Entrevista com o escritor, Paulo Abe

Paulo Abe possui três livros publicados, sendo Sexo Sagrado finalista da Primeira Maratona Literária do Selo Carreira Literária da Editora Oito e Meio. O conto O Nome de Deus vencedor do 3º prêmio SFX de Literatura e o mais atual, Um corpo divisível, uma autoficção vencedora do Programa Nascente, da Usp.

Um corpo divisível é um conjunto de contos que representa a metáfora do tema problematizado por Paulo Abe em cada uma das narrativas, contadas ao contrário, no revés de um nascimento em que se descobre gêmeo de outro. Do locus inicial, a morte, até a chegada ao ponto de reencontro consigo e com o seu outro: o útero.

Sinopse

No sonho, eu tinha noventa anos e meu irmão, setenta. Tal fato não fazia sentido e, no universo onírico, só poderia ser explicado pelo fato de que eu havia vivido e minha metade, o outro rosto de minha existência, havia morrido. Era como se olhar no espelho e não haver um reflexo. O leitor talvez com dificuldade entenda minha situação. Eu não nasci como os outros, nunca tive a oportunidade de ser apenas eu, pois em qualquer superfície reflexiva, meu irmão também a preenchia.(…) Mas, ali, ainda que morto, vivia. Meu irmão gêmeo.

(…) Desde o útero, minúsculo, tal grão de vida ainda não tinha nome, sua existência era ignorada por toda a população do mundo, sem falar em toda a vida animal. No fim, todos nascemos numa completa solidão. Estamos aí e ninguém tem consciência. Nascemos principalmente como fantasmas; primeiramente como aparições. (…) onde estávamos, porém, logo naquele único “aqui” que conhecíamos, descobrimos o “eu” e o “tu”.

Hoje, Paulo nos concede uma entrevista ao qual expõe sua relação entre ficção e realidade, perpassando por inspirações filosóficas e as diversas interpretações literárias contidas em sua vida cotidiana. Confiram:

Como a literatura entrou na sua vida?

Meu primeiro contato com ela foi com uma necessidade de leitura. Como tive pouquíssimos livros na minha infância, em dado momento pensei que pudesse criar minhas próprias histórias em vez de esperar por elas em bibliotecas públicas ou de minha própria família. De modo que, claro, tudo começou de forma muito simples. Escrevi muita poesia e também muita coisa ruim até dizer que a literatura com L maiúsculo entrou na minha vida. Mas a leitura por mundos e por formas de contar histórias desde cedo me chamaram a atenção. Afinal, a literatura, apesar de externa, é ainda sobre o interior. Então, ainda que sem um livro, uma história pode ser escrita, do mesmo modo que um fotógrafo pode fazer sua arte sem uma câmera.

Levando em conta a falta de hábito de leitura da maioria dos brasileiros, como você descreveria o que é ser escritor em nosso país?

Ser escritor é algo difícil no Brasil. Entendo que, como leitores, estamos sempre consumindo o exterior, como marca de algo bom, quando aqui dentro nossa qualidade supera em muito – de modo geral – o que chega nas livrarias no setor de literatura estrangeira. Conta o fato também da pouca leitura em nosso país. Há vários fatores para isso, mas a principal, a meu ver, é a falta dessa construção em nossa própria educação. Não se diz “hábito de leitura” por acaso. É preciso que seja construído dia após dia. Com certeza nossa sociedade apressada e o tempo que gastamos para nos locomover em nossas cidades enormes também são um fator. E poderíamos enumerá-las em um livro, como isso “influencia” muitos autores a uma forma estrangeira ou como editoras acabam aceitando livros que não sejam tão inovadores. Mas, por outro lado, alguns prêmios tentam dar valor a esses riscos e, em alguma medida, “remunerar” esse escritor por seu trabalho e esforço. Contudo, é uma remada contra um tsunami, um sistema que apenas paulatinamente pode ser transformado e mudar um pouco de curso.

Em “Um corpo divisível”, o personagem-narrador Paulo sugere traços autobiográficos a sua obra. Até que ponto estes contos cruzam com a vida real de Paulo Abe?

É difícil precisar um ponto, mas estão ali como ponto de partida das histórias e, por vezes, como elementos do fantástico e do impossível. Mas o gênero ganha força precisamente porque não há uma fronteira discernível entre realidade e ficção, pois, no fundo, a ficção pode falar muito mais realidade que o mundo fora dela. E o escritor como personagem ou como narrador é apenas mais um elemento na história, um véu, uma máscara que pode guiar ou ludibriar o leitor para uma narrativa que se esconde nas sombras das palavras.

Do ponto de vista da criação literária, no que a autoficção agrega a sua obra?

Penso que seja uma via de duas mãos. A possibilidade de escrever uma autoficção abriu as portas para eu expandir o gênero de alguma forma, pois, apesar de ser “auto”, não necessariamente precisaria de um Paulo como protagonista, como se mostra os casos que conheço. Foi possível esticar sua fronteira até as relações que formam esse “auto”, uma vez que ele não poderia existir sem a existência de um “alter”, um outro. Somos construídos dessa forma e, por muitas vezes, são nossas relações que nos fazem entender que um desenvolvimento isolado é impossível. Estamos conectados por uma extensa teia que reverbera nos próximos e naqueles mais próximos ainda. E nada mais próximo, neste caso, que seu duplo, seu irmão gêmeo. Tratando desta temática, foi plausível trocar de corpos e, em última instância, como o título indica, dividi-los.

Que influências você diria que a filosofia trouxe a sua escrita?

Creio que trouxe mais força às alusões, às metáforas, mas talvez principalmente ao poder de construir um argumento para meus personagens, sua razão de ser em certo mundo e em certo tempo. Claro que outras áreas ou mesmo a própria literatura sozinha poderia fazer isso. Mas a filosofia trouxe seus próprios personagens com seus argumentos à mesa, ainda que não nomeados por vezes. Um outro tipo de discussão, sobre a individualidade, a alteridade, a ciência, a religião etc. Ou ao menos, ela me guiou a essas temáticas, comum também a outros escritores por outras rotas literárias.

Percebemos em “Um corpo divisível” muitas alusões a termos científicos bastante abordados atualmente como realidades paralelas e big bang, entre outros. De que forma a sua escrita interage com a ciência?

A ciência faz parte do pensamento filosófico e vice-versa. Ambos são indistinguíveis. Mas essa ciência da qual trato é apenas um espelho para o interior do indivíduo. Como também digo em um dos contos e está escrito nas tábuas de esmeralda de Hermes Trimegistro, “o que está em cima é como o que está embaixo”. Ou seja, ao menos aqui, esse paralelo do macro e do micro é distinguido concomitantemente ao do eu e do outro.

Existe algum conto desse livro pelo qual você possui alguma preferência ou que mereça destaque? Por quê?

A meu ver é um trabalho conjunto em que todos se complementam e dão uma direção à narrativa. Mas penso que “Labirinto” mereça tal destaque, pois se passa num lugar impossível de alguma forma, apenas dentro do útero. É um conto onde apenas o esforço imaginativo e especulativo são usados como espelho do interior humano, ou ainda, das relações humanas e, de alguma maneira também, como somos jogados nesse mundo violentamente. Mas vale a pena ressaltar o fim do conto. Pensando na tradição da estrutura do conto, “Labirinto” só consegue seu final ou sua virada final, pois o leitor perpassou diversas vidas, angústias e violências através das páginas. Tudo só pôde ter seu momento de satisfação ou liberação libidinal, porque houve um acúmulo anterior, uma castração perpétua no espírito de tantas personagens. E, ainda assim, sua virada não é tanto uma virada, mas é o alcance de algo que se demora dez contos a se concluir. Em suma, ele vai “contra” essa tradição, pois não vira toda a história, mas, por fim, consegue pronunciar a palavra e responder a pergunta que desde o título na capa se engasgava na garganta: que corpo é esse?

O conceito de conto sempre foi algo discutível e, em seu livro, você trabalha de forma inovadora com este gênero, ligando todos por um fio condutor. Para você qual é o conceito de conto?

Imagino que cada escritor, à sua maneira, procure criar sua forma de conto. O autor Amos Oz faz algo que “Um corpo divisível” se aproxima em “Entre Amigos” ao dar continuidade aos contos em histórias tanto individuais quanto partes de uma outra maior. Mas, ainda assim, com muitas coisas distintas. Em meu livro, sendo o primeiro de contos até então, tentei fazer algo que ainda tivesse um pé no romance. Apesar de cada conto ter seu desfecho, o final do livro é também um fechamento para o resto. Esse é um tipo de macroestrutura do conto que só pode ser feito se observado numa perspectiva do conto como livro – e não somente como uma história singular. Então, “Um corpo divisível” flutua, em certo sentido, entre gêneros.

Você também é autor de romances. Na sua opinião, no que difere a escrita de um romance em relação à de um conto?

Eu diria que tudo. São fôlegos diferentes, descrições distintas, e uma técnica de manter o leitor interessado completamente diferente. A forma exige um outro tipo de leitor e vice-versa.

Como você traduziria a experiência de ganhar um prêmio literário como o Prêmio Nascente da USP?

Foi uma grande conquista. Tenho muito a agradecer aos jurados, aos voluntários da seleção e à organização do Nascente, assim como à própria USP. É um prêmio que tem dado grande relevância a autores que conseguiram ser publicados e até ter outros prêmios depois. A USP vem há anos valorizando seus artistas apesar das dificuldades administrativas e financeiras. Neste sentido, o ambiente acadêmico fomenta bastante o processo criativo em suas várias formas e o espaço da Universidade oferece essa oportunidade como um local para produção de conhecimento, mas também político e artístico para tanto. Já havia ganhado o prêmio SFX, mas esse foi o primeiro em dinheiro. E isso é importante para o autor brasileiro, que tem a escrita como apenas algo custoso. Mas por raras vezes tem uma oportunidade de lucrar ou ao menos ter algo restituído de seu empenho de meses na escrita.


Paulo Abe

PAULO ABE (1987) nasceu e reside em São Paulo. É bacharel e mestre em Filosofia pela USP. Já publicou três romances, sendo “Sexo Sagrado” finalista da Primeira Maratona Literária do Selo Carreira Literária da Editora Oito e Meio. O conto “O Nome de Deus” foi vencedor do 3º prêmio SFX de Literatura. Em 2018, foi vencedor do Programa Nascente, da USP, na categoria texto, com sua autoficção “Um corpo divisível”. Na Penalux, estreia com seu primeiro livro de contos.


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Um comentário sobre “Entrevista com o escritor, Paulo Abe

  1. Que legal essa interação com o escritor! Depois de ter lido o seu livro, poder ler essa entrevista me faz sentir “conversar” com ele.

    Curtido por 1 pessoa

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