Como as deusas da lua

Por, Mara Vanessa Torres

“Mara Vanessa Torres, é a nossa mais nova colunista. Para estrear sua colaboração aqui no blog, Mara nos contempla com seu conto: Como as deusas da lua. Apesar de feito algumas participações literárias por aqui, agora Mara virou nossa mais nova colunista oficial e toda semana vai nos agraciar com uma nova criação literária e também irá escrever sobre arte e cultura no geral, nos saldando com sua opinião a respeito do mundo literário.”


O vento cumprimenta delicadamente as folhas das árvores. Ele o faz sem qualquer distinção: verdes e cheias de vida, balançando ao som da sinfonia invisível, ou secas e já se despedindo, satisfeitas de terem finalizado com êxito sua missão. Todas têm o seu destino e a sua hora. Por todos os lados, é possível escutar o som da vida da noite. O ruído do pequeno córrego agora está perfeitamente audível. A reunião entre morcegos, corujas e grilos só vai terminar quando os primeiros raios de sol bocejarem no horizonte. Felinos e répteis tentam tirar uma soneca; mas não se enganem: é apenas uma soneca.

Em algum lugar ao longe, o apito do trem prova que as máquinas estão acordadas. Curtos passos de distância revelam que o trepidar da fogueira é quase um sussurro perto dos gemidos de uma jovem. Vinte e três anos e muitos sonhos. Nesta noite, nós estamos aqui por ela e pela pequena semente que irá brotar de seu ventre.

Meu nome é Selene. Tenho duas irmãs: Ártemis e Hécate. Muitas pessoas acreditam que somos a mesma pessoa. Bem, não sentimos nenhum desconforto com isso. Nossas almas estão interligadas pelo brilho que acompanha o firmamento desde os primórdios da existência. Quando a noite se ergue das sombras, basta olhar para cima e vocês conseguirão nos alcançar. Em diferentes formatos – ou fases, como preferirem -, mas a essência continua a mesma.

Nunca estamos sozinhas. E nem desejamos uma coroa, um cetro ou um manto. Felicidade genuína é dividida entre mãos e abraços. E é isso o que fazemos: brilhamos junto com infinitos pontinhos luminosos. Alguns deles não estão mais entre nós, mas sua existência permanece até o infinito. Vocês costumam chamar esses pontos de estrelas. Nós gostamos da denominação, é claro. Mas gostamos ainda mais de particularizar um pouco as coisas e conhecemos cada uma pelo nome.

Nós viajamos através das profundezas do universo para receber a pequena Ísis. Ela ainda não sabe, mas é assim que será batizada. Agnes, sua mãe, uma mulher devota das Deusas, sempre nutriu muita atenção e cuidado conosco. Vivendo nessa pequena vila, cercada pela imensidão da floresta, ela e sua ancestralidade continuaram nos invocando mesmo quando todos nos esqueceram. A mãe de sua bisavó era uma grande conhecedora dos poderes da natureza e dos cinco elementos – água, fogo, terra, ar e éter. Em meio à ignorância e ao desconhecimento de uma época, ela pagou com a própria vida. Mas os conhecimentos perduraram, guardados a sete chaves por suas descendentes. Agnes é a sucessora da grande anciã. Agora, o bastão do conhecimento e das ideias será passado para a pequena Ísis.

O perfume da Bela-da-noite, uma de nossas flores preferidas, pode ser sentido em todos os lugares do vilarejo. Na casa de Agnes, os gemidos dão lugar às lágrimas e sorrisos de alegria. Um chorinho agradável brota de dentro do útero sagrado e respira o ar do mundo. Estamos em pé, lado a lado, de mãos dadas, observando nossa Ísis. Um coro invisível, formado por vozes de mulheres de todos os tempos, ecoa no universo.

A mãe toma a filha nos braços e a beija. Seus dedinhos minúsculos apontam em nossa direção. Agnes faz uma prece antiga. Ela agradece por nossa proteção e auxílio. O sino pendurado do lado de fora da porta começa a tocar. É a celebração da natureza pelo nascimento de uma criança, a alegria das estrelas pela presença na Terra de mais uma mulher.

O vento, esse deus que jamais discrimina, recrimina ou julga, vem saudar a mais nova filha da Lua.


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5 comentários sobre “Como as deusas da lua

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