A solidão da gaveta

Sirvo como depósito de coisas que merecem ser descartadas. Dia após dia, tudo se embaralha na escuridão, levando o pouco de espaço e fôlego que ainda me resta.

As folhas estão jogadas cheias de rascunho inutilizáveis. Os fones estão embaraçados. Existem restos de comida e animais mortos dentro dessa minha escuridão opaca. Vivem me tratando como se eu fosse à escória. Me abrem e voltam a me fechar com tanta violência que considero um milagre eu ainda aguentar tamanho descaso.

Aos finais de semana é ainda pior, depositam em mim o amargo do destilado que ferve as minhas bases, encharca a madeira até quase apodrecer… depois, eles vêm com um pano encardido, tentando consertar a merda que eles fizeram.

Nunca colocam em mim um livro se quer, é tudo resto. Sempre que precisam se livrar de algo, empurram para o fundo de mim a preguiça que neles operam. E o lixo fica lá, até que resolvam fazer uma limpeza no maldito quarto e jogar fora aquilo que não valida mais. Eu sempre fico achando que eu serei o próximo depósito, fico na esperança de partir de vez, ser abandonada em alguma caçamba a céu aberto só para quem sabe, receber algum feixe de sol ou dignidade.

Já fazem mais de sete anos que me encontro aqui, sendo aberta e fechada consecutivamente, tendo que suportar as inúmeras tentativas frustradas que ela tem de ser escritora. Sempre que ela resolve se sentar e escrever alguma coisa, que é coisa rara de acontecer, pois ela não tem um pingo de disciplina, ela acaba jogando para dentro de mim todos aqueles papeis de péssima qualidade amassados e rasurados. Depois, ela ainda fica se queixando, dizendo que o tempo está passando tão rápido que ela não tem tempo de escrever nada que preste. Tudo pra ela é esse tal de tempo, tempo, tempo… como se ela fosse uma pessoa muito ocupada pra reclamar tanto assim das coisas que ela acha que escreve, mais na verdade nunca escreve.

Uma coisa ou outra sempre se salva, há dias que todo aquele lixo que ela produz não é de todo ruim, como aquele poema que ela escreveu uma vez, se eu não me engano dizia algo do tipo:

“ A escuridão me atinge.

Trago na boca o borbulhar das tripas,

Gotejando a descrença que me embala,

Rasgando a vertigem que me ludibria.

Já não posso mais ser eu,

Tudo finda,

Tudo murcha

Tudo acaba tão vazio e frio.

Dói ser quem sou,

Pois num estante sou nada

E no outro,

Também nada sou.”

Esse poema eu até que me identifiquei. Gosto desse lado sofrido e moribundo que ela tem. Parece muito comigo, abandonada aqui nessa escuridão sem poder ver a luz do dia ou saber exatamente como correm as horas, semanas, meses e anos.

A vida tem dessas né, a gente sempre guarda na gaveta os poemas, as dores, as memórias, a saudade, as derrotas e principalmente o lixo, porque somos covardes o bastante para assumirmos que somos bom em alguma coisa. E como escritora ela é boa, por mais que eu odeie admitir. Pena que ela não ache a mesma coisa. Solidão então, no fim, se torna a casa de ambas.


Este texto faz parte do Desafio Relâmpago do grupo: United Blogs

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