Carta para alguém desconhecido

Carta para alguém desconhecido

Caro, estranho

 

Enfrento a página em branco enquanto coço meu coro cabeludo. Trago meu coro descamado e sensível, talvez por muita água quente de chuveiro ou talvez pelas muitas noites em claro sem dormir. De certa forma me sinto cansada, sinto meu corpo pender para um abismo frio e solitário, por mais que isso seja deprimente e triste, ainda é uma beleza extremamente poética diante dessa margem entre uma queda livre e o fincar dos pés em solo seguro. Por vezes, me sinto como um pássaro preso em meu próprio ninho, construído pelo amor que cerca minha existência ao mesmo tempo em que olho incessantemente por uma janela invisível que me convida a voar para o encontro de minha inalcançável liberdade. Continuar lendo “Carta para alguém desconhecido”

Carta para meu personagem favorito

Velho, Henry!

Ultimamente tenho bebido demais a ponto de sentir meu fígado desplugando por minhas pregas, não sei o que pode ser, talvez seja o cansaço pelo percurso do tempo ou talvez seja a boa e velha solidão.

Por aqui, tudo vai muito ensolarado e as pessoas costumam a suar mais e consequentemente os corpos cospem uma espécie muito rara de sal. Agora, três vezes na semana eu tenho que vestir calças que me apertam e subir uma ladeira cansativa só para estar “mais apresentável” perante um monte de homens e mulheres que possuem seus cérebros cozidos pelas mazelas da vida. Continuar lendo “Carta para meu personagem favorito”

Carta que nunca será enviada

São Paulo, 30 de setembro de 2018.

M.

Os louvores católicos estão à todo vapor na garganta de pessoas, crentes que serão salvas por Deus. Aparentemente, tudo indica que o sol não se fará presente no dia de hoje. Estou com minhas mãos ressecadas e enferrujadas de tanto esfregar panelas com palha de aço no primeiro período da manhã. Tenho que amarrar meu estômago num nó apertado para tapear a fome, porém, estou tão desesperada para mastigar um destilado que estou a triturar os dedos na espera que minhas vertigens se acabem.  Continuar lendo “Carta que nunca será enviada”

Nicole

Querida, Nicole!

Teus seios sambam fartos em frente aos meus olhos feridos e eu penso no quanto minhas mãos ressecadas seriam espinhos mediante teu corpo de pele fina.  Continuar lendo “Nicole”

Garota Bukowskiana

Querida amada, observo as chamas em capas pretas com tipografias douradas enquanto uma pequena parcela do sol cobre as sombras de minhas mãos negras após cinco minutos de chuva. Parece que há outra de mim dentro de mim mesma, pois o grande peso da barriga soma a falta de fôlego e a dormência de minhas pálpebras. Sinto que preciso me subtrair, mas nunca existe divisão o bastante para que o mundo me impeça. Continuar lendo “Garota Bukowskiana”

Cartas para, Carolina.

Amor, deixo a testa em rugas e os olhos sedentos, mas não é raiva o que sinto, só por hoje, porém, não tão pouco o bastante, não é raiva o que me inflama.
Soletro meu próprio fôlego com versos decassílabos na esperança de trazer novamente um pouco de tom coral à vida. Continuar lendo “Cartas para, Carolina.”

Sinto falta de mim, em mim

Olá amada,

Útero berra. Chuva despenca. Livros empilhados ao chão. Prateleiras vazias. Fim de mês.

Mudar é uma arte. Mudei… Continuar lendo “Sinto falta de mim, em mim”

Estou sozinha de olhos abertos para a escuridão

Olá, amada!

Já notou como as paredes são frias?

Por dias inteiros tudo corria bem, eu conseguira produzir uns bons capítulos de meu novo romance, e não, dessa vez eu não escrevi um livro inteiro sobre você. Poderia? Sim, poderia. Mas… Desta vez não fui capaz de escrever sobre as flores que você me dava ou sobre a brancura de sua pele macia, pois, especificamente nessas últimas duas semanas a luz não brotou através da janela e tudo o que eu pude acompanhar de perto, trancafiada nessa casa solitária foi a escuridão, uma grande massa de ar frio alojada em meus pulmões e uma negritude louca para abocanhar meus medos. Continuar lendo “Estou sozinha de olhos abertos para a escuridão”

As horas estão escritas num futuro impossível

Querida, amada minha.

 

Repouso meu corpo embaixo de uma goiabeira em seu estágio inicial contemplando os pequenos frutos em formação e as folhas esverdeadas que se alastram pelos galhos e se deitam pelo chão. Penso nas horas que voam breves, escritas num futuro impossível… Levo uma fruta a boca, brinco de adivinhar quais são os animais nas nuvens, ouço os pássaros dialogarem entre em si em sua própria língua nativa, respiro fundo… Expiro… Deixo então as memórias fluírem juntamente com o oxigênio que se esvai boca a fora. Continuar lendo “As horas estão escritas num futuro impossível”

Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada

Cara, amada minha.

 

O fogo invisível queima o restante do que ainda me sobra. Desenlaço as outras cartas por correspondência e as jogo em cima de minha bagunça descontrolada, casando as cartas com os papéis rascunhados, livros e meia garrafa de Domecq.

Por aqui quase beiramos a primavera, porém o sol arde como a brasa do inferno. Não há lenços o suficiente para sugar o suor do buço, nem cuecas que não transpirem mais do que maratonistas em dia de São Silvestre. Tudo aqui caminha de uma forma meio réptil… Os dias rastejam como cobras traiçoeiras e picam tão duido como os escorpiões da África. Uma grande selva árida generalizada, entende? Continuar lendo “Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada”