O LONGO PERCURSO DAQUI ATÉ ESTOCOLMO

Por, Michele Fernandes

Na Academia Real de Ciências da Suécia, ouve o seu nome ser chamado. Percorre o longo corredor sobre um tapete vermelho e sob o calor esfuziante dos aplausos, aquecendo os cinco graus negativos lá de fora. Após ser laureado, um microfone se instala à sua frente. É este o momento de fazer o seu discurso. Tímido, havia preparado uma folha de caderno com o resumo da sua contribuição científica e algumas frases de agradecimento. Enquanto olhava pra sua família orgulhosa, todos com os olhos gotejantes de emoção, começou a proferir um breve, porém emocionado discurso em sueco.

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Amor de hospício

Pela colunista: Mara Vanessa Torres

Uma tempestade cai sobre Santana dos Montes. As ruas da cidade estão cobertas por água e lama. Velhas construções coloniais seguem imperiosas e despreocupadas, com a força de quem já enfrentou dilúvios ainda maiores que aquele através dos séculos. Em uma casa humilde, próxima à igreja de Sant’ Ana, a idosa se prepara para mais uma visita. Usando o vestido lilás costurado há alguns dias, ela procura o gerânio que retirou do quintal logo cedo. Quer colocá-lo como adereço no cabelo. Precisa se apressar. Quando a chuva diminuir um pouco o ritmo, ela não irá perder nem mais um segundo dentro de casa.

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Décimo terceiro andar

As costas se esbarram no espelho enquanto olhos tropeçam em outros olhos miúdos e pedintes. O silêncio conversa com a fração dos segundos, as mãos que vinham coladas aos bolsos agora são livres para tatear a face que do outro lado emaranha-se em fogo alto. Um riso fino, e o peito pula de uma forma descompassada…

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Como as deusas da lua

Por, Mara Vanessa Torres

“Mara Vanessa Torres, é a nossa mais nova colunista. Para estrear sua colaboração aqui no blog, Mara nos contempla com seu conto: Como as deusas da lua. Apesar de feito algumas participações literárias por aqui, agora Mara virou nossa mais nova colunista oficial e toda semana vai nos agraciar com uma nova criação literária e também irá escrever sobre arte e cultura no geral, nos saldando com sua opinião a respeito do mundo literário.”

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O erótico dos 3

Era noite, quando os olhos se cruzaram e desviaram-se em frações.

A porta da sala é aberta. Ao notarem a chegada de alguém inesperado, tentam se posicionar de modo normal e recomendado. Havia muitas luzes acessas por quase todos cômodos da casa, mas, uma luz mais amarelada causava aos corpos sentados à cama, uma vontade de sentir a textura da pele, dedilhando com as digitais as partes de um corpo “feminino”.

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A cantora que acordou surda

Os fones não duravam. As cordas vocais viviam sendo rasgadas com suas notas mais altas. Ao abrir as janelas era o mesmo ritual, uma cantoria de leve para chamar os pássaros, de tarde, no caos do tempo, vivia de fone para se ouvir enquanto não podia cantar de peito aberto para o mundo. Era fã dos diálogos de rua. Hora pousava os ouvidos na porta dos bares enquanto esperava pelo ônibus de volta para casa. Hora ficava a orelhar outros cantores que brotavam nos arredores da cidade. Continuar lendo “A cantora que acordou surda”

Lista de compras

Folhas de fichário avulsas
2 cadernos de uma matéria
Canetas de ponta fina 0,5
Fones de ouvido
1 diário para as confissões proibidas
Meia dúzia de cerveja barata
3 garrafas de vinho branco
Uma caixa de lenços de bolso
1 par de chinelos
1 bermuda confortável
1 camisa de botão
Bilhete único
10 reais para algum deguste Continuar lendo “Lista de compras”

Um jato quente nos pequenos lábios

O corpo pousado em frente ao espelho, nu. As pernas abertas com as duas mãos em seu sexo carnudo. Os dedos firmes e grossos tocavam de forma apressada os pequenos lábios. As coxas eram grossas e meio flácidas, mas isso não a impedia de tocar em seu próprio sexo enquanto se olhava de pernas abertas, nua, por completo, em frente a seu novo espelho intacto. Seu rosto trazia a expressão de dor. Continuar lendo “Um jato quente nos pequenos lábios”

Símbolo feminino e lágrimas salgadas

Alguma coisa faz penicar os olhos de uma garota a minha frente. Talvez um cílios desprendido, ou quem sabe um teco de poeira urbana.

A garota tinha um broche com dois símbolos femininos em sua camiseta do Che Guevara e um pequeno corte sutil em um dos braços. Observei seus trejeitos em fração de segundos e voltei para minha leitura. Vez ou outra os olhos pinicavam e as mãos iam de encontro aos olhos. Continuar lendo “Símbolo feminino e lágrimas salgadas”