4 poemas de, Mônica Barbosa

Poros, substância e chamado

Sou toda feita de poros, abertos, entreabertos…

Que sente os cheiros que me circundam em todas as dimensões do meu ser.

O valor e sentimento do olhar que me afaga, a vibração da dança, o suor que vem de mim e o do outro.

Sou toda expansão… transbordamento… poros… povos… chão… pele… bicho… mata ardente, efervescente, intenso de tons, profundezas e peixes.

Sou toda água, rio que deságua num oceano que não tem fim…

Transbordante que nenhuma continência consegue contornar…

Sou fio de linha, tear, teia, costura, renda, ponto cruz, que cruza com o outro…

Olhar e abraço…

Alegria radiante que o sorriso conta em toda sua maestria e sabedoria…

Andar… caminhar… gotejar e evaporar…

Sinto-me pulverizada como se habitada em tudo, em todas as pessoas e lugares ao mesmo tempo.

Como a mesma montanha que habita em todos os lugares, só mudando o tempo e a velocidade do andar.

Sou pássaro que rasteja  e voa!

Dentro do peito da mãe terra, gaia…

Mãe sentimento que está em todos os lugares nas mais diversas proporções…

Sou mulher mato, víbora, urso e gaivota… transito nela com total liberdade e ela me deixa voar e rastejar…

Voar cada vez mais dentro de mim e em tudo que ela criou.

Quem são vocês que querem nos prender?

Já viram o tamanho da nossa grande mãe?

Do pulsar dentro de ti e em nós?

Desatem os nós que vocês criaram e sintam o bater das asas dela em teu coração e o rastejar da víbora rastejante que tanto vos amedronta.


O que somos? 

O que sou eu e o que são vocês? 

O que são nós e o que são vocês?

Pensamentos vagueiam por aqui nesse instante e me faz inquietar sobre esse lugar que tentam ocupar dentro de nós.  Nesse ritmo violento parecendo silencioso que invade em brasa de verdade e ilusão. 

Tentam nos distrair com essa mistura inebriante material de cores, sabores, corpos e sons, na ânsia busca de nos expropriar do voo e fala sutil da nossa alma.

“Alma esta, que pede grito, uivo, ressonância, mas a voz-pensamento de concreto  se achega”. E assim nos diz em eco-latejante:  O que todos acharão dessa parafernália que vos diz ser verdadeira?

Você acredita que isso é real pra ti?

Essa mesma voz vestida de lucidez convida diariamente todos nós para um banquete. É a festa e politica do pão e circo diário. É o império romano moderno que apenas mudou suas vestes.

Essa mesma politica obscura tenta se apropriar da nossa alma, convocando a todos, especialmente os oprimidos historicamente para segurarem suas taças e bandejas.

E quando ficam inebriados com o medo e a boca seca de tantas vidas, nos costuram em suas vestes, como troféus e penduricalhos.

Passamos muito tempo na ilusão de dar banquete aos outros, de vestir e costurar tecidos das máscaras cintilantes, nos obrigando a bailar com um sorriso apertado e de pernas bambas tentando segurar o peso de dez pedras ensacadas  nas costas.

E daí a gente cai, desmancha, levanta, vira pó e ainda nos enfeitam com suas máscaras de sanidade.

O brilho festivo enaltecidos na cara dessa gente vestida de terno que não vê a própria luz se ofusca e tenta obscurecer a luz do nosso coração.

Impregnam as mentes e corações de uma realidade fantasiosa, facilmente atrativa, rodeada de piscas, sorrisos falsos e congelados, holofotes ligados. Paralisado. Em busca de velocidade, aceleração de vidas inadequadas. Aliás, adequação é um nome dado por essa gente, que não respeita a diversidade, a ressonância andada por muitos daqueles em busca da sua verdade.

Máscaras ilusórias rodopiantes enaltecem caras congeladas e olhares pálidos. Olhares nos metrôs calados, desafiados a permanecerem como botões costurados.

É a tentativa de petrificação. De virarmos pedras, pó. Alimentam a roldana do capital com os nossos rios poluídos de papéis sujos de sangue.

Estamos vivos! Vivos de memórias, coração e alma! Somos pessoas e não pedras, espíritos livres, nossa crença é essa.

É a nossa vida, a nossa voz, o nosso povo, o nosso território.  Somos uma rede de apoio de moléculas fluorescentes que se conectam com o olhar, com o cheiro, com a não verbalização.  São cartas escritas diariamente nos rios da vida que alimentam essa cidade.

É espiritual, é metafísico, imaterial, nunca será expropriado. É o nosso pertencimento, é a caverna visceral. É onde nosso povo nos povoa e nutre com as mãos de urucum todos os dias.

Isso tudo esta aqui, é nosso, é da vida, do universo… é parte dos grãos de areia de todo o mar, do frenesi das cachoeiras,  do som dos pássaros e o bater das asas da libélula. Essa abundância esta em nós. Somos tudo isso!

Nos fazem acreditar na escassez para se beneficiar dos nossos corpos, nossa vida, nossa alma, para que nessa crença limitante todas as pessoas chorem espinhos de uma angustia que se alimenta das almas caladas.  Mas, não acreditem nisso minha gente, a nossa vida é muito mais extensa do que tentam nos vender.  Ela nos ensina em toda sua simplicidade sobre o amor. É um convite diário para que acessemos. Viva segundo tua alma! Te cura e nos cura!


Uivo de nós todas

Sou mulher, força bruta que mobiliza e abre as entranhas de minhas antepassadas

Não aceito cortes e nem costuras, sou a bruxa que quiseram apagar com a poeira do tempo

Sou a tecelã do meu destino, leio linhas e pontas soltas e bordo em todos os vestidos

Rodopio e bailo com os pés descalços em lugares onde não nos querem que habitem

Sou força movedora de tempestades e gritos de resistência.

Sou da economia da troca, da reciprocidade, da economia não dita, que é extrassensorial.

Vocês não me domesticam, por que não sou domesticável. Afinal quiseram nos domesticar, até o nome doméstica quiseram nos colocar. Nomes, caixas, enquadramentos, estes não cabem a mim. Dentro de mim pulsa e reverbera a voz e força das minhas ancestrais, da preta velha, da cabocla, da jurema, das folhas de fumaça que meu povo me orientou.

Sou força movedora de raios e sons, da sabedoria que digo com o olhar, com o silêncio, com a minha dança e poesia. Mas, não pisem na barra da minha saia achando que irei tropeçar, junto comigo tem muitas de mim, tem sementes brotando e germinando o tempo todo.

E não pensem que irão nos calar.

Nenhuma barreira estruturante que tente nos limitar será capaz de nos calar.

Sou filha dos orixás, dos cânticos da floresta, das bruxas que foram queimadas, da voz periférica e de todas as mulheres do campo.

Sou filha e neta de todas! Somos todas!

Medo? Sentem medo de nós? Podem sentir.

Pois vamos continuar rodopiando com a leveza e fala poética, mas quando for necessário  uivar mais alto chamaremos todas elas!


Verdades e Eus

A cadeira, a espera de algo que estava por vir, era o convite para o resignificar…

Refazer, realçar, estar e ser convidada a sentir um pulso e uma dança do que é se sentir vivo.

Sentir-se vivo… abrir as janelas que antes estavam fechadas, vedadas com cera de abelha, com cheiro de mel, doce… E que doce e sublime conseguir abri-la!

Por muito tempo esperei… dias de solidão, dor, arrasto, rastejo, vontade de sentir… de ver a paisagem lá fora..de ouvir as andorinhas e até mesmo o som que o urubu tem.

A vista que dava lá fora da minha casa, era ainda um morro seco, cheio de galhos e alguns urubus voando…  mas sem som, sem cor, sem melodia e concerto.

Não sabia que bem ali naquela pequena infinitude morava um rio e um coração querendo morar em vários lugares.

Enfim… respiro… Abri e deitei na terra árida, como uma cascavel ressoando chocalho, dor, vontade de atacar, mas com um desejo intermitente de mergulhar…

As vezes pode até parecer clichê, dizer que “a dor ensina, de tudo se tira um aprendizado”, mas a verdade mais verdadeira é que nada é mais verdadeiro do que as montanhas, o céu a água com toda sua força e maestria. A divindade em tudo que existe.

Ando simpatizando com tudo, tudo que é vivo, digno de ser lembrado…

de ser sentido…

de ser estado…

de ser mergulhado…

de ser ecoado…

Meu coração ecoa em todos os cantos do mundo… abre, fecha, expande…

Toda a alegria e recomeço grita como um pássaro querendo voar na imensidão que é tudo isso…

A não inércia, o ser elástico, ser bamboo marca  o ritmo pulsado e marcado do compasso do tambor… que expulsa a dor!

Eita… a dança… Ah! Dança…

Explosiva… vibrante… cores…

tenho sentido com todos os poros, células vivas… respiro…

Os encontros dos amantes, a saia rodada que gira e leva pra longe com a firmeza dos pés o sol bailante, a melodia rastejante que faz pulsar o brilho do mais profundo descompasso.

 O chorinho, a desarmonia, o atonal, o ritmo que perde o ritmo.

A profusão e estremecer de folhas antes sedentas que vagueiam por todos os cantos de mim. A vibração.

A reverberação…

A melodia dessa eletricidade…

Ser elétrico…

Vaguear na madrugada com choro entalado, balanceado…

Sentar e caminhar nas esquinas frias sedentas de abraço, calor…

O frio…

O resfrio

O respiro que vêm de tudo e todos que passam ao teu lado…

Os enamorados, os cobertores, risos, choro…

Água nas botas, choro por dentro…

Água que flui, o liquido que vai evaporando quando o choro vai escoando… Transbordei!

E vem chegando os rios que se transformam em um mar de prédios que parece um enorme senhor dos ventos… Brilhante!!! Onde o sol ressoa!!!

O corre corre de gente, o fluxo, o sangue, o olhar, a identidade viva. Vida que segue.

O caminhante em busca de sabe lá o quê. Acho que tentando se tornar nada. Talvez ser chão.

O banco do praça, os pombos,  praça… o contato intimo comigo e com ele…

A celebração… do que fui, do que posso ser, do que somos… do que um dia eu fui e serei…

Pele, cascas, galhos, arranjos que se arranjam… se estruturam e desestruturam e são sentidos. O derretimento.

A bola de cartas não ditas voando por cima da cabeça e coração dessa gente toda. Que bonito esse emaranhado de pensamentos, essa linhas com pontas soltas que se cruzam, se conectam, se despem…

O eco da folha rasgada, de verdade não ditas, da boca costurada, amarrada… que descostura a bainha e enlaça as mais sublimes palavras e expressão.

Corpo…

Corpo sentido

Corpo vivido…

Corpo raiz

Vou sentindo o teu corpo…

O teu movimento, o teu olhar… como um espelho cristalino…

não sei se escrevo pra ti ou pra mim… acho que é para os nós e nos… A centrifuga ânsia de estar… de subir uma escada, de pintar todo o sentir dentro do teu olhar… que onde me encontro… Quero estar passeando por todos os bancos das praças, riscar com lápis a nudez dos meus sentimentos… da minha confusão… da minha serenidade… 


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