o sangue me fez

foi o sangue exposto nas vísceras
o sangue que fez de mim viva
foi o sangue irreal do contato íntimo
percorrendo minhas pernas

tudo pareceu imundo: sangue
tudo é inundar em mar
tudo é tão tanto que nada
nada tão quanto morre – afogado

talvez seja tudo só transfiguração do sangue do útero
todo esse sangue que em mim escolhe o dia 20
para esvaziar o tanto que carrego
em contraposição

eu vivo sob o sol, cloreto de sódio em água
até o dia de não mais pesar o peso desse sangue
nem o peso de ser eu: mulher

e por hábito inapto de mim
fiz-me na sua transposição
sendo meu dono
enquanto produzia fricção no meu hímen – rompido

foi a posição do seu eu no meu
que percorreu o meu corpo sujo
enquanto inalava o ar e devolvia como dióxido de carbono
numa troca desenfreada para preencher de mim em você

eu, sóbria, soube em mim
quanto tempo faltava
para recuperar o tanto sobre você
que me pôs nesse casulo

foi ali, bem ali
foi exatamente naquele momento
no banco esquerdo do ônibus errado
foi ali que pus-me em mim e não tive mais dono

posição inesperada
foi por hábito que me vestia
da sua mão que não me cabia
que transbordei com a minha mão sendo minha

todo o sangue inundando o pano de algodão
não mais incomodava
era o sangue do gozo
de ser minha companhia literal

foi a grade de ferro na janela do ônibus
que mostrou o cárcere de viver sem produzir amor
a liberdade irreal tomada de mim
e dada de mão beijada

depois que deixei de ser tua
nua, na sala, toquei-me:
foi a transfiguração da liberdade
gozei.

Autora: Rebeca Victória


tenho 20 anos e resido na cidade de salvador, na bahia. há aproximadamente 6 anos comecei a perceber a importância do processo de escrita na minha vida. a representação desse processo, ainda me era distante, não conseguia enxergar de forma concreta o quanto revelava mais sobre mim do que poderia conceber em existência. hoje, em plena convicção do meu lugar de fala como escritora, preta e baiana, tomo o som da minha voz como paradoxo para minha própria existência. minhas estórias finalmente se contrapõe em tantas histórias escritas por aí. respiro e me transporto para e escrevivência transcrita nas escrituras da conceição evaristo, foi ela e tantas outras que fizeram o meu silêncio formar voz e ser lar pra morada do meu ser.  escrever é o som da minha alma!


2 comentários sobre “o sangue me fez

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