Esquecidas aventuras

Por, Josi Siqueira

A vida tem passado rápido mas eu não me arrependo, não. Eu quero mais é aproveitar cada tiquinho que tiver direito. Ô, senhora, tu não vai comprar não? Vai só olhar, é? Ah, se eu cobrasse para as pessoas olharem minhas artes. Não é fácil fazer isso aqui, você sabe. Mas como eu ia dizendo, eu quero mesmo é desbundar. Quero fazer essas coisas doidas que a garotada faz. Dançar funk, quero dançar funk. Rebolar com a raba no chão, não é como dizem? Que foi, menina? Tá me achando doida, é? Aqui não tem meias palavras, a verdade pode ser feia mas é melhor que as mentiras cheias de floreios.

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@a_estranhamente

Eu, mulher, agênera!

Atento-me ao rubor dos dias insanos, bebericando cerva gelada, com os bicos despontados, ouriçados e enrijecidos.  Vejo lá longe, algo despontar entre esquinas e aqui dentro do que eu acho que sou, borbulha alguns mares de indecisões e descobertas abrupta. Tudo, absolutamente tudo ultimamente me faz indagar sobre o meu papel social e a que caixa pertenço eu, perante a esta vastidão de percalços soturnos de uma vida liberta e ao mesmo tempo enclausurada. Que papéis devo interpretar, se como detentora de carne humana, há sempre coisas por demais a me devorar em colheres de sopa?

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segunda-feira nada morna

Segunda-feira nada morna

Uma massa grossa de ar quente paira no ar transpingando do aglomerado de corpos. Filas e mais filas. Pessoas cabisbaixa com seus smartphones sondando algo menos desprezível para curtir no Facebook. Ao meu lado uma mulher branca, loira, na faixa dos quarenta anos, puxa em direção ao corpo sua bolsa, após eu esbarrar nela. Me olha assustada como um pardal ao despencar do ninho. Respiro uma massa quente, úmida, humana e, apenas sigo meu caminho.

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Vassouras pretas

O ar me falta até quase meus olhos saltarem para fora de meus buracos, sinto o cérebro sambar de forma torta dentro de uma enorme superfície, posso sentir a temperatura que as sombras possuem quando estão prestes a te arrastar para a morte. Caio então, em poços construídos pela repetição das causas. Boca seca, mãos congelantes, arrasto o dorso por debaixo de pele morta. Continuar lendo “Vassouras pretas”

Cheiro de mofo e dentes separados

Proporções de você se escoram em meus ombros derramando o perfume que usava em nossas juventudes. Meus olhos doloridos esguicham água salgada enquanto meus ouvidos sobrevoam para fora das janelas de plástico. Sinto sua voz desmanchando por entre meus dedos e meu útero dói constantemente. Vertigens acaloradas tomam conta de meu ser que hoje sente-se tão ausente, sente-se acanhado por sustentar ossos, sangue e pele. Continuar lendo “Cheiro de mofo e dentes separados”

Qual é o preço de uma pessoa invisível?

Hoje foi meu primeiro dia de aula na faculdade depois das férias. Coloquei o essencial na mochila: 1 livro, 1 guarda chuva, 1 suéter, 1 garrafa de 500ml de água, 1 pacote de biscoitos com 3 bolachas dentro. Vesti uma calça depois de quase dois meses sem usar uma roupa que não fosse um pijama. Atualizei minha playlist de música, deixei pendurado na altura do meu peito os fones de ouvido, coloquei no bolso traseiro do lado esquerdo da calça, um lenço, como aqueles de pessoas idosas, na cor azul claro e, finalmente sai as ruas rumo ao bairro Liberdade com uma extrema vontade de andar de ônibus. Continuar lendo “Qual é o preço de uma pessoa invisível?”

Varrendo os pretos para debaixo da calçada

O sol se mescla em meio a nuvens de chuva. Caminho apática e com o útero em dores pelas calçadas que há anos meus pés tanto percorrem. A vida continua frenética e as pessoas bordam um zigue-zague de forma proporcional.

Duas motos, dois homens brancos de farda, um jovem negro. Continuar lendo “Varrendo os pretos para debaixo da calçada”