O PERFUME DO PERCEVEJO

Por, Mara Vanessa Torres

Dora tira o cigarro do bolso do avental e coloca na boca. Procura a caixa de fósforos azuis na gaveta da cozinha, mas só esbarra em facas que precisam ser amoladas e outras tralhas de uso doméstico.

“Cadê essa merda?” – pensa entediada, triturando o papel do fumo com os dentes.

Vasculha pela casa inteira até encontrar a caixinha perdida ao lado do vaso sanitário. Obra do marido, certamente.

“Esse desgramado vai cagar e fica gastando os fósforos acendendo na boca da privada. Eu mereço”.

No quarto número dois da casa, gritos de uma voz que ainda não encontrou o timbre definitivo ecoam:

– Mããããe! Traz a minha toalha!

Vinte e três anos e o marmanjo não sabe ir até a área de serviço, puxar o varal de teto e pegar a tolha. Criada achando que essa era a sua obrigação, Dora atende ao pedido-ordem do filho.

Em seguida, vai para a janelinha do banheiro localizado no quarto minúsculo que serve como almoxarifado, acende o cigarro e vê a fumaça se perder no horizonte. Uma imensa e calorosa paz a invade, seguida de três ou quatro tosses secas.

Mas o brilho dura pouco. O marido aparece na cozinha e, aos berros, lança a pergunta de todos os dias:

– Dora! Ô, Dora! Os meus ovos fritos já estão prontos? O café tá passado? Dora?! Doooooooooora?!

Dora fecha os olhos. Lembra dos últimos anos da escola, das festinhas e dos rapazes bonitos de cabelos entupidos de gel e jaquetas de couro. Relembra as músicas, o coquetel com pouca dose de álcool e o vinho barato. Todos sorriam, grudentos e felizes. Tudo brilhava como o globo da discoteca. Tão pouco tempo de maravilha para terminar nisso…

Joga o cigarro no chão e nocauteia a guimba com o chinelo. Volta para a cozinha, serve os dois abrutalhados da casa, recebe um beijo seco do marido – que nem sequer a fita nos olhos – e um “tchau, mãe” do filho único.

Ambos saem. Dora fica.

Liga o rádio e a televisão ao mesmo tempo. Pouca importa quem fala o que. Ela quer apenas sentir a casa cheia. Na janela basculante da cozinha, vê quando o visitante chega. Lá está ele, patas arteiras e escudo marrom.

Infalível e persistente, o percevejo aparece todos os dias, sempre no mesmo horário. Chega de fininho, acompanhando os passos de Dora pela casa. Cozinha, sala, quarto, banheiro. Ele está presente nos cantos mais improváveis.

Nas primeiras vezes, seguindo as regras de toda boa dona de casa, Dora tentou afugentá-lo. Obviamente, não logrou o menor êxito. O inseto voltava todos os dias, cara lavada e coração valente.

Aos poucos, Dora foi se acostumando com aquela presença. Ela conversava com ele, confidenciava-lhe suas alegrias e dores, dividia os problemas, pedia conselhos. Passou a chamá-lo de Jorginho, uma homenagem ao ex-namoradinho da escola, o menino mais disputado do colégio.

Nem mesmo o odor característico emanado pelo percevejo parecia incomodar Dora. Pelo contrário. Ela ansiava por senti-lo. Era o perfume das horas certas.

Certo dia, pai e filho chegaram em casa e encontraram o lugar vazio. Nem sinal de Dora. Procuraram por todos os cantos, efetuaram todas as ligações possíveis, visitaram cada parente, amigo e vizinho. Nada. Dora havia desaparecido.

Na janela basculante, dois percevejos espalhavam o último perfume pela casa despovoada antes de abrirem as asas e, juntos, voarem para nunca mais voltar.

6 comentários sobre “O PERFUME DO PERCEVEJO

  1. Somos todas percevejos, ansiando sair dos padrões sociais, não é mesmo? Pelo menos nós as que nos sentimos incomodadas com as relações fracas e injustas impostas pelo patriarcado.
    Ótimo texto, Mara!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Me pus a pensar: quantas Doras querendo sair voando por aí?
    Parabéns à autora por dar asas a esta mulher presa a padrões sociais misóginos.

    Curtido por 2 pessoas

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