Décimo terceiro andar

As costas se esbarram no espelho enquanto olhos tropeçam em outros olhos miúdos e pedintes. O silêncio conversa com a fração dos segundos, as mãos que vinham coladas aos bolsos agora são livres para tatear a face que do outro lado emaranha-se em fogo alto. Um riso fino, e o peito pula de uma forma descompassada…

O telefone toca. A senhora do quinto que vive gritando de madrugada entra. A ligação cai. O ar pesa. As bocas ficam pulsantes. A porta se abre no quinto e se fecha de uma maneira abrupta. A senhora fica de pé do lado de fora nos olhando pelo vidro da porta até que o impulso dos cabos nos leve até o décimo terceiro andar…

Por dois segundos, as mentes pensam em dizer algo que rompa a monotonia do silêncio ensurdecedor. Ambas falham. Sétimo andar. Uma das mãos procura as chaves da porta. As duas fitam o chão e esbarram com os cadarços de um dos pés soltos e despreocupados.

– É… Seu cadarço está…

– Sim, eu vi. Obrigada.

– Dia cheio hoje?

– Não. Dia vazio.

Décimo primeiro. Os fones caem das orelhas. Os olhos procuram por indícios de vigilância. Cadarços são amarrados. Um tranco e as luzes piscam. Apenas um grito agudo solto no ar…

– Esse elevador sempre dá problemas.

– Não sei por que insisto em pegar o de serviço ao invés do social. Merda.

– Daqui a pouco ele volta. Já acionei o alarme.

Um solavanco e os corpos caem juntos ao piso. Duas mãos encontram duas coxas fartas e as tocaram no susto, porém sem modéstia. Uma das bocas deixou um pedido de desculpas escapar, enquanto a outra deixou transparecer um leve sorriso. Os olhos se cruzaram por mais de três segundos e ambos pensam nas portas que os separavam todas as noites, nas paredes finas que sempre denunciam o som dos passos nas madrugadas de insônia, nas vozes que se calam após intermináveis suspiros, no barulho da tv sintonizada num programa religioso, e no cheiro da sopa nos dias de baixa temperatura…

– Deixa eu te ajudar a levantar.

– Não, fica aqui sentada comigo. É mais seguro caso o elevador despenque.

– Eu preciso te dizer uma coisa, antes que tudo se normalize e a gente volte à rotina de nossas vidas.

– Claro, me diga.

– Eu sempre…

O elevador despenca por seis andares. Gritos não se ouve, apenas uma pequena prece é evocada pelos pulmões amedrontados por uma suposta morte. Os braços correm juntos em tons de abraços de despedida. Os rostos se chocam procurando um abrigo conhecido. Uma das bocas se cala antes de dizer amém e outra a tampa, com os lábios infestados de sabor de uva.

Os cabos se firmam e as luzes se acendem. Lentamente os milésimos de segundos continuam a alcançar os andares mais altos. Chamas faíscam dos poros das peles. Dois seres se entreolham assustados e ao mesmo tempo, otimistas…

Décimo terceiro andar. Um solavanco de leve e a porta se abre. Os corpos se recompõem e cada um recolhe suas sacolas com seus supostos jantares. O número cento e vinte e quatro, diz:

– O que você tinha pra me dizer antes do elevador cair?

As luzes piscam. As pernas correm. Agora sozinho ele responde para si mesmo:

– Eu sempre apreciei seus cigarros, enquanto você às quatro da manhã se debruçava na varanda para conversar com a lua.


Este post faz parte do Projeto Escrita Criativa

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