@a_estranhamente

Papel em branco não é cartolina

Embrulho meus olhos em colchas com fiapos de arame e não há saída, tudo o que eu posso ver de uma forma meio turva, são folhas e mais folhas em branco pulsando de minhas retinas.

Caminho até a cozinha em busca de vinho branco. Mastigo meia garrafa de uma vez. Dou uma bebericada num licor de jabuticaba na esperança que uma luz acenda em meu cérebro e eu possa me livrar deste maldito branco que me atormenta. Infelizmente, as duas coisas falham miseravelmente.

Me dirijo à varanda portando apenas chinelos e cueca, trago todo o peito desnudo num dia de sol com uma temperatura pra lá de choca. Observo de ouvidos atentos as conversas que se dão lá em baixo nas ruas.

– Vou matar sua mãe seu filho da puta.

E por aí as coisas se seguem…

Retorno a minha escrivaninha e tento separar as latas de alumínio das garrafas de vidro. Toco bruscamente as folhas em branco debaixo de um livro de psicologia. Respiro agoniada… Porra, já fazem uma semana que eu não tenho nada a dizer, que meu cérebro não formula nada, que meus dedos não assam pelo atrito da caneta, que eu não boto uma vírgula numa poesia qualquer.

Resolvo sair pra caminhar e fumar um beck. Dia de feira. Paro para comer um pastel especial que é tão grande mais tão grande que são quatro pastéis normais em apenas um. Encharco o recheio de pimenta. Tomo uma cerveja e uma lata de vodka sabor kiwi.

– Moça, você não é filha da Marta a escritora?

– Não meu senhor. Eu sou filha da Marta a cozinheira.

Me sento num ponto de ônibus e retiro do bolso o celular, abro no bloco de notas:

Vinte minutos se passam, sete ônibus passam, uma criança cai e esfola o joelho, dois carros da polícia militar perseguem um Honda Fit cinza a toda velocidade, a fila do banco cresce, três pombos cagam bem próximos a mim, lembro que não levei o lixo pra fora… Mais vinte minutos olhando para uma tela em branco.

Se fosse só escrever e tapar toda a branquitude de folhas em branco seria tão mais fácil. Mas, pra mim é tudo tão penoso, não é só sentar e escrever e versar por entre um milhão de linhas. É necessário vomitar um pastel especial de carne com ovo, azeitonas pretas, presunto, cebola e muita pimenta. Ai talvez, eu disse talvez… É possível burlar o branco que tanto me atormenta.

7 comentários sobre “Papel em branco não é cartolina

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