CONTE-ME

Eles estavam ao nosso redor, gritando, cuspindo, xingando, brandindo objetos que não pareceriam armas no nosso dia a dia.

Formamos um círculo e colocamos as crianças no centro. Elas se abraçavam, choravam, sem saber o que estava acontecendo.

Também não sabíamos.

Só sabíamos que queriam nos queimar. Queriam arrancar nossas peles para vestir no inverno, usar como ornamento em casa, brandir como medalha de honraria…

Queriam pegar nossas crianças amaldiçoadas e usar como combustível para nossas fogueiras.

O fogo vinha de seus olhos, e as piras, de sua ira. O tempo parecia correr a favor deles, e logo nossos corpos não passariam de uma pilha de pele derretida aqui e ali, para que todos moldassem a seu bem querer. Não éramos nada mais além de animais ferozes quase prontos para o abate. Vamos morrer. Mas vai ser da mistura do sangue, cinzas e gritos que vamos renascer.

Consigo me ver nela enquanto a garota dos cabelos vermelhos cantarola uma música de ninar ao recolher a mesa. Tão bonita, tão nova, tão inocente… Minha menina pouco sabe sobre o mundo, e não sei se conseguirei lhes apresentar os horrores de onde vivemos.

As crianças mais novas já estão dormindo há tempos, a noite já caiu lá fora e as estrelas já tomaram conta do céu negro, e sei que ela também já deveria estar na cama a essa hora, mas minha menina sempre faz questão de estar por aqui.

– Como era a que vocês cantavam? – Perguntou-me ela, me surpreendendo.

– Do que você está falando?

– Como era a cantiga que vocês cantavam pouco antes de fugirem? A senhora nunca nos contou – respondeu ela, surpreendendo-me mais uma vez. – A senhora nunca nos contou essa história por completo, na verdade. Só algumas partes.

– Você quer saber como era na vila, meu bem?

– Não só na vila, mãe. Mas como foi sua chegada lá, e o que aconteceu com vocês.

– Você é muito nova para isso, minha menina – falei, acariciando seu rosto.

– E como você espera que eu cresça se não me permite conhecer parte da minha história? O que lhe constituiu como mulher, também me constitui como mulher, mãe. Me permita conhecer um pouco mais disso.

– Tudo bem, querida. Mas não é algo bonito. E não tem um final feliz. Pelo menos não para todas.

– Me conte a verdade. É isso que quero ouvir.

– Pois bem, lhe contarei.

Não me lembro de muito da minha chegada a vila, apenas do que me foi contado depois de mais velha. Mas sei que cheguei ali com pouco mais de sete anos de idade. Suja, faminta e muito desconfiada. As garotas tentaram se aproximar de mim por várias vezes, mas eu não queria contato com ninguém. Eu tinha algumas feridas pelo corpo, e mesmo sentindo dor, não permitia que se aproximassem para cuidar dos ferimentos. Me recusava a sair do beco o qual tinha me enfiado. Elas me levavam comida por várias vezes durante o dia, levavam brinquedos, e até mesmo outras crianças, na tentativa de me fazer sair dali, mas eu não queria sair por nada. O medo de ser maltratada mais uma vez era grande demais.

Até que ela chegou.

Mima chegou até mim levando um pedacinho de chocolate, o qual eu devorei em uma mordida. E quis mais. Mas ela disse que no dia seguinte traria um pedaço maior. E fez isso por vários dias, com pedaços cada vez maiores. Quando os pedaços eram muito grandes, eu demorava para comer, então ela me obrigava a conversar com ela, senão não traria mais no dia seguinte, e assim eu o fazia. E assim ela foi ganhando minha confiança. Até chegar o dia em que Mima me convidou a ir buscar o chocolate com ela. De início, recusei. Disse que não queria mais chocolate, então ela sentou-se ali comigo e disse que esperaria até eu querer novamente, então cedi e a segui até sua casa. E foi assim que ela me conquistou. Me deu banho, tratou de minhas feridas, e cuidou de mim por mais tempo que eu sequer possa contar.

Naquele lugar só viviam mulheres. Desde garotas mais novas que eu quando cheguei, até senhoras que poderiam ser minha bisavó. Algumas simpáticas, outras reclusas, e aquelas que não falavam muito mais todos conheciam. Não muitas. Mas uma família extensa.

Fui acolhida na casa de Mima, e ali fui criada. Na casa, éramos sete pessoas. A matriarca, que era a mãe de Mima, Mima, eu, a irmã mais nova de Mima e mais três garotas acolhidas.

Só Mima e a mãe trabalhavam fora da casa, pois eram as mais velhas. A mãe passava o dia fora, cozinhando para uma família rica na cidade, e Mima trabalhava na horta da vila com outras garotas. Eu e as meninas passávamos o dia cuidando da casa.

Durante o dia, todas nós andávamos tranquilas pela vila. Independente da idade. Mas depois das 18h00, as coisas mudavam. Todas dentro das casas, portas trancadas, janelas bloqueadas, nenhum acesso à rua era permitido.

A tranquilidade e suavidade do dia era tomado por um peso enorme durante a noite, e o medo pairava sobre toda a vila, deixando o ar mais denso, quase nos sufocando. Agradecíamos sempre que acordávamos, pois tínhamos certezas que estávamos vivas.

Mesmo depois da minha chegada, não era raro encontrar garotas arrancadas de suas casas, soltas sem vida em qualquer local da vila. Aquilo acontecia sempre. Para o nosso infortúnio e tormento das pobres garotas, houveram também aquelas que morreram decapitadas, enforcadas, torturadas e queimadas, e foram expostas como um bicho acidentado na estrada. Essas imagens são os tipos de coisas que não saem da cabeça por mais que o tempo passe.

Vez ou outra, alguns curiosos apareciam por lá durante o dia, e sempre que Mima os avistava, corria para recolher as crianças e escondê-las. Seu cuidado com todas elas era enorme. Um dia perguntei o porquê de tal comportamento, e ela respondeu que “os homens temem aquilo que não conhecem, então é melhor esconder do que fazê-los duvidar”. Admito que demorei demais para entender tal coisa, mas também lhe digo que foi doloroso entender. Algumas vezes, permanecer na ignorância é uma dádiva, mas me culpo até hoje por ter despertado tão tarde…

E foi nessa brincadeira de esconde-esconde que eu e Mima, com o passar dos anos, mapeamos o máximo que pudemos da floresta próxima a vila e ensinamos todos os caminhos possíveis as nossas crianças.

Em caso de perigo, deveríamos correr para a floresta e subir nas árvores. Sabíamos em quais deveríamos subir e em quais não. Se fosse preciso fugir, pois o perigo era de morte, deveríamos nos embrenhar na floresta e seguir para os esconderijos. Sabíamos quais eram e onde estavam.

E sabíamos também que elas não conseguiriam sobreviver.

Que, enquanto correríamos para fugir de quem quer que fosse, elas ficariam para lutar e atrasar nossos algozes.

E isso me assustava mais que a ideia do próprio inferno.

As coisas na vila estavam se complicando cada vez mais com o passar dos dias. Uma de nossas garotas tinha abandonado sua família para se casar com o homem que a tinha engravidado. Isso parecia o certo a fazer, se esse homem já não tivesse uma família, e a tivesse prometido se separar da antiga família para ficar com ela. Muitas coisas pareciam errada nessa história, e até eu que era muito nova na época conseguia ver que isso não iria dar certo. Mas ela mesma fez suas malas e partiu, sem mais delongas. Sua família ficou devastada, mas aprendeu a lidar com a perda com o tempo, pois todos estamos sujeitos a perder quem amamos uma hora ou outra, principalmente quando menos esperamos.

Era uma tarde ventilada no início de março quando ela voltou. A garota grávida agora andava com dificuldade, estava magra demais e eu tinha a impressão de ter visto marcas de maus tratos em seus braços. Não demorou para que todas nós recebêssemos a notícia de que ela havia ido embora junto com o bebê. Arrancado a força, contra a vontade da própria mãe, a mando do pai; agora nenhum dos dois vivem.

Ficamos de luto pelas vidas perdidas.

Já estávamos dormindo quando o cheiro tomou conta do lugar. Eu fui acordada por Mima, que acordou sua mãe e as outras crianças. Queríamos sair, mas tínhamos medo. Mas sabíamos que, se continuássemos ali dentro, provavelmente morreríamos queimadas, mas se saíssemos, correríamos o risco de morrer de qualquer outra forma que não fosse pelo fogo.

Resolvemos sair pela porta dos fundos.

Os gritos já davam para ser ouvidos em algumas casas. Outras já haviam sido totalmente tomadas pelo fogo. Aquela foi a primeira vez que vi a mãe de Mima chorar por alguma coisa. As crianças tremiam de medo. Mima apertava minha mão com tanta força que vi o sangue escapar e a palidez dar lugar ao que uma vez já teve cor. Ela sabia que nos separaríamos ali de alguma forma; se não fosse pela vida, seria pela morte.

Seguimos para o pátio, e o caos havia se instalado ali. Havia fogo em todo o lugar. Casas, estabelecimentos, pequenos jardins, mulheres e algumas crianças também. O lugar parecia o próprio inferno. Pessoas gritando, sangue, cinzas, pele derretida, homens grotescos que pareciam bestas… Me ajoelhei ali mesmo e vomitei tudo o que tinha comido no jantar. Mima me ajudou a levantar e seguimos em direção ao centro do pátio, onde havia mais garotas. Formamos um círculo e colocamos as crianças no centro para tentar protege-las e cruzamos os braços uma nos das outras, como se fôssemos dançar, e assim tentávamos impedir que se aproximassem das pequeninas. Elas se abraçavam, choravam, sem saber o que estava acontecendo.

Também não sabíamos.

 Mima insistiu que eu ficasse no meio, mas me recusei, dizendo que já era madura o suficiente para protegê-los. Pelo menos era no que eu queria acreditar. Uma vez que era a minha idade que Mima tinha quando cheguei na vila e ela me acolheu. Uma garota que quase não deixara de ser criança, mas também ainda não era adulta. Tão nova, e mais forte do que todas nós juntas. Mas, ainda assim, estamos sem saber o que fazer. Estamos completamente indefesas.

A única coisa que sabíamos era que queriam nos queimar. Queriam arrancar nossas peles para vestir no inverno, usar como ornamento em casa, brandir como medalha de honraria…

Queriam pegar nossas crianças amaldiçoadas e usar como combustível para nossas fogueiras.

Eles estavam ao nosso redor, gritando, cuspindo, xingando, brandindo objetos que não pareceriam armas no nosso dia a dia.

O fogo vinha de seus olhos, e as piras, de sua ira. O tempo parecia correr a favor deles, e logo nossos corpos não passariam de uma pilha de pele derretida aqui e ali, para que todos moldassem a seu bem querer. Não éramos nada mais além de animais ferozes quase prontos para o abate. Vamos morrer. Mas vai ser da mistura do sangue, cinzas e gritos que vamos renascer.

E foi então que uma de nós começou a cantiga, e nós continuamos:

Minha pele, tente tirar

Para uma honraria, poder ter

Para o inferno, irei levar

Sua juventude e seu prazer

(Para o fogo, nós não vamos! Para o fogo, elas não vão!)

Meu corpo, vou possuir

Ele não é de vocês

Isso só pertence a mim

E só eu poderei dizer

(Para o fogo, nós não vamos! Para o fogo, elas não vão!)

E se isso não mudar

Mudo meu jeito de ser

Para que então possa gritar

E parar de me esconder

(Para o fogo, nós não vamos! Para o fogo, elas não vão!)[1]

Não sabíamos como se daria as coisas dali para frente, mas sabíamos qual seria o fim. A morte era inevitável. A vila sucumbia em chamas, alguns corpos já ardiam no chão há tempos, não demoraria para que isso acontecesse conosco também. Para que somássemos a contagem de corpos.

Foi quando senti Mima soltar meu braço e me empurrar para o meio do círculo. Lembro-me que tentei protestar, mas ela começou a gritar “verde” sem parar. Era a única coisa que saia de sua boca. Eu encarava seus olhos chorosos, e queria que ela não tivesse dito aquilo, mas ela continuava repetindo, e todas nós sabíamos o que aquilo significava.

As crianças mais velhas já tinham começado a se organizar em pequenos grupos, pois também sabiam o que aquilo significava. Só as mulheres mais velhas poderiam continuar fazendo parte do círculo. Todas as outras deveriam entrar e formas grupos para fugir para a floresta.

Esse foi o plano que eu e Mima fizemos anos atrás, se algo desse tipo viesse a acontecer. E naquele momento eu me odiava por ter que fazer aquilo. Por ter que fugir e me esconder por causa da ignorância daqueles que se recusavam a tentar entender a sororidade que havia se formado ali. Eu precisava abandoná-las em nome da minha sobrevivência, mesmo sabendo que várias mulheres morreriam para que eu sobrevivesse.

Um pequeno espaço foi aberto no círculo e corremos para a floresta, enquanto algumas delas distraiam os homens que queriam nos pegar. Ouvimos gritos, pedidos de misericórdia, orações e até mesmo xingamento proferidos. E eu só conseguia chorar enquanto corria.

Foi então que ouvi o grito de Mima, então abandonei meu grupo e voltei para a vila correndo, mas não conseguia encontrá-la em lugar nenhum. Até que, não sei dizer se por sorte ou azar, a encontrei despida e sangrando, o que me fez entrar em desespero, mas ela não quis me deixar procurar por ajuda. Só pediu que eu me aproximasse um pouco mais, o que fiz, então falou: “Eu existo e resisto para que você sobreviva, minha menina. Se for preciso minha morte para isso, que seja. Mas fique viva. E quando chegar sua hora, não se abstenha. Lute pelas suas como lutei pelas minhas. E seja feliz enquanto pode, meu bem”. Ela beijou minha bochecha, e a marcou com sangue, o qual não tive coragem de limpar. Mima morreu pouco depois.

Corri dali e subi em uma das árvores mais próximas, pois a floresta já estava tomada de pessoas procurando pelas crianças. Mas, para meu infortúnio, a árvore em que eu estava também pegou fogo, e não sei como saí dali. Só sei que acordei um bom tempo depois, com a pele do braço e do pescoço queimada, e muito longe de onde fui criada, sem Mima e sem minhas irmãs. Ainda não sei como sobrevivi a tudo isso, mas sei que, se consegui sair viva, foi por causa de todas elas.

– Quantos anos você tinha quando isso aconteceu, mãe? – Perguntou-me, limpando as lágrimas do rosto.

– Sua idade. – Respondi. – Que era a mesma idade que Mima tinha quando cheguei na vila.

– E ainda assim a senhora me achava muito nova para ouvir essa história? – Mostrei-lhe um sorriso singelo.

– Foi bom você me pedir para contar essa história, querida. Porque ela me lembrou que, não importa a idade, ser mulher é sempre um desafio. E acredito que essa história irá te fortificar de alguma forma. Faça bom uso dela.

– Eu farei, mãe. E obrigada.

– Pelo que?

– Pela homenagem.

– Eu que agradeço, Mima.

Autora: Elissa Neves


Me chamo Elissa, mas também conhecida como Lis, sou estudante de Psicologia, tenho 21 anos, e desde os 10 anos de idade escrevo sobre as mais diversas coisas. Me descobri romancista, contista e cronicista, mas estou sempre procurando me aventurar nos diversos gêneros da literatura, sempre tentando não parar. Por isso, me vejo como uma aspirante à escritora que resolveu devanear sobre um universo infinito de possibilidades.


Comente sobre isso

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s