O LONGO PERCURSO DAQUI ATÉ ESTOCOLMO

Por, Michele Fernandes

Na Academia Real de Ciências da Suécia, ouve o seu nome ser chamado. Percorre o longo corredor sobre um tapete vermelho e sob o calor esfuziante dos aplausos, aquecendo os cinco graus negativos lá de fora. Após ser laureado, um microfone se instala à sua frente. É este o momento de fazer o seu discurso. Tímido, havia preparado uma folha de caderno com o resumo da sua contribuição científica e algumas frases de agradecimento. Enquanto olhava pra sua família orgulhosa, todos com os olhos gotejantes de emoção, começou a proferir um breve, porém emocionado discurso em sueco.

Mas agora, o João ainda não recebia o seu prêmio, nem se encontrava em Estocolmo. Ainda não tinha sequer ideia de qual seria a grande contribuição que daria à Física. Na verdade, ainda não tinha entrado na faculdade. Ele desentupia o vaso que de novo transbordava na Sweet Dance, uma danceteria onde trabalhava na árdua tarefa de manter o banheiro masculino limpo a noite inteira. Socava o desentupidor enquanto a água fétida churriava o chão e os seus pés. A sua mente se encontrava em outro espaço-tempo.

Usaria o mais refinado traje de gala. A Sheila, com certeza, saberia indicar um modelo à altura do evento. A Sheila, na verdade, agora não indicaria mais nada. Tinha expulsado ele de casa e não queria na sua frente nem pintado de ouro. Depois de morar três meses com ela e não conseguir emprego porque nada era bom o suficiente pra ele, acabou sendo intimado a ir embora e se obrigou a pegar o primeiro emprego que apareceu pra que pudesse pagar pelo quarto na pensão da Dona Edwiges. Ao passar o pano no vaso e devolver a cor branca à porcelana, os seus pensamentos eram acelerados oscilando quanticamente entre a Sheila e a Academia Real.

Alguém vem na sua direção. Ele foca os seus olhos e fotografa a imagem dum rapaz de camisa amarela e calça vermelha bem justa. A cor dos olhos é azul. Os cabelos bem pretos ficam um pouco caídos sobre os olhos, dando um ar rebelde.

– Com licença! – disse o rapaz com a voz muito baixa, intencionando usar aquele sanitário.

– Esse aqui tá interditado… Pode usar o do lado, que tá livre.

O rapaz entrou sem agradecer a informação.

O João pôs o bruxo no balde, torceu e esfregou o chão ao redor do vaso sanitário por onde escorria uma água de coloração marrom. Era uma água-não-água. Onde poderia conseguir uns livros pra aprender sueco? Uma língua incomum, pensava.

Três homens entraram no banheiro juntos. Deviam ser amigos. Os três se dirigiram aos mictórios. O João, encerrando o seu procedimento de limpeza ao redor do sanitário recém restabelecido pro uso, observava os três por trás. O mais da esquerda até que era bem apessoado. Os outros dois, com jaquetas de couro, lembravam em muito o estilo roqueiro do seu pai, morto no meio do ano num acidente de moto. Foi por isso que o João não quis mais voltar pra casa. Livre do pai, poderia fazer o que quisesse. Aí veio a Sheila…

Notou que o homem mais à direita olhava pra ele com a testa enrugada. Disfarçou tirando a placa com as palavras “em manutenção” da porta da baia já limpa. Os homens foram embora.

Será que vai ter, um dia, uma família pra poder prestigiar a sua premiação em Estocolmo? Não via a mãe há tempo. Não tinha coragem sequer de ligar pra ela. Não queria contar o que andava fazendo. Melhor deixar pra ligar só depois que tivesse passado no vestibular.

O rapaz da calça vermelha saiu da casinha ao lado e se dirigiu até a pia pra lavar as mãos. O João observava os cabelos sobre os olhos que davam um ar delicado, transviado e misterioso. De repente, o jovem se vira pra ele e faz um movimento com o dedo solicitando a sua aproximação. O João ergueu o corpo até então repousado sobre o carrinho que serve de suporte pro balde e pro bruxo. Tentou arrumar os cabelos passando a mão e puxando pra trás uma mecha ondulada e inquieta. “Merda!”, pensa. As luvas sujas pelo desentupimento do vaso acabavam de infectar o cabelo. Fingindo naturalidade, se aproximou do rapaz. Se esquecendo da Sheila, mantinha a esperança de que seja o convite pra um encontro ou uma troca de telefones.

Quando bem perto, o rapaz abriu um sorriso simpático e falou:

– Acabou o sabonete líquido! – e saiu.

A mente do João dispara na velocidade da luz até Estocolmo. Melhor levar o discurso impresso numa folha de ofício, pois é mais formal e combina melhor com uma cerimônia de entrega do Prêmio Nobel.


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3 comentários sobre “O LONGO PERCURSO DAQUI ATÉ ESTOCOLMO

  1. Que conto gostoso de ler! Me senti na pele dele, tentando alçar voos que parecem impossíveis (mas que são, no final das contas, possível). Parabéns pela escrita fluida, que mistura os desejos com uma rotina. É uma bela forma de vencer o cotidiano.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Michele,

    Nos 3 primeiros parágrafos, eu já estava imaginando a história, cena por cena. Gostei muito! Parabéns! O enredo é muito natural e os sonhos de João não estão distantes dos nossos sonhos, de forma geral.

    Quando o rapaz de olhos o chama para perto – meio que ele sabia o que estava fazendo, safado! (Hehehhe) -, fiquei dizendo imaginariamente: “Cuidado com esses olhos aí, João. É canto da sereia”. Hehehe.

    Bacana demais! Adorei! O/

    Curtido por 3 pessoas

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