Peixes urbanos

A secura entalou na garganta, tornando a polpa dos olhos um arregalo. Por segundos, pensava que a vida findava por seus dedos, escorrendo de encontro ao ralo semiaberto do banheiro.

Pensava nos instantes e desejava retroceder aos lapsos. Recordava de forma sincrônica dos vestígios sebosos jorrados nos lençóis de sua penúltima infidelidade.

Tudo martelava enquanto o ar se esvaia por seus pulmões e a morte lhe tragava os milésimos de vida, tão cruciais e esquálidas, quanto os abraços mornos deixados sobre a pele daquele último corpo que tocara.

O vermelho. Contemplado em seus olhos revestido pelo silêncio do abandono. “morrerei sozinho, como um indigente” – pensou o quase finado homem.

Bom, ao menos, me lembrei de alimentar os peixes. Me lembrei de alimentar os pombos. Droga, esqueci de alimentar os corpos… trancados nos gatilhos turvos de minha memória.

2 comentários sobre “Peixes urbanos

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