@a_estranhamente

Eu, mulher, agênera!

Atento-me ao rubor dos dias insanos, bebericando cerva gelada, com os bicos despontados, ouriçados e enrijecidos.  Vejo lá longe, algo despontar entre esquinas e aqui dentro do que eu acho que sou, borbulha alguns mares de indecisões e descobertas abrupta. Tudo, absolutamente tudo ultimamente me faz indagar sobre o meu papel social e a que caixa pertenço eu, perante a esta vastidão de percalços soturnos de uma vida liberta e ao mesmo tempo enclausurada. Que papéis devo interpretar, se como detentora de carne humana, há sempre coisas por demais a me devorar em colheres de sopa?

Fitas com lembranças passadas cruzam seus filmes por entre meus olhos, afogando minha mente para lembranças que são difíceis de apagar, até mesmo para o mais chulo dos vermes. Estou sempre a me projetar para uma feminilidade imposta, para um comportamento de servidão, para uma interiorização urbana-materna, que cospe em minha negra face o estrupo da alma, da genital e da consciência feminina ao longo dos séculos. Pois bem, quisera eu não ter lábios, “grandes ou pequenos”, não ter culhões, “ou bolas murchas e pendidas”, não ter nada que me prenda a um rótulo do qual nem eu mesmo enxergo. Rá Rá Rá… e Rá novamente! Ser mulher. Eu mulher? Mulher? Maldita palavra pincelada a cores frias, que reveste os berços antes mesmo da consciência do próprio ser sobre sua existência nessa estadia mundana. Que gênero é esse que tanto clama por liberdade, por igualdade, por opção? Que gênero é esse que faz com que eu me olhe no espelho de forma turva e me meça todinha, como se sempre houvesse algo a me faltar? Cuspo em meu próprio reflexo enquanto deixo os pelos de meu corpo ficarem visíveis e altos, a tal ponto de me confundirem com primatas pré-históricos.

Mulher, palavra feminina… emprega tão bem a tantas outras que me questiono se sou um personagem de ficção, tal como: Carie, a estranha. Jorro pelos ralos coágulos que se assemelham a fetos todo santo mês, e mesmo assim, nada me convence de que sou mais ou menos mulher nesta via de mão dupla planetária.

Mediante a tudo isso, eu escrevo. Escrevo eu sobre tudo e ao mesmo tempo sobre nada. Escrevo sobre um corpo que é só um corpo e nada mais. Escrevo sobre a não-feminilidade. Escrevo ao não-pertencimento. Escrevo sobre o tempo que passou, passa e talvez amanhã não passará… Mulher na literatura, se posso mesmo empregar as duas coisas juntas: mulher-literatura. Tantas gerações de zilhões de palavras escritas, pela porra de pênis de cabeças tortas, enquanto dedilhavam palavras que se tornavam históricas, memoráveis, heroicas. E a mulher nisso tudo? Se ao sentirmos coisas, iniciamos trabalhos de parto precoces e vomitamos de uma maneira nada sensível, delicada ou dócil, mais de um zilhão de palavras potentes e cheias de sufrágios e nunca, eu disso nunca, somos boas o bastante para sermos eternas. Talvez, seja nossas tetas, talvez seja nossas bucetas, talvez seja nossas fogueiras, talvez seja nossa competência que sobressae as expectativas de uma existência: corrompida, pouco discutida, pouco ou nada gozadamente úmida e prazerosa.


Essa crônica faz parte da coletânea: Eu, mulher, existo e resisto!

Para fazer o download gratuito da coletânea, que reuniu 40 escritoras de todos os cantos do mundo com seus contos, crônicas e poemas, basta acessar a nossa Estante Virtual!

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