Deve haver haveres para que a gente siga existindo de, Laila Oliveira

Era domingo, manhã arrastada pela insólita vontade de seguir na existência. Olhava eu para os tantos e irremediáveis livros, compostos em filas desconexas nas prateleiras cheias de pó. Eles, todos eles, encarando—me como se culpa eu tivesse por me ausentar por tanto tempo de suas páginas—palavras. Olhei pela janela, observei o topo dos telhados, adentrei algumas casas na esperança de saber um pouco mais sobre a vida dos que ali moravam. Nada! Apenas a escuridão e o vazio na mutua harmonia do domingo frio, de pouco sol e nuvens.

Deve haver haveres para que a gente siga existindo, livro de poesias da escritora Laila Oliveira. Livro esse, que traz a poesia lésbica no seio dos sentimentos, realidades, compaixões e principalmente… saudade e abandono.

Teu tesão como alimento.

Teu suor para matar a sede.

Teus gemidos para respirar.

Teu abraço para encaixar.

Teu beijo como matéria-prima.

Tua nudez para enlouquecer.

Teu corpo como alicerce.

Teus dedos para deslizarem.

Teu cabelo como véu dos teus olhos.

Tua pele como ESCUDO do teu coração.

Trecho do poema: SEXO

Como quem devora um café meio amargo na primeira hora do dia, o livro da Laila desceu no meu interior rasgando as entranhas que me revestem. Intercalando entre uma página e outra, a gula pela poesia saltitava de meus poros tornando Deve Haver Haveres Para Que a Gente Siga Existindo, uns dos livros mais rápidos, porém não tão fácil, ao qual eu já me deparei em minha vida.

A cada transmutação, uma nova passagem entre os sentimentos e sentidos, que sentem uma mulher ao amar e se entregar tanto a uma outra, ou uma gama delas. Enterrar—se ao mar e depois emergir dentro das ondas… é assim que a poética desse livro nos apresenta e nos convida para deixarmos nossos corações infincados em areias submersas.

Ainda te lembro dentro de mim. Firme. Atordoada. A temperatura carbonizando peles e eu pensando: mete, mete. Mete bem fundo. Tenta chegar no meu coração.

Trecho do poema: DESÉRTICA

Eu olhava para a mulher ao meu lado na cama, naquele domingo sem graça, frio e entediante. Enquanto olhava, buscava ver naquele corpo a dança que a leitura daqueles poemas de Laila, haviam me proporcionado. Nós, duas mulheres lésbicas a sentir, a cruzar os passos em direção aos amores femininos, a nos deixarmos ser amadas e abandonadas na mesma proporção em que nos apaixonamos, enjoamos e partimos…

(silêncio)

— E você?

— Penso que o amor não é só uma coisa boa, apenas. Envolve várias dores e demandas.

— Sou uma paixão então?

— Não só, mas também. Por isso se torna tão difícil a desconexão.

Trecho do poema: ENTRE ALHOS & CEBOLAS

Ao fim, temerosa pelo término desenfreado, busquei voltar a todas aquelas páginas e encontrar algum detalhe que eu tivesse perdido. Alguma fala, uma estrofe, um título ou mesmo uma vírgula. Temi chegar ao fim do livro porque sabia eu, que teria de começar algo novo a partir daquele término, fosse o novo qual fosse e, como fosse. Olhei pela última vez ao corpo feminino ao meu lado na cama e disse:

— Amor, ouve isso aqui…

“Se os desertos não param de crescer onde iremos mergulhar?” — Laila Oliveira

E então fechei o livro de uma vez, como quem sente amargues ao findar alguma coisa. Tentei olhar novamente para a vida das pessoas dentro das casas, além das cortinas, dos móveis e do silêncio. Nada pude ver, porque a maldita ausência é a força motriz para que a gente siga existindo.

Paulistana de 30 anos. Formada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo cursa o terceiro ano de Pedagogia e atua como educadora.

Fazedora de poemas na máquina de escrever criou o projeto minudências; que resultou no seu primeiro livro artesanal.

Também contribuiu com poemas na quarta publicação “Samba em Primeira Pessoa” da Coleção Sambas Escritos (Pólen Livros, 2018).

Onde comprar o livro:

Padê Editorial

Direto com a autora

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