Gritos são hinos, clamados por pessoas mortas

Quando bato os olhos no bigode de uma mulher dentro de um banheiro público e ligeiramente observo o que ela trás nas mãos, uma voz faz ecoar em mim os anos de escrita muda que eu trago na mala.

Quando uma mulher com o corpo cheio de germes passa a língua em toda a extensão do bocal de minha garrafa d’água, uma voz gutural emana em mim palavras de ódio.

Quando avisto pessoas prostradas em muros fumando maconha, vestindo terno e gravata, uma voz sobressai de minha mente direto a minha boca e ambos ficam travando um vai e vem de questionamentos psicológicos.

Eu me sento em privadas de estações de metrô enquanto boto para rodar em minha frente todo o filme que gravei sobre uma suposta humanidade. E eu sinto vontade de rasgar as paredes com letras que são pesadas demais para jorrar nos papéis. Viro os olhos tantas vezes rápidos o bastante para não perder um ínfimo detalhe das cenas tristes, das milagrosas e das fodidas.

Respiro… Deixo com que meu lado escritor não prevaleça. Pondero as feridas que tenho vontade de cuspir. Jogo para dentro de mim um colorido que não altere as cores das minhas paredes intestinais. Espremo os olhos. Seco com papel barato uma quantidade enorme de vezes o suor de minhas próprias mãos. Tento me olhar em algum reflexo visível. Contorço todo meu dorso. Enjoo e me vômito na cor cinza chumbo. Então, finalmente, meu lado escritor expele toda a morte que meu lado racional fraciona.

O mundo grita em mim. As palavras vorazes gritam em mim. A guerra em mim habita e eu não sei distinguir o quão estranhamente eu ainda sou. Ser escritor é isso, é gritar com os olhos o que a boca não consegue alcançar e deixar com que as palavras que tanto carregamos na surdina das páginas, se façam reféns de nossa própria loucura latente.

Gritemos!

2 comentários sobre “Gritos são hinos, clamados por pessoas mortas

  1. Texto muito interessante, gostei. Acho que essa loucura latente sempre será uma das vozes de todo escritor. Em mim ela reverbera vezes dentro e vezes fora, e vezes com outras vozes. Como se fosse ela toda normalidade ou padronização onde regurgito meus gritos.

    Curtido por 1 pessoa

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