Esquecidas aventuras

Por, Josi Siqueira

A vida tem passado rápido mas eu não me arrependo, não. Eu quero mais é aproveitar cada tiquinho que tiver direito. Ô, senhora, tu não vai comprar não? Vai só olhar, é? Ah, se eu cobrasse para as pessoas olharem minhas artes. Não é fácil fazer isso aqui, você sabe. Mas como eu ia dizendo, eu quero mesmo é desbundar. Quero fazer essas coisas doidas que a garotada faz. Dançar funk, quero dançar funk. Rebolar com a raba no chão, não é como dizem? Que foi, menina? Tá me achando doida, é? Aqui não tem meias palavras, a verdade pode ser feia mas é melhor que as mentiras cheias de floreios.

Quando eu era menina me ensinaram a escrever, a ler, a tricotar. Sempre achei que tricô fosse coisa de velho, e hoje em dia eu passo mais tempo fazendo tricô do que qualquer coisa. É eu no tricô e a novela na tevê. Sei de tudo que acontece na novela. Inclusive, antes de ontem, tu viu o que aconteceu? Jesus, o mundo tá perdido mesmo. Aquele menino, o Fábio — não, não, o Carlos… Peraí, não, talvez tenha sido o Fábio, o que faz aquela novela que se chama — como é mesmo o nome? Aquela das oito. O Fábio — ou Carlos — estava traindo a mulher dele, como sempre acontece nas novelas, e eu me dei conta que quero ser como o Fábio.

Uai, por que não? Eu cansei de levar essa vida sem graça. Eu não lembro a último vez que senti meu corpo queimar de medo, de safadeza, de qualquer coisa. Esqueci! Se eu trair meu homem com outro, quem sabe eu comece a sentir esses prazeres de novo.

Assim, eu tenho vontade de dar, e dar muito, para um estranho. Não me olhe com essa cara que eu sei que tu também já pensou nisso. Toda mulher pensa. Um estranho que saiba comer, sabe? Que saiba chegar na gente, dar aquela mordiscada no pescoço… Puta que pariu! Meu homem nem levanta o pau mais, sempre tá cansado. E eu fico lá, a ver carneirinhos. Da próxima vez vou é bater uma siririca, como diz minha neta. Vou bater mesmo, qual o problema?

Ah, sim, o problema é minha mãe me encontrar fazendo isso. Oi, moça, passo maquininha sim. É débito ou crédito? Olha, se for no dinheiro eu dou dois reais de desconto para tu. Não quer? Tu é quem sabe. Então, o problema é minha mãe, mas ela já morreu, quando eu era criança. Só que toda vez que eu penso em bater uma, ela aparece tipo a Nossa Senhora, toda iluminada, pálida. Me olha com aqueles olhos que me faz tremer dos pés à cabeça. Eu não sou tarada a ponto de transar com minha mãe olhando. Aí eu esqueço a siririca, durmo. Só transo mesmo quando meu homem quer. Nessas horas minha mãe não aparece. Ela é muito conveniente.

Minha vida é isso aqui. Tricotar o dia inteiro. Fazer janta para as crianças. Limpar a casa. Vir aqui na venda. É só isso. Esses dias um garoto estava me dando mole. Foram essas as palavras que minha neta usou. Estava dando mole, e eu nem reparei na hora. Eu não quero ser essa pessoa, que nem repara que alguém tá querendo transar comigo. Seria minha chance de dar para um desconhecido.

Eu não sei porque tu fica me olhando com essa cara toda vez eu falo que quero dar para um desconhecido. Puta que pariu, é um desejo universal. Desconhecido não quer dizer só gente que a gente não conhece. Quer dizer também partes da gente que a gente não conhece, um toque diferente, uma piscadela diferente. Meu homem sempre me come do mesmo jeito, há quarenta anos. Imagina que tédio que é. Quando eu quero inovar, ele diz que está com dor nas costas, ou cai quando eu pulo nele de surpresa. Não dá mais. Tá tudo muito igual.

Talvez, talvez. Ele nunca disse que já se interessou por alguém. Mas sabe como são os homens. Vivem a comer com os olhos. Boa ideia, acho que vou fazer um combinado com ele. A gente sai com quem a gente quiser, para ver se anima mais a relação. É, chega de coisa morna. Eita porra, eu disse coisa morna? Puta que pariu, não lembro se desliguei o fogão! Ando tão esquecida que… Tu pode ligar lá em casa? Pergunta para ele se o fogão tá desligado. Merda, merda.

Ainda bem, ainda bem que ele tá lá. Disse o quê? Uai, a gente nem transou ontem. Diz que foi doido? Ele é que tá doido, tadinho. Meu homem tá caducando… Ei, será que eu trouxe a maquininha? Que maquininha? Ué, a maquininha, eu não tirei ela da bolsa hoje. Mas não estou achando aqui. Puta que pariu, não acredito que vou ter que voltar em casa. Hoje o povo só quer saber de passar cartão. Tu pode ligar lá em casa? Pedir para ele trazer a maquininha para mim?


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Um comentário sobre “Esquecidas aventuras

  1. Que divertido e agradável! Gosto muito da forma como a Josi utiliza o fluxo de consciência e o olhar que não deixa passar as pequenas ‘grandes’ coisas da rotina. Adorei! ❤

    E, mais uma vez, parabéns à editora Maria Vitória pela publicação respeitosa ao trabalho dos escritores. ❤

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