O ESPAÇO DA PRODUÇÃO FEMININA DE CORDEL NA XIII BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO CEARÁ

Por, Julie Oliveira

Para falar de cordel, é sempre importante pontuarmos um pouco sobre a sua história, suas origens, (isso talvez seja também uma das minhas manias de pedagoga), além do mais, há muitos mitos e falácias sobre esta literatura, e toda oportunidade é válida para desmistificarmos algumas questões. Bem, as origens da literatura de cordel, como se concebe hoje no Nordeste brasileiro, estão vinculadas ao romance tradicional ibérico, remontando ainda às fortes influências medievais da cultura popular de outros países europeus (França, Alemanha, Holanda e Inglaterra). Segundo Manoel Diégues Júnior (1986), “os inícios da literatura de cordel estão ligados à divulgação de histórias tradicionais, narrativas de velhas épocas, que a memória popular foi conservando e transmitindo: são os chamados romances ou novelas de cavalarias, de amor, de narrativas, de guerras, ou viagens ou conquistas marítimas”.

Num ambiente de maridos guerreiros, de mulheres enclausuradas com cintos de castidade, de donzelas tentadas a se perderem, beatos e beatas, e de forte aparato inquisitor, foi que a literatura de cordel despontou como meio de comunicação, entretenimento e de formação educativa das camadas populares. E por falar, em “donzelas”, e em vários conceitos machistas da literatura (em todos os gêneros), é importante frisar que na literatura de cordel, o cenário nunca foi diferente. A mulher, talvez seja o tema mais abordado no cordel, aparecendo, ora ingênua, ora astuta e impura. Às vezes, mãe perfeita e esposa fiel; noutras, solteirona despeitada. Às vezes fogosa e sensível; noutras, assexuada e interesseira. Apesar de todo o cenário brevemente apresentado, o cordel nos dias atuais, tem uma forte presença feminina para além das temáticas, mas em sua composição, isto é, há muitas mulheres como escritoras desta literatura. A mulher cordelista não é algo tão recente como se pensa, haja vista registros datados de 1938, data que possivelmente publicou a primeira mulher cordelista, chamada Maria das Neves Batista Pimentel, que inclusive, dadas às questões da época publicou sob o pseudônimo de Altino Alagoano. A paraibana e cordelista, Maria das Neves teve seu amor pela literatura de cordel herdado de seu pai, que foi poeta e editor de uma livraria e uma tipografia. A época patriarcal era ainda menos favorável às mulheres, que enfrentavam preconceitos de gênero de modo ainda mais voraz, portanto, somente nos anos 1970 foi possível a publicação de folhetos de cordelistas mulheres.

Foto por: Saullo Alves

Diante deste breve histórico e cenário, muito me orgulha dizer-me parte de uma Rede grandiosa de mulheres que luta por espaços e cria oportunidades para tantas outras. No momento, estou coordenadora no Brasil da Rede Mnemosine de Mulheres Cordelistas, Cantadoras e Repentistas, que surgiu a partir de estudos e ações realizadas pela cordelista cearense Josy Maria, na fundação de sua Cia. de Artes (Cia. Catirina e núcleo literário Ateliê da Palavra) em 2002, motivada por pesquisas de tradição popular brasileira e latino-americanas, desenvolvendo atualmente atividades também em Lisboa, França e outros países da Europa.

Minhas ações são para além de um ativismo de internet, o que considero extremamente importante, no entanto, sem valia se fica somente no campo virtual. Participo profissionalmente com autora há 10 anos de Bienais no Ceará e no Brasil, e considero a última edição, no caso a XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, como um case de sucesso, um momento marcante para as mulheres escritoras de maneira geral, não apenas no cordel. Nesta edição, muitas pautas de grande importância foram abordadas na programação oficial, e com o devido destaque, a começar pela presença de renomadas escritoras/ativistas como Conceição Evaristo, Maria da Penha e Monja Coen. Além disso, no tocante a famosa Praça do Cordel, que é um dos espaços mais visitados desde sua concepção há mais de 20 anos, as mulheres tiveram um espaço nunca visto, além de uma programação intensa de recitais e lançamentos, eventos dos quais tive a oportunidade de pautar e sugerir a convite do coordenador do espaço Klévisson Viana.

Foto por: Saullo Alves

A Bienal foi uma rica oportunidade de mostrarmos a que viemos, de mais que expormos nossas obras, demarcarmos nosso lugar de direito na literatura de cordel, e em diversos outros campos. No espaço de exposição, além de livros de mulheres cordelistas, procurei agregar outras literaturas, focando numa diversidade de gêneros, convidando assim a compor o espaço as talentosas Josi Siqueira e Vanessa Passos, duas escritoras pelas quais eu já nutria admiração, e durante o evento tivemos a oportunidade de firmamos nossa primeira parceria, que adianto, é apenas a primeira de muitas que virão.

Em termos de networking, vendas e interações de maneira geral, foi um grande sucesso, não é à toa que esta edição do evento superou todas as outras, tendo recebido mais de 450 mil visitantes! Meu desejo é que as mulheres, independentemente do gênero que escrevam, possam unir-se verdadeiramente, pois, somente assim podemos ir mais longe e ocuparmos todos os espaços que desejarmos. Como diria a magistral Simone Beauvoir “Não se pode escrever nada com indiferença”, e que nossa caneta seja a arma contra toda e qualquer tipo de opressão que nos circunde, afinal, só há um modo para vencê-las: caminhando todxs de mãos dadas! Avante, mulheres!

Foto por: Saullo Alves

JULIE OLIVEIRA é poeta cordelista, escritora e produtora cultural. Autora de diversos livros infantis e juvenis, possui obras editadas por editoras cearenses e nacionais. Premiada, a autora teve sua obra Branca de Neve em Cordel (IMEPH) distribuída por todos os munícipios cearenses através do PAIC (Programa de Alfabetização na Idade Certa). Já em 2010, sua obra “A Cigarra e a Formiga – Nova Fábula em Cordel” foi classificada no Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel – Edição Patativa do Assaré (MINC), o que lhe permitiu destaque nacional ao lado de grandes nomes da área.

Graduada em Pedagogia e pós-graduanda em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), a autora traz em seu portfólio variadas experiências no campo educacional e editorial. Atualmente, desenvolve consultorias pedagógicas e editoriais (para editoras e autores), através de sua produtora, a Ganesha Produções, ações pelas quais dissemina sua paixão pela leitura e pelo educar.

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