Ela queria voar

Por, Monique Malcher

Ela queria voar, corria no campo imenso. Minhas pernas em pensamento se esticavam, corriam na velocidade igual, acompanhar com os olhos sua corrida era o ponto alto do meu dia. Disparava pela terra laranja do campo de futebol maltratado do colégio de padre que estudávamos. Alana era filha da professora de informática e isso causava um certo constrangimento pra ela, coisa de adolescente que não quer que os pais vejam como eles se comportam em sala de aula. É bom ter uma vida separada do que se espera de você.

Sempre teve uma cobrança de excelência em relação ao comportamento das garotas nos colégios religiosos, mas a gente tinha uma vida toda pra descobrir, quem poderia parar a vontade de usar a calça jeans mais apertada ou o cabelo solto? Ela podia fazer tudo isso, tinha uma beleza que chamava atenção dos meninos, mas algo muito masculino que na época me dava medo, mas hoje compreendo que ela era meu ideal de liberdade. Alana era um lençol branco, não porque o silêncio fosse um medo no modo como colocava o corpo no mundo, mas porque não precisava manchar pano algum em busca de atestado de pureza. Ela provava coisas para si mesma e tinha medo de ser a garota certinha, filha da professora de informática.

O corpo todo pulsava e me sentia completa de uma energia futurista, mesmo sentada na grama sem mexer um músculo. Ela voava com as pernas tão magras e os cachos todos presos com muita força. Era o meu corpo ali à espera dela que marcava uma volta completa. Geralmente completava vinte meninas medrosas, o método de contagem, pelo menos era isso que eu era naquela época, poço de medo. Alana me mostrou as possibilidades que brotavam de ser algo fora de contexto, era arriscado pro meu mundo tão disciplinado estarmos juntas. “Vocês não se parecem”, diziam sempre. Se ela me abandonasse no meio do caminho, será que eu saberia o caminho de volta?

Era a única amiga que sabia convencer meu pai de qualquer coisa. “Você tem que aprender a enganar os homens, tirar o que eles tem de melhor antes que eles te matem”, argumentava quando eu fazia uma cena dizendo que ele não ia concordar que eu saísse com ela ou dormisse dois ou três dias fora de casa. Por alguns momentos esquecia que Alana tinha apenas quinze anos.

Mostrava vitoriosa a coleção de projéteis, tinha um fascínio pelas balas e pelas histórias que elas encapsulavam, mas não admirava as armas. Também sabia tudo sobre aviões e estudava durante anos para a prova da Força Aérea, voar era uma meta e uma obsessão. Quando os dias de escolher uma profissão para o futuro se aproximavam, ela ia cada vez mais mergulhando na ideia de que voar seria uma boa solução pra ter a vida diferente da que tinha, não que fosse uma vida ruim. Era uma casa com três mulheres. Alana, a mãe e a irmã pequena.

A mãe era rígida, porque era movida pelo medo das filhas engravidarem cedo e terem dificuldade por conta disso profissionalmente. Não foi muito fácil ser professora e coordenadora de um colégio tendo duas filhas, mas ela conseguia como muitas mulheres, que nunca podem contar com os homens e depois de um certo ponto até preferem que eles sumam.

Alana convenceu a mãe que precisava de aulas de reforço direcionadas para a prova da Força Áerea, mas ela não precisava, sabia muito mais do que o soberbo professor. Soube que ele era um homem soberbo desde o primeiro olhar que trocamos. Era um ex-piloto. Com o tempo eles riam muito e ela ficava depois das aulas pra trocar ideias e apresentar dúvidas, como forma de fazer ele se sentir necessário e grande. As aulas eram aos domingos, eu ia com a desculpa que precisava melhorar na matemática, mas tudo em absoluto no meu mundo era pra tentar cuidar da minha melhor amiga, cuidar nos meus parâmetros de perigo. Ela era a única coisa boa que eu tinha dentro de um universo que ninguém me enxergava, talvez eu fosse tão parasita quanto aquele homem.

Foi no último domingo antes das férias que vi, no fundo do corredor das salas de reforço, depois de todos terem ido embora, eles se beijando. Imaginei ele dentro do avião, fardado e caindo, caindo, despencando, queria que morresse, mas que queimasse também. Voltei chorando pra casa, quedada de uma melancolia que jamais havia sentido, e qualquer coisa poderia me acontecer, era feito de anestesia meu corpo.

“Olha, esse é o livro dos sonhos”, Freud tinha chegado no mundo dela enquanto eu era prisioneira de uma Todateen. Quando as aulas voltaram ela tentou se aproximar pra me contar suas escapadas com o piloto. Eu não podia contar meus sonhos. Às vezes eu caminhava pela tentativa de uma ou duas páginas de prosa, que eram péssimas, precisava desabafar. Escrevia mal, mas Alana insistia em me mandar uns bilhetes com frases motivadoras. Eram arremessos certeiros na minha cabeça ou que caíam direto no meio do fichário aberto. Desembolava o papel pautado sabendo que era dela, só existia uma pessoa no meu mundo. “Bichinho lindo, você escreve muito bem, mas falta soltura.”

Queria escrever sobre ela.

Às vezes me incomodava esse apelido, como se fosse seu mascote, mas como amava seguir Alana por aí, isso me motivava a aceitar o título. Sentia que precisava ver onde ela chegaria, não só como pessoa no mundo, mas como alguém que bagunçava algo importante dentro de mim, mesmo que eu sentisse que crescia só um vazio nas minhas entranhas. Era a expansão do eco. Ela era minha boia.

A ponta do projétil rodava nos meus sonhos, Freud fazia uma trança nos meus cabelos, ele sabia tanto e nada. Por um momento eu era parte do projétil. Depois era algo além dele e assim minha testa aceitava sua perfuração lenta, como se fosse uma parafusadeira engasgada. Fugimos em uma tarde depois que Alana descobriu que estava grávida do professor. Ele prometeu fazer dela um sucesso, que passaria de primeira na prova da Força Aérea, mas ela não conseguiu, caiu na corrida e depois o teste positivo nas mãos feito no banheiro da escola.

No ônibus, por uma hora, a gente foi feliz. Eu sentia que ia ser mãe daquela criança junto com ela, íamos dar um jeito. Até que na terceira parada da viagem descemos pra beber água, e ele estava parado na frente de um gol branco. Alana correu pra um abraço romântico. Voltei pra casa com eles, enquanto faziam planos de casar. Ele ia deixar a esposa com quem tinha dois filhos. Eu tinha tentado universidade pra outra cidade, era certo que não passaria, mas passei. Foi a primeira vez que saí do lugar, corri na terra laranja. Entrei no avião, era início de fevereiro. Imaginei que era Alana que pilotava, apertei o cinto.


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