Mara Vanessa Torres

O SOL DOS NOTÍVAGOS

Em uma hora como essa, não há mais ninguém perambulando pelas ruas. Ou quase ninguém. No final da rua, arrastando as folhas secas das árvores recém-aniquiladas com os pés, dois amigos dividem uma garrafa de suco de laranja. Ao contrário do que toda gente pensa, eles são apenas amigos. O primeiro contato se deu há mais de vinte anos, por meio da caixa de correspondência destinada aos contatos interessados no fanzine “December Moon”. Nada demais, apenas um grupo de entusiastas de histórias em quadrinhos de terror. Dentre todos os membros, eles dois acabaram trocando endereço pelos inúmeros gostos em comum.

Naquela época, aos quinze anos, era legal gastar um tempo descobrindo novas revistas nas bancas, vasculhando sebos atrás de raridades, trocando CDs e até mesmo K7s, dividindo fanzines, pôsteres e camisetas das bandas preferidas, e aprendendo a tocar guitarra na garagem apertada de casa. Também havia as cartas. Inúmeras, enormes, com ilustrações feitas em caneta de tinta preta de R$ 0,50 centavos, apelidos – ninguém usava seu verdadeiro nome – e sonhos de viajar o mundo por meio do exercício remunerado das grandes paixões.

Mas o tempo passou, como sempre passa. E foi arrastando como um dilúvio aqueles encontros de final de semana, noites de feriados e dias de shows. Em seu lugar, Cronos – o devorador – trouxe responsabilidades, decisões com efeito de guilhotina, trabalhos para ganhar a vida, distância de dedos que juraram com um pacto de sangue que jamais iriam se separar, cônjuges com propostas diferentes e o compromisso de criar pessoinhas.

Como mulher e homem de outra época, os amigos também sentiram a martelada ao acordar e se darem conta de que estão na casa dos trinta anos agora, cercados de outras prioridades. Tinham se afastado nos últimos anos, é verdade. Mas um feliz acaso os uniu novamente, em outra cidade diferente daquela que os viu nascer e crescer.

Quando se esbarraram, o abraço foi sincero e desesperador. Afinal, o tempo passa para todos, não?  Trocaram os números de celular (quem ainda insiste em telefone fixo?) e prometeram manter contato. O e-mail veio depois, levantando-se como uma bandeira branca de resistência no meio da tentativa incessante de lhe tornar obsoleto. Para eles, espíritos de outra época, a troca de cartas, cartões postais, livros e CDs foi o resgate do que nunca acabou. Se algo acaba, estilhaça no chão, não há jeito de remendar.

Eram dois notívagos. Gostavam da luz da lua e de criaturas noturnas. Nos finais de semana, na companhia de seus parceiros (o coração ganha novas mandalas e a interação entre diferentes círculos, quando bem administrada, traz o vigor dos dias de alegria) e de um vestuário sem tantas caveiras e correntes, eles flanavam pelos cinemas, teatros, shows de bandas de Heavy Metal, orquestras sinfônicas, restaurantes, exposições… As opções eram adultas agora.

Mas, sempre que o tempo e a calmaria da alma de seus companheiros permitia, eles perambulavam pelas ruas sem nenhuma intenção exclusiva. Eram flâneurs desde sempre. Isso não vira pólvora do dia para noite.

– Lembra quando lemos Andar a Pé pela primeira vez? – perguntou a mulher, fazendo um rabo de cavalo no cabelo para escapar do calor. O relógio apontava quase meia-noite e eles ainda circulavam pelo bairro, em um acesso de coragem e credulidade na humanidade.

– Claro. Acho que foi o primeiro livro do Thoreau que eu li. Fiz o desfavor de marcar o seu livro todo. Espero que não tenha se importado.

– Importância teve, né? Mas a borracha já apagou isso aí.

Os dois riram novamente. O bairro estava silencioso como um campo santo. Desde que um desvairado mitômano assumiu o comando do país, tudo parecia vampirizado – no mal sentido do termo –, desnutrido, estragado. Não era possível ver a alegria da noite e nem de seus frequentadores. Até mesmo a lua, o sol dos notívagos, andava escondida por trás de densa neblina. Naqueles trinta e poucos anos de vida, eles jamais se sentiram tão deslocados no país em que deram o seu primeiro choro de existência.

– Você não sente que até mesmo os morcegos, que costumavam passar dando rasantes em nossas cabeças, agora se escondem? Ou talvez tenham ido embora.

– É verdade. Tudo parece morto. Veja só essas folhas… Havia necessidade de depenarem todas as árvores para consertarem a fiação elétrica?

– Definitivamente não.

– Nem mesmo uma garrafa de refrigerante a gente consegue mais dividir – e a ironia pula no meio dos dois.

– Seu cretino, eu estou em tratamento ainda. Esqueceu que tenho gastrite? –  E o sorriso de cumplicidade aparece novamente.

– O tempo tira muita coisa da gente…

– E como! Mas ele também dá. Qual era a probabilidade de nos encontrarmos aqui, dentre tantos lugares do mundo?

– Pequena, mas real. Talvez ainda exista uma chance segura desse energúmeno sair do poder.

– Meu amigo, o que sei é que, ele saindo ou não, continuaremos acreditando em nós mesmos. Continuaremos mantendo o nosso contato olho no olho e sendo exatamente o que ele e sua corja não querem que sejamos: irmãos na consciência.

– Quero dizer uma coisa – os passos vão pausando. A porta do prédio da mulher se avizinha – Você sempre foi a minha melhor amiga. E eu vou levar essa amizade para o túmulo. Assim como vou levar a lembrança dessa lua linda. Olha lá.

Do lado das nuvens, uma intensa lua cheia tomava conta de todo o perímetro celeste. Tal qual uma amazonas, ela continuava lá, apesar da destruição do tempo e do espaço.

Os amigos se abraçaram e se despediram.

Há sentimentos que nada tem o poder de ceifar e ninguém tem o poder de subjugar.


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