COISA RUIM

Pela colunista, Mara Vanessa Torres

Janeiro de 1996. Estávamos no começo das férias de verão. Para o nosso grupo, onde o mais novo tinha cinco e o mais velho treze anos, nada poderia ser mais importante do que o recesso escolar. Era tempo de esquecer que o relógio tocaria às cinco da manhã para nos acordar e voltaria a gritar escandalosamente às nove da noite para nos recolher.

Nossos pais, alguns de férias e outros ainda na labuta, faziam da casa da vovó uma colônia de férias. Passávamos os finais de semana lá, amontoados em dois quartos e comendo “bife do olhão” sem qualquer queixume. Era o tempo das quitandas e das balas cobertas de açúcar de confeiteiro. Dos refrigerantes em tempo integral e dos salgadinhos regados a quilos de sal e milho artificial. Das gorduras e frituras e dos campeonatos de video-game.

Também era o tempo de dona Cotinha, viúva de setenta anos, mãe de dez, avó de trinta e dois e bisavó de cinco, que morava em uma casa de portão azul celeste e muro branco próximo da casa de nossa avó. Era um bairro simples, próximo ao rio que atravessa a cidade, formado por gente humilde e operária.

Não havia uma pessoa sequer na vizinhança que não conhecesse dona Cotinha. Ao contrário do que se queira descrever, seu nome era reconhecido pela quantidade de palavrões e impropérios que regurgitava.

“Vagabundo! Entra já em casa, sua peste desgraçada”, era o vocativo para qualquer um dos filhos.

“Miserável! Já disse que não quero esse leite aguado”, reclamava com o moço do leite.

“Maldito seja! Cretino! Patife do caralho”, declamava ao marido quando ainda era vivo.

Os nomes variavam entre peste, desgraça, maldição, vabagundo, puta, rapariga de cu ruim e outros “adjetivos” inomináveis. A boca de dona Cotinha estava sempre disposta a expelir o veneno que passou anos e anos cultivando.

Nós já fomos vítimas de suas palavras cruéis quando pulamos amarelinha ou jogamos bola em sua porta.

“Bando de filhos do cão, saiam da minha calçada”, ela dizia sem dó e nem piedade.

O fato é que dona Cotinha dedicou mais de cinquenta anos de sua vida aos palavrões e palavras negativas. Em 1996, era uma velha rancorosa e sozinha, que quase não era visitada pela legião de descendentes.

Naquele verão, a vizinhança dormia tranquilamente até ser despertada aos berros. Gritos tão altos e lancinantes que pareciam vir das profundezas do inferno.

– SOCORRO! ME ACUDAM! MEU DEUS!

A voz grave e rouca era de dona Cotinha. Rapidamente, as portas e janelas do bairro operário se abriram e nós, crianças amedrontadas e curiosas, colocamos as cabeças do lado de fora, através da grade das janelas.

Dois homens arrombaram a porta e encontraram a velha aos prantos no chão. Descabelada, braços e pernas arranhados e um fedor de carne podre e excrementos vindo do lado de dentro.

Alguém, lembrando que existem ambulâncias e policiais, telefonou. As equipes chegaram e levaram dona Cotinha. Eis a história que nos foi contada tão logo o sol raiou:

Como de costume, dona Cotinha preparou o seu café noturno. Sentando na cadeira de espaguete, percebeu que estava quebrada. Praguejou, como também era de costume. Ao trocar de assento e ligar a televisão, viu sombras espectrais escorregarem da parede.

“Maria das Graças, aqui estamos nós” – repetiam com suas vozes guturais.

A velha gritou e berrou. Sua casa parecia uma caverna mergulhada no mais absoluto breu.

“Quem são vocês? Eu não chamei ninguém aqui”- bradava dona Cotinha.

“Você nos chamou durante toda a sua vida”- repetiam – “Somos a Peste, a Miséria, a Desgraça e a Maldição. Viemos te levar para casa”.

As sombras começaram a ganhar forma de metamorfos e humanoides, todos com expressão disforme, caudas, chifres e garras pontudas.

Dona Cotinha não se aguentou. Caiu de joelhos e implorou aos santos e anjos por piedade. Mas já era tarde. Os fantasmas infernais começaram a arranhar e agarrar a velha Maria das Graças, insistindo que ela deveria ir embora para casa.

Ficamos aterrorizados, mas não totalmente surpresos. Dona Cotinha era uma pessoa de palavras e pensamentos ásperos, agressivos, e gostava de acusar os outros de serem “filhos do coisa ruim”.

“Para vocês verem como a língua paga”, refletia dona Joana, a vizinha de porta de dona Cotinha.

“Agora a velha vai ter que conviver com os demônios que criou”, sentenciou alguém.

O fato é que dona Cotinha nunca mais voltou para a sua casa. Depois do episódio, pediu para morar com qualquer um dos filhos ou netos, que negaram a acolhida. Foi parar em um abrigo, mas saiu de lá em pouco tempo direto para uma instituição mental.

Já se passaram vinte e três anos desde que esses acontecimentos abalaram o bairro pobre e pacato de nossa cidade. Até hoje, anos depois da morte de dona Cotinha, a casa continua lá, em ruínas. Os herdeiros tentaram vender, mas não conseguiram. E todos os que conhecem a história, fazem o sinal da cruz ou mudam de calçada para evitar a “Casa da Coisa Ruim”, como ficou conhecida e até hoje é chamada.

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