Eu posso ser cor de rosa

Nunca tive um discurso feminista. Nunca levantei bandeiras, nunca queimei um sutiã na rua.  Sempre fui uma mulher de comportamento padrão família,  casamento, filhos, trabalho. Mas –  reconheço –  ser dona de casa nunca foi o meu forte. Luto até hoje com as panelas que teimam em se acumular, as coisas que não retornam às prateleiras.

No meu nome tenho duas santas. Santas importantes na religião católica, herança dos açorianos e portugueses desde tempos muito longínquos. Mas hoje, na idade madura, olho para trás e vejo sim, uma feminista.

O que me faz uma feminista? Primeiramente acreditar nas mulheres, na sua capacidade, nas suas possibilidades. Ter certeza de que minha condição de mulher me coloca em pé de igualdade com qualquer outro ser humano.

Trabalhei por muitos anos em uma empresa na qual eu era a única mulher. Jovem, tímida, mas competente.  E eu não usava roupas cor de rosa. Não queria que encarassem o meu gênero como uma fraqueza. Assim, não cultivava a aparência delicada, a sensualidade inata de cada mulher. Além de ser forte, eu precisava aparentar força.

O mercado de trabalho é muito masculino e por isso valoriza as características da competitividade, da formalidade e do isolamento. Nós mulheres gostamos dos grupos informais, da conversa espontânea, do riso. Mas no local de trabalho surgem os terninhos comportados, os sorrisos discretos, as conversas em voz baixa.

No meu caso, precisei esquecer um pouco o meu lado feminino para poder aspirar cargos de chefia. Eles vieram, mas, tenho certeza de que se eu fosse um homem teria tido uma carreira bem mais rápida e fácil. Para uma mulher se destacar precisa ser supercompetente. Para um homem, basta ser mediano.

Lembro-me de Joana D´Arc e sua roupa de homem. De Anita Garibaldi disfarçada entre os soldados.
A nossa luta no Brasil ainda é longa e temos muitos caminhos a desbravar. A igualdade de salários, o respeito dentro das casas, a não violência, o fim dos feminicídios. E a luta pela igualdade da mulher negra. Dentro da sua condição de pessoa humana, da sua situação de cidadã.

Não desanimemos, mulheres. Muito caminho já foi trilhado, muitos obstáculos já foram removidos. Vamos nos tornar cada vez mais unidas. As mais maduras dividindo suas experiências com as mais jovens. As jovens sendo aplaudidas pelas mais maduras.
Sempre que me encontro em um grupo de mulheres sinto uma energia muito forte nos unindo, nos compactando em um grupo sólido, que não quer o confronto, quer a participação. Não quer separar opostos, quer encontrar as similiaridades. Não quer criar barreiras quer unir e congregar.

E vamos sim usar cor de rosa. Temos direitos de sermos mulheres e sermos aceitas como mulheres.

Não se conforme em receber menos, em ser avaliada com outro peso. E principalmente, apoie as mulheres com quem conviver. Uma vez li uma frase que sempre que preciso de força busco novamente: Uma mulher pode sempre encontrar apoio em outra mulher.

Autora: Izabel da Rosa


Nascida no Rio Grande do Sul,  mãe de  dois filhos. Vive em Curitiba desde 1975. É aposentada da Justiça do Trabalho. É uma apaixonada pelos livros e pela escrita. Desde jovem escreve poesias, contos, crônicas. Participou dos livros de poesia: 2a. Antologia do Colégio Brasileiro de Poetas (2008)  e Inflexões da Alma (2014) e dos livros de crônicas: Viajar é Preciso (2013) e Cidadão do Mundo (2013). Publicou o livro Era Uma Vez Uma Casa de Crianças em 2017 e Campeõezinhos e outros personagens interessantes( 2018),  reunindo crônicas sobre a infância dos membros de sua família.


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