Alda Santos

Quando não estou em mim, de Alda Santos

A semana havia sido agitada, meu cérebro trazia uma sobrecarga psíquica enorme, o corpo doía como se tivesse sido castigado, eu andava descrente de tudo, a única coisa que eu tinha certeza era de que havia uma pilha de poemas novos para ler…

Cada poema de, Alda Santos é como uma espécie de viagem que fazemos para dentro de nós e desejamos nunca mais voltar para a superfície da realidade. A autora consegue proporcionar através de poemas e prosas poéticas, um contato diferente com o universo.

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Vipassana, de Mara Romaro

Vipassana, de Mara Romaro

Era tarde, porém ainda era dia. Sol a pino, ruas a fervilhar em mares de corpos frescos e sedentos. Peguei o elevador, subi até o décimo primeiro andar, sentei-me em frente à piscina, retirei os sapatos dos pés, os molhei de forma rápida, retirei Vipassana da mochila, olhei novamente para os arredores de mim, deite-me com as costas coladas ao chão, olhei para o sol, me entreguei à leitura.

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Carta para meu autor favorito

Buk,

Minha cueca está rasgada na bunda e o tecido da cadeira de plástico faz suar o buraco mais escuro. Há dias venho acordando cedo pra caralho para produzir coisas, editar coisas e falar com pessoas que não conheço. Todo santo dia eu vejo Carolina se vestir de forma apressada entre 6:50 e 7:10 da manhã, enquanto eu tenho os raios de sol inundando minha janela que nunca é fechada durante a madrugada. É sempre o mesmo ritual de calejar os dedos martelando em teclas pequenas, encarar a página em branco, olhar pela janela, obsevar o topo das casas e dos prédios, ouvir os motores arrancando de lá pra cá e beber dúzias de cervejas pretas vencidas.

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Qual é a sua maior dificuldade como escritor?

Essa semana eu fiz essa mesma pergunta num grupo só de escritores no Facebook e coincidentemente as respostas foram as mesmas:

  1. Bloqueio Criativo
  2. Publicar um Livro
  3. Divulgar seu trabalho
  4. Encontrar um leitor Beta

Vocês também sentem as mesmas dificuldades sendo escritores?

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O que te impulsiona a escrever?

O que te impulsiona a escrever?

Como você se sente sendo escritor?

O que te faz transbordar em palavras aquilo que você não tem coragem de dizer olhando nos olhos de outra pessoa? O que te move a esse processo de criação que impulsiona toda a sua força e te faz empregar em seus textos toda a potência que ninguém mais consegue?

Escrever é mais que um passa tempo, profissão, brincadeira ou obrigação… Escrever é transbordar pela vida e conhecer a nós mesmos o tempo todo. É lutar com nossos próprios demônios diariamente e nos questionar o tempo todo se estamos no caminho certo.

Mas afinal, qual é o caminho certo a se seguir?

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Trocas com, Renata Leão

O que eu aprendi na vida noturna de São Paulo, Maria Vitoria

Eu aprendi a beber. A sofrer por amor. A usar drogas. A ficar com medo da polícia. A chorar. A dormir nas calçadas. A voltar pra casa. A escrever crônica. A comer. A beijar garotos. A beijar garotas. A frequentar baile funk. A ficar perdida na estrada. A ver prostituição. A ver travestis fazendo programa. A ver homens fazendo programa. A ver crianças fazendo programa. Continuar lendo “Trocas com, Renata Leão”

Peça

A vida é uma peça de teatro muito bem montada. Daquelas que se você errar algo, perde um ou dois espectadores. Se confrontá-los será julgada(o) da forma mais ignorante possível. O script é feito pelas mãos de uma sociedade doente, que te observa desde criança, antes mesmo de você dizer uma palavra. Não os deixe ver que está com medo, usam isso contra você, isso e todas as outras vulnerabilidades que te faz ser humano. Quando as cortinas se fecham não terá mais nada, apesar de alguns permanecerem ao seu lado não poderá contar com eles de verdade. Nos dão a opção de lidar com um teatro cheio. Cheio de gente que não se importa, estão ali fazendo mais um papel, fingindo que se importam, sendo que quando todos forem, elas irão também. A gente tem sempre medo de pular uma fala ou rasgar aquele papel estúpido e sentar pra escrever outro. Então suporte esse peso nas suas costas e essa dor feita pela pressão em sua garganta. Só pare. Olha ao redor, todos seguindo pelo mesmo caminho da mesma maneira, cada um exercendo o seu personagem. Sabendo suas falas, seus gestos, seus movimentos, a quem recorrer, com quem falar, em quem se aproximar. Continuar lendo “Peça”

Tela em branco

Era uma tela em branco, refletindo tudo o que andava sentindo. Tomou um gole do café, acendeu o cigarro. Era de madrugada, a rua ainda fazia barulho. A cidade nunca dormiu de verdade. Mergulhou o pincel na tinta vermelha e passou pela tela, depois na azul, na preta, na branca. Estava a semanas sem produzir nada, os papéis andavam jogados pelos cantos do apartamento, assim como as telas que se empoeiravam. Nada saía.Nem arranhando pela garganta, muito menos pelas pontas dos dedos das mãos. Era só uma mistura de cores aleatórias, completamente sem sentido, revirando sua cabeça. Encarou o líquido preto no copo e o viu fazer parte do caos naquela tela, escorrendo por entre as cores.Tinha que respirar, tomar um banho, sair de casa, comer alguma coisa, ver gente, sentir o mar. Aquelas coisas que lhe fariam bem. Mas não queria, nem tinha vontade. Se sentia nada, estar ou não estar, não faz diferença, não faz falta, como se nunca tivesse vivido de verdade. Existiu em alguma época e sumiu com o tempo que se foi, mas permaneceu entranhado. Passou a vida tendo suas sensibilidades apunhaladas, família, escola, rodas de amigos, sendo observada. O vazio dos corredores do prédio nessas horas, tirava um peso das suas costas. Não tinha muito com o que se preocupar. Não haviam olhos para lhe ver. Encostou a tela no poste, percebendo pela calçada que molhava a sola dos seus pés descalços, que não havia visto a chuva passar. Olhou para aquela avenida, ouvindo vozes ao longe. Eram risadas. Fazia três dias que não saía de casa, a madrugada andava  tirando seu sono, mas lhe dava outro mundo para observar, melhor do que aquele que a levava a se esconder. Era reconfortante. Continuar lendo “Tela em branco”

A cidade e as não-cores

Era quase chuva. Os corpos transitavam feito baratas desviando do sorriso e das mãos estendidas dos homens com a face coberta de cores vivas. O céu enegrecia. Homens e mulheres fugindo para suas rotas solitárias em cavernas de pelúcia. Lá estavam os livros que não foram entregues para serem acolhidos por olhos emergentes. O vapor do clima transbordou os bueiros. Os palhaços sorriam e continuaram … Continuar lendo A cidade e as não-cores