Quase tudo em cinco envelopes, de Lúcio Pessôa

Era noite. Trazia eu, um semblante cansado e convalescido. O dia havia sido cheio e turbulento quando então, resolvi dar um tempo para um respiro e abrir as páginas do livro de Lúcio Pessôa em: Quase tudo em cinco envelopes.

“Dei-me conta da inexistência de alguém de verdade, ao meu lado, para compartilhar aquele instante de solidão e incertezas trazidas no conteúdo daquele maldito envelope”.

A trama se desenrola como uma dança muito bem planejada e muito bem conduzida. Eliz, personagem central da história, mulher solteira e bem sucedida, se depara com o primeiro conflito guardado em letras miúdas dentro do primeiro envelope. Como mulher forte que era Eliz, ainda atônita e imersa em pensamentos diversos, por um acaso nada planejado, recai os olhos sobre um anúncio de jornal que encontrara sem pretensões embaixo da mesinha de centro. Anúncio este que trazia os seguintes dizeres:

“Adriano, um Deus. Sou o que você procura. Distinto, discreto e eficiente. Se você quer desejo na cama, me chama, pois não te deixarei na mão. Prefiro não comentar a minha idade. Você verá que isso não faz a menor diferença. Atendo em motéis e em domicílio”.

Como não se sentir aguçada e ao mesmo tempo curiosa ao estabelecer contato com toda aquela oferta envolta em mistério? Por quê o rapaz prefere não comentar a sua idade… Talvez seja jovem demais? Velho demais? Eliz se remonta em suas próprias dúvidas e resolve desvendar o mistério, ligando e marcando um encontro com o tal Deus, mesmo que, nunca tivesse feito algo de tal façanha antes.

Às vezes, nem tudo sai como planejamos e por mais que pensemos que estamos fazendo a coisa certa, com a pessoa certa, vez ou outra, o tiro sai pela culatra. Entre o tão esperado encontro que trazia um fio de esperança e uma vontade motriz de se sentir viva e desejada, Eliz acaba conhecendo Jorge por um acaso desconhecido e se sente tomada por forças torrenciais que perpassam por seu corpo, fazendo sua mente se desligar e esquecer por alguns instantes o tal envelope que outrora havia deixado seu espírito fragilizado.

Jorge, o apaixonado, romântico, carinhoso, cético, zeloso e com manias diversas. Um homem, oposto de Deus. Jorge e Eliz acabam se conhecendo por um engano e se envolvem durante muito tempo, entre idas e vindas, momentos felizes e de entrega, cenas de angústia, medo, e desejo profundo por uma despedida eterna.

Como se não bastasse às reviravoltas que a vida vem pregando, um segundo envelope vem pra bagunçar novamente as estruturas de Eliz e modificar tudo o que se sustentava em sua rotina. Junto com o fatídico envelope, o surgimento de sua mãe que se ausentara por muitos anos, faz com que Eliz retorne a um passado que há anos já havia sido enterrado. Helena, a mãe que a abandonara na infância, deixando a filha aos cuidados de estranhos entre um abrigo e outro, agora se encontrava ali, de frente com a própria imagem de si mesma mais jovem, trazendo consigo um grande arrependimento nos ombros e alguns poucos dias de vida para se retratar de seu abandono. Mas, o surgimento de Helena faz uma verdadeira bagunça na vida de Eliz e Jorge, tornando uma guerra sem fim a relação dos três dentro de casa.

Os dias passam, quando por um acidente, Eliz se vê grávida de Jorge. Adriano reaparece e tenta a todo custo se aproximar de Eliz, que foge do homem como quem foge da cruz. Outro envelope surge e depois outro e outro… Quando dá por si, Eliz se vê como na primeira vez que encarara o papel ao seu colo num sábado, véspera de natal, sozinha, porém, agora com uma razão eloquente e extremamente amável, para continuar seguindo em frente.

Quase tudo em cinco envelopes é um daqueles livros que a gente não consegue ler de supetão, pelo contrário, é uma leitura que exige uma entrega da gente. Tudo foi muito bem planejado e muito bem escrito, fazendo com que nós mergulhemos para dentro das narrativas, das cenas, dos diálogos e principalmente, do conceito! Lúcio Pessôa foi muito sagaz ao escrever este livro, o autor consegue em 347 páginas, prender tudo aquilo que sempre deixamos escapar ao nos deparar com um bom livro, a coragem de ir até o fim sem medo de um término que não comova nossos corações e que não atenda nossas expectativas. Eu lia esse livro como uma prece todos os dias, voltando das aulas da faculdade ou entre um diálogo e outro nos bares. Se você acredita que os bons escritores estão mortos, eu recomendo que você repense sua teoria e leia o livro, Quase tudo em cinco envelopes.

Quem é Lúcio Pessôa e o que é: Quase tudo em cinco envelopes

BIOGRAFIA

Nascido no estado de Pernambuco, em Maio de 1978, Lúcio Pessôa viveu toda a infância em um Engenho de cana de açúcar, no município de Itaquitinga, zona da mata norte do estado, embora resida em Igarassu, cidade Patrimônio Histórico. Com formação técnica nas áreas de Administração de Empresas e Segurança do Trabalho, sempre alimentou sua paixão pela literatura produzindo textos de diferentes gêneros como poesias, contos, crônicas e romances. Teve destaque em alguns concursos literários, com a publicação de poemas como “Paredes de Silêncio”, selecionado para a antologia Brasil Poeta, no ano de 2010 e “Flores” publicado no Livro Diário do Escritor 2012 ambos através da Editora Litteris. Foi selecionado ainda para uma das antologias da Editora Scortecci com o poema “O amor é só” e para a coletânea “A palavra em prisma” Concurso promovido pela Secretaria de Cultura de Guarulhos em 2013, ano em que publicou seu primeiro romance “O que acende as estrelas” pela Editora Chiado. Lança este ano, pela Editora Giostri, o seu segundo romance “Quase tudo em cinco envelopes”, e publica um os dos seus contos na Coletânea “Modus Operandi” da Editora Illuminare, lançado na BAN! (Buenos Aires Negra – Festival Internacional de Literatura Policial). Especialista na área de Recursos Humanos, é graduado em Letras pela Faculdade de Ciências Humanas de Olinda, possui artigo publicado na Revista de Produção Acadêmica da instituição, sobre a construção psicologia dos contos de Clarice Lispector, além de desenvolver trabalhos na área de pesquisas sobre a literatura marginal contemporânea.

Escritor Lúcio Pessôa

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4 comentários sobre “Quase tudo em cinco envelopes, de Lúcio Pessôa

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