É que foi o outro quem me percebeu primeiro

Eu tinha entre treze e quatorze anos. Estava no dentista, pela primeira vez sozinha. O posto estava cheio, como de costume. Depois da consulta iria para casa almoçar e ir pra escola. Só haviam mulheres na sala. Uma delas, com uns quarenta anos perguntou minha idade, respondi. Ela falou do meu corpo, que era “corpo de mulher” (e o que é um corpo de mulher?) e que eu era muito bonita. Fiquei constrangida. Ela não usou aquele tom nojento de desejo, foi um tom de observação. Mas preferia que ela não tivesse percebido. Saí da sala, já havia acabado a consulta.

Outros já haviam percebido meu corpo antes mesmo de mim, homens nojentos falando coisas nojentas em sua maioria e bem antes do comentário desta mulher. Eu preferia que ninguém o tivesse percebido. O primeiro sutiã, as estampas, os “decotes”, “a sensualidade de toda mulher”. Eu só queria ter paz. As “tarefas de uma mulher”. Não. Somente não.

Na mesma época a primeira menstruação. Ninguém perguntou se eu queria sentir tanta dor com a cólica. O incomodo constante do absorvente. Meu corpo me traiu, ou funcionou no comando da natureza. Não importa, apenas não queria. Então chamaram-me mulher. Fêmea preparada para reproduzir. Que inferno!

Não era a transição que me incomodava, eram como os outros lidavam com isso. Eu não percebi o meu corpo até um cara na rua falar coisas nojentas para mim. Então isso é ser mulher? É isso que mulher ouve na rua? Eu não queria. Ninguém me perguntou ou se quer me deu escolha. Eu mal sabia das curvas do meu corpo enquanto o outro já o tinha mapeado, escaneado, planejado e até deduzido o que eu queria ou seria.

Eu, mulher, só me percebi um ser sexual e feminino quando o outro assim se referiu a mim. O outro foi e é invasivo. De longe, no olhar, no toque leve dentro do ônibus ou com palavras. Meu corpo não é convite. Nunca foi. Isso aqui não é a porra de uma festa aberta ao público. Então, por favor, parem!

Autora: Mayara Freire


“Mayara Freire, 27 anos e nordestina. Escreve  textos em sua maioria para e entre mulheres, seja no campo erótico, na leveza de ver a vida acontecendo ou na necessidade de vomitar a própria existência.”


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