Rotas de fuga de, Nina Spim

Pela resenhista, Michele Machado

Às vezes, precisamos fugir daquilo que nos ameaça. Mas e se o que nos tortura estiver dentro de nós mesmos, como escapar?

Hollin é um rapaz de dezenove anos que luta para superar a ansiedade e a depressão. Retorna da Europa para o Brasil, deixando para trás a família materna que reside na Espanha para se estabelecer com o pai, de quem sente grande distanciamento, a madrasta e a meia-irmã, além da prima que retornou ao Brasil com ele.

Depois de uma experiência intensa na Inglaterra com uma garota que simplesmente sumiu de sua vida, Hollin mergulhou num abismo de pensamentos destrutivos e, fechado em si mesmo, precisa aprender a lidar com si próprio e com os outros, buscando o equilíbrio.

A trama apresenta um grande número de personagens, cada um com uma história de vida, com os seus dramas e com as suas superações ou tentativas de sobrevivência. Assim, durante a narrativa, feita em primeira pessoa, mergulhamos a fundo nos pensamentos do protagonista, que irá tentar compreender melhor a si mesmo ao observar as tensões daqueles que estão no seu entorno. Um exemplo é a vizinha idosa com Alzheimer nos últimos instantes da sua vida, que fica deitada na cama dependente de uma cuidadora, ouvindo eternamente Edith Piaf, e as misteriosas cartas destinadas a ela que não param de chegar de diferentes lugares do mundo. Ou a colega de faculdade Eleanor que também passou por uma perda amorosa, e Hollin acaba encontrando nela muitos pontos em comum.

O questionamento da morte e a tentativa desesperada de se segurar na vida sem bem compreender o porquê são assuntos debatidos de forma muito profunda. Durante toda a leitura, percebemo-nos arrebatados pelos pensamentos de Hollin e somos guiados pela bela, introspectiva e reflexiva linguagem da autora, que em certos momentos ganha um ar de prosa poética. Também se destaca a presença de gêneros textuais amarrados à narrativa como mensagens de celular, e-mails, roteiro, lista de tarefas e trechos de letras de música, dando um toque atual e presente que amplia a identificação entre leitor e obra. Tudo isso se entremeia com o fluxo de pensamento do narrador e acabamos nos deliciando com suas frases de impacto tão bem elaboradas que nos fazem refletir por horas, ainda que tudo se estabeleça entre fatos do cotidiano. O tempo é psicológico e vai e vem em diferentes lugares e momentos conforme a mente de Hollin vai nos transportando através de suas lembranças, visões dos fatos e tentativa de interpretação dos sentimentos seus e dos outros.

A linda abordagem suaviza um dos transtornos que, apesar de atingir a tantas pessoas, é um dos mais difíceis de ser superado, de modo a trazer ao leitor uma profunda empatia com essa problemática. No entanto, é impossível ler e não sofrer as emoções junto com o protagonista.

Conhecer, sentir, viver a vida do outro,… se é essa a finalidade da literatura, esta obra cumpre muito bem o seu papel. E, assim, levar para nossa própria vida – sem fugas – aquilo que pudemos aprender com esse jovem personagem de tão profunda visão sobre a vida.

Onde comprar o livro:

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Nina Spim é escritora e jornalista. Autora do romance “Rotas de fuga” e dos contos “Invisível”, Caleidoscópio”, “Imersão” e “Sutilmente”, publicados na Amazon. Tem contos e poemas publicados em antologias físicas. É colaboradora da Revista Pólen e é dona do blog: www.ninaeuma.blogspot.com


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