4 poemas de, Mônica Barbosa

Poros, substância e chamado

Sou toda feita de poros, abertos, entreabertos…

Que sente os cheiros que me circundam em todas as dimensões do meu ser.

O valor e sentimento do olhar que me afaga, a vibração da dança, o suor que vem de mim e o do outro.

Sou toda expansão… transbordamento… poros… povos… chão… pele… bicho… mata ardente, efervescente, intenso de tons, profundezas e peixes.

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Mara Vanessa Torres

O SOL DOS NOTÍVAGOS

Em uma hora como essa, não há mais ninguém perambulando pelas ruas. Ou quase ninguém. No final da rua, arrastando as folhas secas das árvores recém-aniquiladas com os pés, dois amigos dividem uma garrafa de suco de laranja. Ao contrário do que toda gente pensa, eles são apenas amigos. O primeiro contato se deu há mais de vinte anos, por meio da caixa de correspondência destinada aos contatos interessados no fanzine “December Moon”. Nada demais, apenas um grupo de entusiastas de histórias em quadrinhos de terror. Dentre todos os membros, eles dois acabaram trocando endereço pelos inúmeros gostos em comum.

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Novos Autores, Liliana Ripardo

Transcendência, por Liliana Ripardo

Quando pequena me ensinaram que não deveria permitir ninguém me tocar de forma estranha, em locais inapropriados. Disseram-me que depois de uns anos eu sangraria todo mês como lembrete sobre ser mulher, mais que o “lembrete mensal” não é sinal de franqueza e sim de poder.

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Borboletas na chuva de, Mara Vanessa Torres

Chove forte. Gotas autoritárias despencam do céu sem bater na porta ou enviar carta de apresentação. Tudo pesa. O ar, a própria respiração, a cabeça, o corpo, a alma. Acima de tudo, a alma; fogo fátuo de nossa crença que derruba sobre os ombros uma tonelada inteira e tudo o que podemos fazer é movimentar as pálpebras de cima para baixo em círculos eternos de paz. Chove do lado de dentro da minha casa. Gastei horas na rua vagando em busca de soluções enquanto o sol reinava quente, auspicioso. A forte luz ofuscando a visão, clareando ideais que nem eu mesma sabia que tinha, apontando caminhos. As estradas já iluminadas são muito mais fáceis de seguir do que empreender uma busca por lamparinas em armazéns velhos, mesmo que essas lamparinas esquecidas produzam uma luz própria, alimentada ou apagada por você.

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Peça

A vida é uma peça de teatro muito bem montada. Daquelas que se você errar algo, perde um ou dois espectadores. Se confrontá-los será julgada(o) da forma mais ignorante possível. O script é feito pelas mãos de uma sociedade doente, que te observa desde criança, antes mesmo de você dizer uma palavra. Não os deixe ver que está com medo, usam isso contra você, isso e todas as outras vulnerabilidades que te faz ser humano. Quando as cortinas se fecham não terá mais nada, apesar de alguns permanecerem ao seu lado não poderá contar com eles de verdade. Nos dão a opção de lidar com um teatro cheio. Cheio de gente que não se importa, estão ali fazendo mais um papel, fingindo que se importam, sendo que quando todos forem, elas irão também. A gente tem sempre medo de pular uma fala ou rasgar aquele papel estúpido e sentar pra escrever outro. Então suporte esse peso nas suas costas e essa dor feita pela pressão em sua garganta. Só pare. Olha ao redor, todos seguindo pelo mesmo caminho da mesma maneira, cada um exercendo o seu personagem. Sabendo suas falas, seus gestos, seus movimentos, a quem recorrer, com quem falar, em quem se aproximar. Continuar lendo “Peça”

Tela em branco

Era uma tela em branco, refletindo tudo o que andava sentindo. Tomou um gole do café, acendeu o cigarro. Era de madrugada, a rua ainda fazia barulho. A cidade nunca dormiu de verdade. Mergulhou o pincel na tinta vermelha e passou pela tela, depois na azul, na preta, na branca. Estava a semanas sem produzir nada, os papéis andavam jogados pelos cantos do apartamento, assim como as telas que se empoeiravam. Nada saía.Nem arranhando pela garganta, muito menos pelas pontas dos dedos das mãos. Era só uma mistura de cores aleatórias, completamente sem sentido, revirando sua cabeça. Encarou o líquido preto no copo e o viu fazer parte do caos naquela tela, escorrendo por entre as cores.Tinha que respirar, tomar um banho, sair de casa, comer alguma coisa, ver gente, sentir o mar. Aquelas coisas que lhe fariam bem. Mas não queria, nem tinha vontade. Se sentia nada, estar ou não estar, não faz diferença, não faz falta, como se nunca tivesse vivido de verdade. Existiu em alguma época e sumiu com o tempo que se foi, mas permaneceu entranhado. Passou a vida tendo suas sensibilidades apunhaladas, família, escola, rodas de amigos, sendo observada. O vazio dos corredores do prédio nessas horas, tirava um peso das suas costas. Não tinha muito com o que se preocupar. Não haviam olhos para lhe ver. Encostou a tela no poste, percebendo pela calçada que molhava a sola dos seus pés descalços, que não havia visto a chuva passar. Olhou para aquela avenida, ouvindo vozes ao longe. Eram risadas. Fazia três dias que não saía de casa, a madrugada andava  tirando seu sono, mas lhe dava outro mundo para observar, melhor do que aquele que a levava a se esconder. Era reconfortante. Continuar lendo “Tela em branco”

Observar em silêncio é melhor que dizer algo

Observar em silêncio é melhor que dizer algo – poderia ser uma das máximas da minha vida. Estou plenamente convicta que esta é uma das atitudes mais sábias que terei aprendido ao longo das minhas quatro décadas.

A verdade é que até há algum tempo eu não era nada assim. Poderia dizer que, quando era “Menina e moça”, era aquilo que em Portugal se chama de “uma rapariga sem papas na língua”. Sempre gostei de falar, de exprimir as minhas ideias, os meus pontos de vista. Sempre gostei de contar aos outros sobre aquele livro ou aquele filme que tinha visto e que era tão, mas tão bom, que tinham absolutamente de ler ou ver. E assumo que me dava um prazer enorme perceber quão persuasivo era o meu discurso, quando a pessoa me vinha falar do livro ou do filme que tinha acabado por ler/ ver por causa da minha crítica positiva. Continuar lendo “Observar em silêncio é melhor que dizer algo”

Novos Autores

O sonho comanda

“Tiago, a criança que sonhava…”

“Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer…

(…)

Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos duma criança”

                                                Pedra Filosofal – Manuel Freire Continuar lendo “O sonho comanda”

NOVOS AUTORES

NOVOS AUTORES

Sou Negra Eu sou

Não sou moreninha da cor do pecado.
Não me rebaixo alisando meus cachos, não me moldo ao seu padrão esbranquiçado.
Sou Negra! Eu sou!
Carrego comigo a cor de uma nação.!
E não sou descendente de escravos.
Em minhas veias corre o sangue de reis e rainhas escravizados.
Sou Negra! Eu sou! Continuar lendo “NOVOS AUTORES”