A cantora que acordou surda

Os fones não duravam. As cordas vocais viviam sendo rasgadas com suas notas mais altas. Ao abrir as janelas era o mesmo ritual, uma cantoria de leve para chamar os pássaros, de tarde, no caos do tempo, vivia de fone para se ouvir enquanto não podia cantar de peito aberto para o mundo. Era fã dos diálogos de rua. Hora pousava os ouvidos na porta dos bares enquanto esperava pelo ônibus de volta para casa. Hora ficava a orelhar outros cantores que brotavam nos arredores da cidade. Continuar lendo “A cantora que acordou surda”

Lista de compras

Folhas de fichário avulsas
2 cadernos de uma matéria
Canetas de ponta fina 0,5
Fones de ouvido
1 diário para as confissões proibidas
Meia dúzia de cerveja barata
3 garrafas de vinho branco
Uma caixa de lenços de bolso
1 par de chinelos
1 bermuda confortável
1 camisa de botão
Bilhete único
10 reais para algum deguste Continuar lendo “Lista de compras”

Um jato quente nos pequenos lábios

O corpo pousado em frente ao espelho, nu. As pernas abertas com as duas mãos em seu sexo carnudo. Os dedos firmes e grossos tocavam de forma apressada os pequenos lábios. As coxas eram grossas e meio flácidas, mas isso não a impedia de tocar em seu próprio sexo enquanto se olhava de pernas abertas, nua, por completo, em frente a seu novo espelho intacto. Seu rosto trazia a expressão de dor. Continuar lendo “Um jato quente nos pequenos lábios”

Símbolo feminino e lágrimas salgadas

Alguma coisa faz penicar os olhos de uma garota a minha frente. Talvez um cílios desprendido, ou quem sabe um teco de poeira urbana.

A garota tinha um broche com dois símbolos femininos em sua camiseta do Che Guevara e um pequeno corte sutil em um dos braços. Observei seus trejeitos em fração de segundos e voltei para minha leitura. Vez ou outra os olhos pinicavam e as mãos iam de encontro aos olhos. Continuar lendo “Símbolo feminino e lágrimas salgadas”

A primeira onça a gente nunca esquece

Olhos sedentos pela gula da carne, enaltecem os glóbulos negros que em minha direção se esbarram. Posso sentir o ardor e o frio dançarem de forma conjunta por minha espinha dorsal. Engulo a seco o medo, desvio o olhar das garras afiadas agora expostas perante ao sol das 15:24h. Continuar lendo “A primeira onça a gente nunca esquece”

Tudo Puta!

Ela galopou através do deserto e estacionou seu pequeno jegue em minha varanda, trouxe consigo um punhado de facas sem cabo, chupetas sem alça, e dois isopores vazios.

A convidei para tatear o solo azulejado enquanto ela dizia:

– Ei, olha o que eu trouxe lá de casa para você, querida.

E eu disse:

– Ok. Ponha as facas na cozinhas junto com as chupetas e deixe os isopores atrás da porta da sala. Continuar lendo “Tudo Puta!”

Velho, que horas que a gente morre?

Os dentes são espirrados da boca e postos novamente no lugar com uma das mãos. A outra mão segura um cigarro de filtro vermelho por entre os dedos. No bigode, resquícios de cinzas. Pele perfurada por acnes brutais, revestida em grandiosas crateras. Olhos amarelados caídos. Sobrancelhas grossas e juntas de Frida. Lábios finos em cima, um pouco grossos embaixo. Toda uma carcaça envelhecida pelo tempo e pelos raios quentes do sol. Continuar lendo “Velho, que horas que a gente morre?”

Sexo em banheiros públicos e juras de amor proibidas

Eu estava ali, olhando para aquela privada repleta de mijo nas bordas e em seu interior. Joguei um pedaço de papel dentro do vaso, olhei as paredes frágeis que revestem os banheiros públicos. Ao menos o lixo tem tampa: pensei. Tudo parecia cômodo. Seguramente frio e confortável. A única coisa quente naquele cubículo éramos nós, e mais quente que meu próprio corpo térmico era, Samanta. Ou melhor, a vagina de Samanta. Continuar lendo “Sexo em banheiros públicos e juras de amor proibidas”