Maria Vitoria Francisca

PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | MEUS LIVROS

Livros, um punhado de palavras escritas em folhas brancas, vezes amarelas, vezes qualquer outra característica.

No 6 on 6 desse mês de maio, resolvi fotografar, 3 livros meus, escritos entre meados de 2016 a 2019 e 3 livros que recebi de escritores independentes que conheci, através do blog. Pensando aqui comigo nesse lance de escrever livros, publicar, ser lida, ganhar dinheiro e essas coisas, em toda minha vida eu nunca tive aptidão pra esse estilo de vida. Publicar um livro é legal e tudo mais, mas eu sempre preferir escrever coisas, sobre diversas coisas e se um dia acontecesse de juntar tudo num único espaço, com linhas e métricas diagramadas tudo bem, caso contrário, tudo bem também.

Acho que a escrita e eu somos mais do que um punhado de palavras em folhas que outras pessoas perpassam os olhos, tanto de forma curiosa, quanto de forma presunçosa, quanto de forma insignificante. A escrita e eu temos outro tipo de relação. É como Deus e o Diabo na terra do sol e sobreviva quem for mais forte.

Meu primeiro livro, lá em 2016. Lembro até hoje, de reunir um punhado de poemas da época do ensino médio num período de tempo de uma semana, tentar criar uma sequencia lógica, transformar tudo em PDF e enviar para o site, Clube de Autores. Cara, como isso é engraçado… recentemente, uma amiga minha que tem esse livro até hoje, disse que esse é o melhor livro que eu já escrevi. E eu fico pensando: Senhor, perdoai essa garota, ela não sabe o que diz, pai.

Essa foi minha segunda tentativa, realizada ano passado. Eu estava no meio de um projeto fotográfico, toda semana indo pra um canto de São Paulo diferente para fotografar mulher nuas e eu precisava juntar uma grana pra viabilizar o projeto e levar ele adiante. Aí, resolvi colocar algumas poesias minhas, intercaladas com algumas fotografias da Carolina Altino, num estilo mais artesanal e no faça você mesmo. Alguns poemas sobre a humanidade, sobre mim, sobre meus vômitos calejados. Foi uma coisa bem simples, nada rebuscado, nada muito “profissa”, foi uma espécie de estética livre mesmo. Quando eu me dei conta, em uma única noite eu tinha vendido 50 exemplares sem fazer esforço nenhum. Só lembro de uma mana anunciar no microfone no meio do evento da faculdade que eu estava fotografando: Aquela fotografa maravilhosa ali, é a Maria Vitoria. Ela é escritora também e está vendendo a arte dela, em forma de poesia minha gente. Bora colar ali no estande pra conhecer o trampo dela.

Essa é a minha última tentativa de criação literária e estética. Foi lançado no começo desse ano, de forma meio tímida, totalmente independente, sem muita divulgação mesmo. Só peguei e anunciei que tinha vindo ao mundo e que tinha ele em mãos caso alguém quisesse adquirir. Ainda o mantenho dessa forma, não investi na auto promoção dele. Porém, essa tentativa de explorar a minha arte, me rendeu bons frutos até agora. O retorno mais legal foi ter falado sobre ele pra uma revista sapatão com temática literária, e ainda ter apresentado o livro na Escola de Teatro de São Paulo. Cara, aquela noite foi engraçada até, um monte de pessoas que nunca me viram, todas brancas, com contextos sociais diferentes do meu, com oportunidades diferentes da minha. Todas ali, me ouvindo falar sobre mim e sobre meu livro. Mas, por mais que as pessoas me chamem de escritora, eu ainda não consigo colocar essa palavra no meu coração. Sei lá, tenho essa cisma comigo mesma. No mesmo dia do lançamento, olhei pra minha foto estampada nessa revista sapatão, com um textão sobre quem eu era e fiquei por alguns segundos ali parada, encarando a palavra: ESCRITORA, MARIA VITORIA. Fingi que nem era eu ali, e segui a minha vida.

Essa obra é do escritor, P. R Cunha. Escritor foda, que tenho como seguidor aqui do blog a um bom tempo. Infelizmente, moramos muito longe um do outro, mas nossa arte nos uniu e isso é gostoso pra cacete. Recebi esse livro aqui em casa no começo desse ano, fiquei um bom tempo olhando pra capa, sentindo a textura, lendo a dedicatória. Ele ganhou um prêmio com esse livro e foi buscar fora do Brasil. É gozado como palavras escritas em folhas brancas podem exercer poderes e ocupar lugares que a gente nem imagina. O tenho aqui comigo, como um dos meus favoritos, guardo com imenso zelo e carinho, afinal, não é sempre que ganhamos um livro do escritor que a gente admira.

Cordões de Celofane, é um livro de poesias do professor e escritor, Paulo Sá. Recebi essa belezinha aqui no meu reduto, esse ano também. Uma bela segunda-feira, quando eu estava saindo pra ir ao estágio, o porteiro me chamou: Vitoria, tem uma encomenda aqui pra você. Nossa, você recebe muita encomenda né, e é sempre livros que chegam de vários lugares do Brasil. Eu queria que minha filha fosse assim que nem você, gostasse de ler um monte de livros. Mas, ela só quer saber de ficar com esses marginais lá da onde eu moro, andando de moto pra cima e pra baixo. Ah, você poderia assinar aqui nessa linha que você recebeu essa entrega? É pra controle do prédio, sabe?

Minha última leitura de escritor independente. Virou meu xodó… porra, fico passada como esse lance de ser escritor e escrever coisas e publicar coisas e ler coisas é sempre tão a nossa essência. Quando eu terminei esse livro da Gabriela, eu me vi nessa capa, me vi na cor da pele, me vi na textura do cabelo, me vi nas curvas do corpo, me vi nos relacionamentos, me vi observando a mim, pela primeira vez em anos e falando comigo mesma: Caralho, eu sou uma mina foda! Mas senhor amado, como é difícil me olhar na merda do espelho e me perdoar por todos esses anos de flagelo que me impus sobre minha própria carne. Sobre meu próprio espirito. Como foi difícil pai amado, carregar o peso de minha cor e ainda o é. Como é extremamente estressante ter que inventar uma postura, um tom de voz, uma expressão corporal, uma atitude, uma vida inteira, como um maldito personagem de circo, só para camuflar sua própria natureza humana e tentar não ser você, apenas para aparentar ser menos doloroso e deprimente. Sei lá, alguns livros tem dessas de mexer com a gente e nos fazer olhar para nosso próprio reflexo e fazer com que tudo o que traçamos antes daquela obra, foi uma eterna mentira. Gratidão, Gabriela Rocha por essas palavras, nessas folhas que um dia foram brancas e hoje estão rabiscada de tinta preta.


PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | MEUS LIVROS

EDITORA: SCENARIUM PLURAL

PARTICIPAM DESTE PROJETO: 

Lunna GuedesMariana GouveiaObdúlio Nunes Ortega



5 comentários sobre “PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | MEUS LIVROS

  1. M. V. –––––––

    Estava aqui agorinha mesmo a tomar o café, a ler os teus fragmentos, gosto de lê-los assim, de manhãzinha, sem pressa, e deixei o café cair sobre a mesa, talvez porque a caneca seja nova, ganhei de presente de um amigo, uma caneca com a qual não estou acostumado, e porque lisonjeado, pois também te admiro pacas há uma caralhada de tempo, e acho incrível quando essas coisas acontecem, essas aproximações artísticas (na falta de melhores termos), essas aproximações em quem os diálogos muitas vezes se dão através das próprias obras, que, no meu modo de pensar, é um dos diálogos mais substanciais, mais interessantes ––––––– escrevemos/descrevemos e um outro ser humano captura as nossas palavrinhas, um outro ser humano algures sintoniza nas mesmas frequências, é fantástico –––––––, e gostei à beça de encontrar-me por aqui, de saber que tenho tão excelentes companhias neste ciberespaço que por vezes se mostra frio, desolador, de forma que envio-te os meus melhores abraços, Escritora, e que a escrita e os diálogos permaneçam.

    Sinceramente,

    P.

    Curtido por 1 pessoa

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