Uma arte por dia

O processo só de ida

Sento ao lado contrário do sol. Coloco os fones gentilmente nos ouvidos. Rasgo o envelope em minhas mãos. Puxo uma carta impressa do envelope agora rasgado na lateral. Observo o destino: São Bernardo do Campo. Olho para fora da janela antes de iniciar a leitura e tento não pensar em mais nada, além do aqui e agora.

A data da escrita é do mês passado, mas não ligo para essa eventualidade. Me jogo imersa na ciranda que forma todas essas palavras, buscando ficar presa nessa roda que finda a distancia e a confissão. Já faz algum tempo que venho trocando cartas com uma garota que vi apenas uma vez pessoalmente, me lembro que no nosso primeiro e único encontro, nos abraçamos de modo apertado e muito sincrônico até. Gosto desse processo que nos encontramos agora, mesmo tão longe uma da outra nos falamos apenas por intermédio da boa e velha, e extremamente antiga; troca de cartas. É sempre muito interessante descobrir sobre a vida do outro através da sua própria escrita, o outro pode nos escrever uma história de ficção utópica ou pode nos depositar toda a seriedade e a desgraça da sua existência, tudo milimetrado, e que cabe num único envelope, adesivado com selos pequenos e o remetente escrito a caneta.

Eu lia cada estrofe como quem almeja nunca conhecer o fim das coisas. Toda vez que eu me sento em um banco de ônibus e sigo meu percurso rotineiro até a faculdade, sigo sempre pensando que eu não quero parar de ler a carta que me foi entregue e eu sempre leio as cartas tomando o mesmo destino, sempre na mesma linha, sempre com o mesmo motorista e sempre, do lado oposto do sol. Talvez, seja porque o nome da garota com quem troco confidencias escritas também seja Sol, e eu busco uma nova perspectiva sempre que leio as cartas dela, sempre me sentando de um lado oposto de seu respectivo nome.

Mas hoje, apensar de querer beirar a solidão me enfiando cada vez mais fundo no vão entre o banco e a janela, algo diferente aconteceu. Um homem. Um homem se sentou a minha frente e trouxe uma espécie de luz amarela consigo e essa luz só surgia quando ele coçava a cabeça ou tocava as orelhas. Fiquei um bom tempo ali observando os gestos, cronometrando o tempo entre uma coçada e outra. Era engraçado o modo que a luz amarelada aparecia exatamente naqueles momentos de gesto do homem. A luz até reluzia em sua cabeça um tanto faltosa de fios de cabelo e ele tinha um par de orelhas visivelmente grandes e moles e peludas, e o tempo todo ele intercalava a cabeça e as orelhas e a luz aparecia e a luz sumia… Eu, tomada por encontrar um fim plausível para toda aquela cena, nem acabei percebendo que segurava a carta nas mãos e que uma das folhas havia caído em cima dos meus pés. Tanto tempo ali fitando aquele homem, fez com que eu me perdesse no meu percurso de espaço-tempo.

De repente, uma mulher com uma criança no colo se senta ao meu lado e a criança diz: “Olha mãe, um papel no pé da moça. Posso pegar o papel pra mim mãe?” E então uma mão muito pequena se aproxima do meu corpo e pega a outra metade da minha carta escrita pela Sol. “Menino, devolve isso agora. Você não pode sair pegando lixo do chão assim não, moleque”.

Por um instante voltei a mim novamente, olhei para a minha esquerda e vi a mãe com uma cara de poucos e finados amigos e uma criança toda encapuzada, mal conseguindo se mexer direito com tanta blusa, toca, luva, calça que vestia. A criança tinha um pedaço de papel nas mãos. Olhei para ambos e depois olhei para minhas próprias mãos. Reparei que a outra metade da carta estava naquelas mãos tão minúsculas e tão encapuzadas. Franzi a testa, numa tentativa de passar um ar enraivecido e fulminei o pequeno ser nos olhos. “Toma aqui moça, seu pedaço de lixo”. Peguei novamente o que me pertencia e dialoguei comigo mesma alguns dizeres em minha mente sobre ele ter dito que minha carta era um pedaço de lixo. Me ajeitei novamente no banco, tentando encontrar uma posição confortável, agora com um pouco menos de espaço e privacidade e retomei as palavras…

O homem sentado a minha frente deu sinal e se levantou. Antes de descer no próximo ponto, o homem olhou para mim, cravou o olhar bem no fundo da minha alma e ficou esperando o ônibus parar. Por incrível que pareça, eu não conseguia desviar os olhos daquele homem que me encarava e me devorava por dentro. A porta se abriu e antes de descer, o homem olhou rapidamente para a mãe com a criança ao meu lado e disse: “O sol hoje não está lindo?”. Fiquei observando enquanto ele descia, ainda compenetrada a tudo. A mulher não disse absolutamente nada e não esboçou nenhuma resposta a fala do homem. Depois que o ônibus partiu, tentei voltar a mim e sem querer, percebi que o sol não estava mais ao lado oposto ao meu e sim ao meu lado, brilhando forte e amarelo bem em direção ao banco daquele homem.

Damos graças, dizia a ultima palavra da carta.


Esse texto faz parte da campanha que iniciei ontem, chamada: #umaartepordia que consiste em publicar um texto e uma fotografia por dia, na tentativa de explorar a criatividade e explorar nosso lado artístico. Vocês também podem participar da campanha, basta apenas que postem uma expressão artística da qual se identifica e marcar a Tag: #umaartepordia. Vocês podem fazer isso tanto aqui no blog ou nas outras redes sociais. Vou sempre dar uma sondada na Tag e compartilhar a publicação que vocês fizerem pra essa campanha. Disseminem a arte amigos!

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