Cordões de Celofane, de Paulo Sá

O relógio aproximava-se das quinze horas, o sol ia alto, as crianças pulavam em volta da quadra, os carros e os ônibus passavam… resolvi me sentar, retirei um pequeno livro da mochila, o depositei sobre a mesa da praça, dei um gole na vodka que eu trazia comigo e abri, por fim, no trecho deste poema:

Um dos meus grandes defeitos

Como é lindo defecar!

Uma das poucas coisas que o ser humano não consegue

fazer acompanhado;

É um total solilóquio.

Todo o percurso tomado — a enigmática viagem em

nossas entranhas!

Imaginaram quantas mil formas esculturais a merda é trabalhada

Até chegar nos nossos horrorosos e mal—humorados vasos?

A nossa força (minha mãe diz que é a quinta parte da força

do parto)… a careta, o esforço… e lá vem ela!

Sai do túnel cintilante, rindo à toa.

Podem rir! Eu gosto da merda. Com ela procuro solucionar

as rimas, as intrigas. Eu gosto da merda.

Um poeta que não observa o defecar

Como pode compactuar da beleza do Sol ao descansar?

Paulo Sá e seu Cordão de Celofane, está em contato diário com o asfalto, a fumaça, o verde que ainda resta, o cimento e as neuroses de todo o tipo. Nessa obra o autor retrata a sociedade de uma forma poética e muito adversa, trazendo à tona as verdades que ninguém gosta de ver ou engolir a seco.

Cordões de Celofane contém, 33 poemas que evocam a necessidade de se repensar a vida, o processo criativo e principalmente, o papel do poeta contemporâneo.

“Esperam tanto dos poetas… de suas soluções alcasselcer de rimas / De duas visões arrebatadoras […] Mas pra que poesia, pra quê? A vida é simples, não carece de rimas. Rima é complicada, leva quase uma tarde […]”

Fiquei ali, mergulhada em Cordões de Celofane por um tempo, mesclando os olhos entre um poema e outro, bebericando o destilado, ouvindo a algazarra das crianças todas ali, sem a supervisão de um adulto. Tudo parecia ruir e se reconstruir a cada novo poema que se iniciava. O dia vagava lento, a pele queimava pela ardência do sol. Quando dei por mim, eu já havia devorado 37 páginas e resolvi parar a leitura exatamente no poema intitulado: Parto (Ou, por favor, um dry martini sem gelo). Minha bebida havia acabado, mas a minha sede de poesia ainda não fora totalmente suprida.

Onde comprar o livro:

Autografia

Livraria Cultura

Cordões de celofane de Paulo Sá, são poemas para ler aos poucos ou engolir tudo de uma vez, você é quem decide. Mas, sugiro apenas uma gentileza, mergulhe nas palavras aqui contidas, pois, poesia é instante modificando o agora.

Paulo Sá, nascido na capital paulista, divide suas atividades na escrita, como poeta, ficcionista, redator, trabalhos editoriais, professor de redação, e na música, como guitarrista, compositor, letrista e pesquisador musical.


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