BELA, DESPUDORADA E DA LUTA

Ela sai de casa carregando seus sonhos. Ao seu redor o mundo passa, mas o ritmo dos seus passos escancara uma mulher que transborda força. Olha em volta com olhos de criança, que descobrem os sentidos da vida a cada dia. Seus passos são firmes, de mulher verdadeira, que respeita suas vontades, que escuta seus sentimentos e entende sua força.

Desde pequena aprendeu que podia ser quem quisesse. Aprendeu a olhar em volta e entender quando seu lugar era privilegiado. Aprendeu que não era melhor que ninguém, mas também aprendeu a reconhecer seu valor. Depois de tanto tentar se encaixar nos padrões de beleza aprendeu que mulher bonita é a que luta. Que luta sempre e grita quando necessário. Aprendeu a correr atrás dos seus objetivos, mas o mais importante, aprendeu a não se culpar quando as coisas não acontecem como planejadas.

Ela não aceita galanteios gratuitos. Ela não aceita desaforos. Ela não aceita que encostem sem sua permissão. Ela não aceita que a rotulem. Ela não aceita que decidam sobre seu corpo. Ela não aceita que decidam sobre sua vida. Ela não aceita.

Ela. A pessoa mais importante da sua vida. Ela que não gosta dos trabalhos domésticos, ela que bebe com os amigos na calçada. Ela que usa saia até o joelho, ela que gosta de cozinhar. Ela que dança até o dia clarear, ela que vai todo domingo à missa. Ela que não tem com quem deixar o filho quando sai para trabalhar, ela que tem um relacionamento abusivo. Ela que saiu de casa aos 16, ela que sustenta toda a família. Ela que não quer ter filhos, ela que chega em casa depois do trabalho e toma uma taça de vinho. Ela que todos os dias dorme com a esperança de que amanhã vai ser melhor. Ela que é tantas. Ela que é todas.

Ela sou eu, ela é minha mãe, minhas tias, minhas amigas, ela é sua amiga, ela é sua vizinha, ela é trans, ela é negra, ela é estrangeira, ela é refugiada, ela é você. Ela é. Quem ela quiser.

Autora: Samira Calais


Samira Calais, escritora e jornalista mineira que vive em São Paulo, é uma das autoras do volume 41 do livro “Cadernos Negros”, da antologia “Resistência” e da “Antologia comemorativa Dia Internacional da Mulher – Mulherio das letras Portugal”. Tem publicações em revistas feministas, como “Valente”, em blogs, como o “Blogueiras Negras” e “obvious” e é administradora de um perfil do Instagram de poemas e frases para mulheres, o “@parameninasemulheres”. A escrita é sua voz e sua descoberta diária, já que nos seus textos ela dá um olhar especial para a mulher, principalmente a negra, na sociedade.


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