Amor de hospício

Pela colunista: Mara Vanessa Torres

Uma tempestade cai sobre Santana dos Montes. As ruas da cidade estão cobertas por água e lama. Velhas construções coloniais seguem imperiosas e despreocupadas, com a força de quem já enfrentou dilúvios ainda maiores que aquele através dos séculos. Em uma casa humilde, próxima à igreja de Sant’ Ana, a idosa se prepara para mais uma visita. Usando o vestido lilás costurado há alguns dias, ela procura o gerânio que retirou do quintal logo cedo. Quer colocá-lo como adereço no cabelo. Precisa se apressar. Quando a chuva diminuir um pouco o ritmo, ela não irá perder nem mais um segundo dentro de casa.

 A maior parte das construções de Santana dos Montes está protegida pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minhas Gerais. Com a ajuda do turismo, é possível manter o lugar funcionando e injetar recursos. A cidade mineira parece ter saído das páginas de um livro de História do Brasil direto para o século XX. Há muitas fazendas na cidade colonial. E, em uma delas, Ester e Paulo cresceram.

Em 1920, duas famílias se tornaram agregadas de um grande pecuarista da região. Vieram de pontos diferentes do país, mas com o mesmo desejo: ter um pedaço de terra para trabalhar, viver em paz e criar bem os filhos e netos. Da convivência diária na fazenda Sabiá surgiu uma grande amizade.

Ester e Paulo têm a mesma idade – apenas meses os separam. Cresceram juntos na cidade. Completaram o ensino básico na mesma escolinha e, sem maiores escolhas, continuaram suas vidas no trabalho da fazenda. Ester ajudava na cozinha e Paulo nas plantações e com o gado.

Em abril de 1940, quando ambos tinham acabado de completar vinte anos de idade, passeavam na mata fechada que dava acesso a uma das cachoeiras mais próximas. Ester decidiu voltar para casa e Paulo ficou mais algum tempo sentado no meio da mata. No instante em que despertou do cochilo que acabou tirando, ele viu uma máquina estranha descer dos céus e pousar em meio à clareira. “Santinho do céu!” – pensou – “o que diacho é essa coisa?”.

De dentro da máquina, Paulo viu sair um homem com aparência insólita: era muito alto, magro, vestia uma túnica azul marinho e tinha olhos protuberantes e extremamente puxados. A testa era acentuada e o nariz, a boca e as bochechas possuíam um vermelho que Paulo nunca havia visto nem mesmo nas madames e senhoritas de Santana dos Montes em dia de quermesse.

Sem dizer uma palavra, a criatura se aproximou de Paulo e os olhares se cruzaram.

Dias depois, Ester ouviu o nome de Paulo ser motivo de piada na cidade. Da igreja ao açougue de Seu Tinoco, todos explodiam em gargalhadas e afirmavam que um dos filhos dos agregados da fazenda Sabiá estava pinel, doidinho da Silva. Indignada, Ester se pronunciou:

– Vocês não têm vergonha de ficar falando mal de alguém pelas costas? Que conversa triste!

– Ô, menina Ester! Cê não tá sabendo? O Paulo viu um ET.

Novas e retumbantes gaitadas ecoaram na Praça da Matriz. Ao voltar para a fazenda, Ester procurou o amigo. Sua família estava profundamente desgostosa com toda essa confusão e pediu à moça para tentar dissuadir Paulo daquela besteira.

– Ô, fia! Vai lá! Fala com o Paulim… Se continuar assim, vão espaiar por aí que ele não anda bem das ideia… E vamo ter que chamar alguém pra cuidá disso – repetia a avó do rapaz, entre uma e outra lágrima.

Ester encontrou o amigo perto do celeiro. Fez menção aos gracejos e ao sofrimento da família, pedindo que ele parasse com aquela brincadeira.

– Não é brincadeira, Ester. Eu vi. Eu juro que vi. Ele me disse que era morador de Saturno, que era herdeiro de uma mistura de raças e que seu nome é Jonaska.

– Que nome complicado, Paulo. Tem certeza de que tudo não foi apenas um sonho?

– Tenho. Você é minha amiga, me conhece desde criança. Por que eu mentiria?

– E o que essa criatura dos céus queria com você?

– Jonaska me falou que quer ficar mais próximo de nós, homens e mulheres. Quer conhecer o nosso mundo, as nossas ideias…

Os dois permaneceram em silêncio.

Conforme o tempo foi passando e Paulo não mudava a sua versão, a família ouviu os conselhos do Dr. Tabosa, único médico da cidade, e o encaminhou ao que Dr. Tabosa chamou de “casa de repouso”.

Homens de jaleco branco e braços fortes vieram buscar Paulo, que resistiu o quanto pôde antes de ser trancafiado na casa de repouso, localizada na estrada a caminho de Conselheiro Lafaiete.

Ester chorou por dias, meses e anos. Por que castigaram Paulo pelas suas histórias? Se fosse mentira, ele não teria direito a ter imaginação, criatividade? E se fosse verdade, não seria do interesse de todos saber que existem outros seres no universo?

 Todo mês, ela visitava o amigo nas imediações da tal casa de repouso. Como não tinha permissão para entrar, ficava do lado de fora, debaixo de uma frondosa Braúna. De uma das janelas tomadas por grades, Paulo ficava parado, acenando e observando a amiga.

Sem outra alternativa, eles trocavam cartas. E a ampulheta do tempo continuou seguindo o seu percurso. Aos trinta anos, Ester casou com o rapaz que trabalhava no armazém de Santana dos Montes. Paulo se recusava a dizer que o que vira e ouvira era mentira. E, por ordens médicas, continuou encarcerado na casa de repouso.

Ester teve o primeiro dos três filhos. Enviou uma carta para o amigo com a foto do batizado. Paulo confidenciou que ainda falava com Jonaska através do reflexo da luz no espelho. Quando todos estavam dormindo, ele corria para a janela principal e, com os braços entre as grades, colocava a metade de um espelhinho que arranjara no asilo (“Sim, minha querida amiga Ester, o nome deste lugar é asilo”) e deixava que a luz da lua funcionasse como um código morse. O extraterrestre nunca tinha se afastado.

A vida foi passando até o dia de hoje, início dos anos 1990, quando Ester, agora uma viúva de setenta anos, mãe de três e avó de oito, aceita a carona do vizinho que vai para Conselheiro Lafaiete.

– Deixo a senhora na frente do lugar, dona Ester.

E assim, cinquenta anos depois, a distinta senhora está novamente de pé, debaixo da mesma Braúna de toda uma vida. Ao avistar Paulo se aproximar da janela, com sua barba e cabelos longos e brancos, ela acena sorrindo. Repentinamente, a chuva – que havia dado uma trégua – volta a cair com força total. As nuvens estão ainda mais escuras.

Ester procura abrigo debaixo dos galhos da frondosa árvore. É nesse momento que ela avista um homem magro, alto, de rosto diferente do habitual e olhos extremamente grandes e puxados. Sem falar nada, ele estende a palma da mão esquerda em direção à Ester e a palma da mão direita em direção a Paulo. Tão rápido como um piscar de olhos, os dois desaparecem do local onde estão.

Ninguém em toda Santana dos Montes sabe do misterioso paradeiro de Paulo e Ester. Os dois amigos de longa data, septuagenários, desapareceram sem deixar qualquer pista.

Nem a polícia, nem os moradores e nem os apelos religiosos foram capazes de localizar o casal de idosos. Apenas uma criança de sete anos tem um palpite de onde eles poderiam estar. Enquanto brincava pelos arredores, ela viu quando Paulo e Ester se transformaram em pontinhos brilhantes e, com aparência muito mais jovem, sumiram na companhia de um homem muito alto e muito magro.

Mas a criança jamais contará o que viu. Ela sabe da história do homem que falou sobre extraterrestres, ficou lelé da cuca e foi levado pelos homens de jaleco branco e nunca mais voltou. Por que ela se arriscaria a tanto?


Acompanhe a escritora Mara Vanessa nas Redes Sociais

BlogInstagram

Adquira os livros da escritora Mara Vanessa

6 comentários sobre “Amor de hospício

  1. Ótima ambientação e enredo! Adorei como descreveu o lugar, as pessoas, os diálogos. Parabéns! Mais um trabalho excelente, Mara. E parabéns ao blog por publicar.

    Curtido por 3 pessoas

Comente sobre isso

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s