, que gosta de percorrer calçadas, atravessar ruas, dobrar esquinas, tropeçar em vultos humanos — reais ou imaginários —, contornos urbanos, pisar poças, observar cotidianos impossíveis-improváveis. E que sabe, conscientemente que, se lhe fosse dado o direito de nascer de novo… seria na mesma pele — porque nascer nos coloca em igual condição: uma multidão de nada-ninguém.

Autora: Lunna Guedes


“Tive consciência de que uma primeira questão se colocava: o que significava para mim ser mulher? Primeiro pensei poder livrar-me disso rápido. Nunca tive sentimento de inferioridade, ninguém me havia dito: “Você pensa assim porque é mulher”; minha feminilidade não me atrapalhava em nada”. — Simone Beavouir, em o “segundo sexo”.


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