3 poemas da artista, Adriana Drih Paris

BICHO DE GOIABA

‘Aqui anda bem apertado e o sumo está amargando, sabia?

A massa que sempre me atraiu, anda me traindo e parece que me expulsando dos pequenos espaços que sempre ocupei aqui dentro.

Faz tanto tempo que existo, penso que todo mundo me conhece ou, ao menos, já ouviu falar de mim.

Sem contar que nos últimos dias parece que só existe a minha casa como fruta fresca nas mesas, nas lancheiras, nas fruteiras, nas prateleiras, nas feiras livres.

É tanta gente falando do meu morro – a goiabeira – onde fica meu barraco – a goiaba, que me dá medo!

Eu, Bicho de Goiaba, vou fazer minha trouxa, com uns fiapinhos velhos dos pedaços que já comi e que detonaram meu estômago.

Ultimamente, nem eu consigo mais comer a goiaba, viver na goiaba, morar no alto da goiabeira.

É tanta bobeira que falam que estou rastejando nos últimos dias, meio sem fôlego, sem força, pra cavar um buraco e fugir.

Ninguém colheu meu barraco

 ou subiu no meu morro nas últimas semanas pra me salvar desta loucura que anda minha quebrada aqui na América do Sul.

Estou me sentindo sozinho apesar de milhares e milhares de vozes só falarem do que me cerca.

E milhares de luzes de holofotes me procurarem no escuro e as mídias, numa velocidade única, disseminarem histórias recentes sobre minha habitação.

Goiaba nem sempre foi a fruta predileta dos brasileiros.

Vou cair fora enquanto é tempo.

Ai.

Opa!

Só mais um pouquinho.

A casca está ficando fina.

Força.

Consegui!

Que escuridão aqui fora!

Eu, Bicho de Goiaba, vou procurar uma amoreira.

Vou virar Bicho-da-Seda.

Cansei de goiaba e de goiabeira.’


A Morte

A vida é implacável.

Ela existe para que seja possível morrer-se.

A ‘caixa’ que abriga coração, rins, fígado, baço… quando decide jogar fora a chave do cadeado, não há quem consiga (re)abri-la.

Os olhos se fecham, as mãos não seguram mais uma colher, os dedos não contam mais quantos anos ainda haveriam a se viver se a chave do cadeado não sumisse no tempo.

Eu viva. Ele morto.

Impossível explicar o sentimento que desperta quando olho a ‘caixa’, vazia de vida, vazia de ar, vazia de alma que está ali na sua frente, imóvel.

E ela, a alma, já no seu novo lar, em paz, na luz serena a nos olhar. E nós, a chorar.

A morte talvez seja a grande sorte que chega quando não dá mais pra carregar o corpo, e o corpo não consegue mais carregar a vida.

A morte é implacável.

Só chega porque houve vida.

Que esta dupla, inevitável em sua existência e companheira de início e fim, atravesse os portais de mãos dadas, assinalando que valeu a pena pra quem vai e para os que ficam.

Todo meu respeito ao passamento.

Os anjos já estenderam os tapetes no céu.


O POETA NU

Poesia verdadeira é aquela que rima pensamento e voz.

O bom poeta não faz rascunho.

Raras as vezes, corrige o verso anterior.

A poesia nasce dentro da alma.

O lápis, a caneta, o teclado, são instrumentos pra expulsar o poema de dentro do poeta e externar ao mundo seu eu.

O poeta pode tudo:

– rir

– chorar

– gritar

– xingar

– emudecer num ponto de exclamação.

Eu sou poeta.

Você é meu poeta.

Eu driblo a mim mesmo, soltando os fantasmas, os heróis, os vilões…

Tiro a casaca, me dispo de pudores e falo nas linhas sobre várias coisas do mundo.

Mundos real e imaginário.

E eu falo em línguas.

Escrevo em línguas que desconheço.

Para o poeta o mundo pode ter diversas formas e cores.

Não há limites pra imaginar alguém ou algum lugar.

A nudez de um poeta é percebida quando não há medo no trato das palavras.

A nudez de um poeta se dá no registro das ideias através de seus versos.

E quando o poeta lê, em voz alta o que poetizou, não há mais salvação a ser concedida por ninguém.

O poeta profetizou.

Ele foi capaz de salvar a si próprio.

O poeta se despiu e numa nudez escancarada seus pensamentos transformam-se em verso, em escritos, em voz e novos pensamentos.


ADRIANA DRIH PARIS é graduada em Direito e História, professora, advogada, poetisa e idealizadora do Sarau Ricadri. Especialista em Conflitos Internacionais e Globalização pela UNIFESP, transita no mundo acadêmico, pesquisando relações entre China e Taiwan, e no mundo dos versos, poemas e contos.

Observa, no trajeto entre as áreas jurídica e da educação, quantas curvas surgem e somem e quantas portas se fecham e se abrem para tantas pessoas dos mais diversos segmentos, lugares, estares…

Apaixonada pelo mundo das letras, possui repertório em algumas áreas dos saberes e acredita que ainda nada sabe.

Assim, com seu lápis ou em um teclado, declina-se em uma infindável busca por palavras, pensamentos, outras perguntas e mais palavras.

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