Só nos resta resistir, para bem existir

Nasci coberta de rótulos que antecedem minha existência e se grudam na pele com forças brutais. Só dentes firmes de leoa ousam os destruir. E tenho presas fortes, mordida certeira e um certo ódio que não me larga, mesmo com todo o amor que mora em mim.  Por um bocado de anos usava a cabeça baixa para evitar certas investidas nojentas e o desprezo branco burguês. Esse, dilacerador do amor de antes, me açoitava para dizer nas sutilezas que meu lugar não era ali. Às vezes eu chorava, às vezes eu gritava. Quase, bem por quase, esmurrei alguns. Mas na minha mente tinha sol que me fazia lembrar dos olhos que devem mirar acima, potentes a combater. Potentes também a enxergar, que não é tarefa simples, nem tão pouco anestesiada. Tive também histórias vazias no bolso, de não amores, negados e escassos. O corpo guardou, somatizou.

O corpo também quis dizer não, mas a voz calou-se. Imagina como ele ficou sem entender a submissão que não combinava com a força nas entranhas. Só chuva de cuidado, no embalo das profundas dores, se vê capaz de medicar. Há ainda um peso do abuso que intimida desde cedo a mergulhar em culpas não minhas. Era para ser só uma época preciosa, de brincadeira e inocência. Como alguém ousa querer roubar isso? Haja punhado de sementes, com doses certas de adubo, para reflorestar a doçura. Absurdo também no beijo ansioso do professor que resolveu corresponder a algo platônico e comum adolescente. Assim, sem considerar os longos dezesseis anos mais velhos que eu. Dos catorze aos trinta há uma imensidão que revela que a culpa não foi da bebida que ele ingeriu na formatura e sim do que de podre há nele, esclarecido nos anos de insistência depois do episódio. Mas com todo o ouro que encontrei em caminhos tortos e nos caminhos mágicos, montei a armadura que me reveste, benzida nas contradições que me sustentam em multiplicidade e não me exigem ser uma coisa só. Ai daquele que esperar só candura, ai daquele que esperar só raiva, ai daquele que esperar só guerra, ai daquele que esperar só paz: tem tudo bem aqui, tudo que posso ser. Todo dia há ódio dirigido a nós, nas mais absurdas violências. Elas roubam meu sono, por vezes. O estômago embola em cada notícia, em cada relato. Eu sei que há muito a desbravar. Selvagem que somos, convido a cada uma das minhas que empunhem suas próprias lâminas, capazes de ceifar, pela raiz, o veneno que nos mata. Veneno esse, incrustrado nas mentes, legitimado nas ações, suco da sociedade patriarcal e retrógrada. Preconceito histórico, o desprezo mais normatizado é contra nós e tantas estratégias infames para buscar nos manter caladas surgem. Até tornar algumas de nós irreconhecíveis e algozes o veneno consegue. Mas não esmoreçam: somos o próprio antídoto e vamos vencer.

Autora: Debora Costa


Sou Debora e amo meu nome, sinto seu poder. Tenho vinte e cinco anos, sou de Curitiba. Psicóloga, psicopedagoga e estudante de teatro. Tenho a sorte do amor tranquilo legitimado a cada dia em um marido completo. Umbandista e amante dos mistérios da existência. E mesmo com toda dor, agradeço por ser mulher, pois somos incríveis.


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