Trocas com, Renata Leão

Metas que deixei para trás, Maria Vitoria

O que eu faço de mais certo nessa vida é abandonar as coisas. Tudo o que eu fiz até hoje foi desistir de algo que eu comecei. Quando criança, eu sempre desistia de alguma brincadeira, de algum desenho, de algum sonho. Na minha adolescência, eu desisti de todos os meus empregos, das aulas de inglês, de ser escritora, de relacionamentos, de viagens, de projetos, da fotografia, de morar sozinha, da minha família, eu desisti de tudo em modo geral. É isso que eu faço de melhor, desistir ou simplesmente abandonar alguma coisa na metade. Muitas poucas vezes é por medo de alguma coisa dar errado, geralmente não tenho confiança o suficiente em mim e desacredito de minhas próprias capacidades. Outro fator primordial para os meus abandonos, é o fato de eu não conseguir sentir tesão em nada. Quando eu começo a fazer algo ou ingressar em alguma coisa nova, eu perco o tesão por aquilo ou por aquela pessoa. Minha vontade e meu interesse, simplesmente somem como se nunca tivessem aparecido, não sei explicar o que de fato acontece. Sempre começo mais de uma coisa ao mesmo tempo e possuo uma pressa enorme daquilo dar certo e nunca dá… Nunca. Eu e minha maldita pressa por todo conhecimento do mundo e por todas as respostas da vida.

Acho que o que mais me fudeo nesses abandonos, foram às chances de amar e ser amada. Já perdi as contas de quantas garotas eu expulsei da minha vida por não deixá-las com que se aproximassem de mim ou pelo simples fato de eu sumir de suas vidas após um segundo encontro sem dar explicações ou deixar se quer um misero adeus. Eu simplesmente enjoo e saio fora. Já era. Eu larguei mão da escrita por anos, me convenci de que nunca iria dar em nada e ninguém reconheceria meu estilo e minha potência literária, pelo menos não enquanto eu estivesse viva. Até hoje eu ainda penso dessa forma, por mais que eu tenha retomado com o hábito de escrever na intenção de vomitar os meus demônios e os meus fragmentos mais sórdidos. Enfim, desistir e abandonar é o que eu faço de melhor. Agora na fase adulta, tenho certeza que irei continuar abandonando mais um bilhão de coisas e nunca vou finalizar nada do que eu começar, ou sei lá, talvez nada do que eu comece seja feito para ter um fim, basta apenas que eu siga no percurso da criação expelindo a mim de forma fragmentada. Talvez nada nessa maldita vida seja feito para durar e ser reconhecido. O que quer que seja, abandonar é mais do que um hobby, é um estilo de vida.

A lembrança mais feliz da minha infância, Renata Leão

Olho para este bloco de notas pensando no que escrever sobre a lembrança mais feliz da minha infância. Cheguei à conclusão de que eu não sei o que é felicidade e o que pode ter colocado riso nos meus lábios naquela época, hoje para mim não tem importância, fico apática.

Eu ficava feliz quando ganhava brinquedos das vizinhas, raramente ganhava algum brinquedo dos meus pais, ou quando achava alguma caixa de sapato colorida e fazia dela um brinquedo.

Fora essas coisas, recordo do dia em que soube que uma irmã minha, de 25 anos, que eu não conhecia, iria nos visitar. Eu tinha cinco ou quatro anos. Fiquei dias deitada no beliche, olhando para cama de cima, pensando em como ela seria, qual a cor dos olhos, cabelos, qual seria o formato do rosto. Eu fiquei ansiosa, queria que o dia dela vir chegasse logo.

Não lembro como foi a chegada de sua chegada, mas recordo que eu queria ficar próximo dela, mesmo eu sendo toda acanhada e medrosa. Lembro que tiramos fotos juntas próximo ao esposo dela. Depois de alguns anos ela se mudou para nossa cidade e mora próximo à minha casa. É uma mulher incrível que segura uma barra que eu não seria capaz de segurar.

Ao escrever essas palavras meus olhos lacrimejam não de tristeza, talvez seja essa a lembrança mais feliz da minha infância.

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